Mais Perto que Nunca
Robin Jones Gunn
Srie Selena 11

Ttulo original: Closer Than Ever
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2003
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat





Uma carta do Paul traz as melhores notcias que Selena poderia esperar: finalmente ela poder rev-lo. E o fato de faltarem poucas semanas para as aulas terminarem, 
deixa Selena na maior expectativa. Agora sim, as coisas esto ficando do jeito que ela sempre sonhou...
MAIS PERTO QUE NUNCA
Selena est superempolgada desde a hora em que soube que Paul iria passar alguns dias em Portland e poder participar da sua formatura. Ela no pra de fazer planos 
e deseja que cada momento ao lado dele seja perfeito.
Os amigos de Selena tambm esto na maior animao. Com o final do perodo escolar todos esto na expectativa de cursar a mesma faculdade: Rancho Corona, na Califrnia. 
Menos Vicki, que apesar de ter enviado toda a documentao ainda no recebeu sua aprovao. Isso deixa Selena chateada, pois parece que os planos de todos estudarem 
na mesma escola no vo se concretizar. Na noite da formatura, a turma combina um jantar de comemorao. Porm, a notcia de um terrvel acidente areo interrompe 
a festa, e as informaes desencontradas levam Selena a pensar o pior. Essa situao ser um teste para sua f? Ela conseguir entregar seus medos para Deus e sentir-se 
mais perto que nunca do Pai Celestial?
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Srie Selena

Mais Perto que Nunca


Robin Jones Gunn







Para todas as "Amys" que j conheci.
Por favor, "voltem" logo!


                                                                                                                                                                 





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Captulo Um
      
      Selena Jensen deu um suspiro fundo e fechou os olhos. Acabara de receber uma carta e quase nem acreditava na notcia que ela lhe trouxera. Olhou de novo para 
o papel de seda, fininho, e para a grafia precisa, de letras grandes, escritas em tinta negra. , era a letra de Paul, no havia dvida. E aquelas palavras tambm 
eram tpicas dele. Dizia:
      Fiz uma alterao nos planos da minha viagem de volta da Esccia. Vou partir do Aeroporto de Heathrow no dia 12. Assim poderei dar uma parada de quatro dias 
em Portland, antes de seguir para casa, em San Diego. O que voc acha disso? D para ter mais um convidado em sua formatura?
      Mas eu lhe dou uma ligada -'pera a. No  assim que se fala a nos Estados Unidos, no.  telefonar. Eu lhe telefono. No,  "chamar", n? , chamar. (Puxa, 
parece que j tem muito tempo que estou fora de casa!) Ento, vou lhe fazer uma chamada na semana que vem, depois que voc j tiver recebido esta carta. Quero visitar 
meu Tio Mac e ver como a Highland House est indo. Portanto vou passar esses quatro dias com ele.
      Mas, Selena, quero que voc seja muito sincera comigo, como sempre . (Estou rindo s de pensar em voc tentando dar uma desculpa diplomtica. Quase impossvel, 
n?) Ento, na hora que eu telefonar, voc me diz com toda sinceridade se quer que eu v  sua formatura. Reconheo que  um momento muito importante para voc e 
seus colegas; e no quero atrapalhar seus planos.
      
      - Meus planos! disse a garota, rindo alto.
      Estava sentada no balano da varanda, com as pernas encolhidas. Era uma tarde quente de junho, e no havia ningum por perto para ouvi-la.
      - Que planos? Sair daquele salo nobre, tirar fotos com mame e papai e depois vir pra casa, pra festinha da famlia. Meu plano  s esse. Vou ter muito tempo 
pra voc, Paul.
      Jogou para trs o cabelo longo, bem encaracolado, e fechou um pouco os olhos por causa do reflexo da luz do Sol na vidraa de um veculo que chegava. Era uma 
caminhonete e parou bem em frente  casa. Dela saiu Ronny, batendo a porta da cabine e se encaminhando para ela com um sorriso. Nas mos, ele segurava um envelope 
tamanho ofcio.
      - Adivinhe o que aconteceu! disse o rapaz, ajeitando o bon na cabea.
      Ele a olhava com aquele seu sorriso caracterstico, entortando a boca.
      - Chegou! continuou Ronny.
      Selena dobrou rapidamente a carta de Paul.
      - Chegou o qu?
      O rapaz se aproximou e lhe entregou o envelope. A garota o pegou, notando que no alto dele havia o timbre da Universidade Rancho Corona. Olhou para o amigo 
com uma expresso de expectativa, erguendo as sobrancelhas.
      - E a? Foi aceito? *
      Ronny ficou parado, com os braos cruzados, esperando que ela abrisse a carta para ver se ele fora aceito ou no. Ele se inscrevera na mesma universidade em 
que Selena e mais alguns colegas iriam comear a estudar dali a alguns meses.
      Pouco tempo antes, eles tinham ido  Califrnia para conhecer a escola, e Ronny fora o que se mostrara mais entusiasmado em estudar l. O pessoal da faculdade 
j enviara correspondncia a Selena, comunicando que ela fora aceita. Sua amiga Vicki ainda no havia recebido nada, e Ronny, s agora.
      A garota hesitou um pouco. Naquele momento, o rapaz no parecia muito empolgado. Ser que haviam lhe recusado a matrcula? O que poderia dizer-lhe? Como iria 
poder disfarar a alegria que sentia pela notcia que Paul lhe dera, caso Ronny no tivesse sido aceito? Com gestos cuidadosos, abriu o envelope e pegou a folha 
que havia dentro, que tambm trazia o timbre da escola.
      - "Caro Ronny", leu em voz alta. "Temos o prazer de informar-lhe que seu pedido de matrcula nesta universidade foi aceito."
      Selena deu um pulo do balano.
      - Uuuuuuuuhhhh! gritou. Conseguiu! Que maravilha, Ronny!
      Chegou perto do amigo e lhe deu um abrao, mas ele permaneceu parado, de braos cruzados. Selena se afastou dele.
      - O que foi? indagou.
      - Tem mais. Continue a ler.
      A garota correu os olhos pelo papel at chegar ao ponto onde parara. Em seguida, continuou:
      - Bl, bl, bl.... "Informamos tambm que seu requerimento acerca da bolsa de estudos para o curso de msica foi aprovado na primeira anlise da direo e 
est sendo encaminhado para a avaliao final. Deveremos ter uma resposta definitiva para voc dentro dos prximos vinte dias."
      Selena chegou-se para o amigo e o abraou de novo. Dessa vez o rapaz correspondeu.
      - Est tudo dando to certo que quase nem acredito, comentou ela. Voc no est feliz da vida?
      - Claro que estou, replicou ele.
      Contudo a expresso dele era a mesma de sempre. Nesse momento, Selena se lembrou de que nunca o vira muito empolgado com nada. Alis, vira-o apenas uma vez 
- quando um jornal da cidade publicara uma crtica muito favorvel a respeito da banda de Ronny. Isso se dera aps uma das apresentaes deles no The Beet, um barzinho 
para jovens, que havia em Portland.
      - Temos de ir contar isso pra Vicki, disse Selena, virando-se e pegando a carta de Paul que deixara no balano. Espere a. Volto j. Vou dizer  minha me 
que vamos l na Vicki.
      - Acho que agora ela 't trabalhando, interps Ronny.
      - Ah,  mesmo! Hoje  tera-feira. Ento vamos... principiou ela e parou.
      Ps um p no degrau da escadinha para entrar na casa, uma manso vitoriana que pertencia  sua av, com quem eles moravam.
      - J sei, prosseguiu, vamos jantar fora para comemorar Vou dizer pra minha me que vamos sair. Ronny, entre aqui e v dando uns telefonemas pra nossa turma, 
pra se encontrarem conosco.
      - Onde voc 't querendo ir jantar? indagou o rapaz, seguindo-a e indo at a cozinha.
      - Que tal algum lugar l no centro? No quero nem pizza nem tacos*. Vamos comemorar um grande acontecimento!
      Em seguida, abriu a portinha que dava para o poro e gritou pela me.
      - Um restaurante italiano, ento? perguntou Ronny, j com o telefone na mo.
      - timo! exclamou ela, apontando para o amigo. Acho que a Amy est de servio hoje, e j est no horrio dela. Ser que vamos precisar fazer reserva? Me, 
a senhora est a embaixo?
      - Sei no, comentou o rapaz. A que horas vamos?
      - Acho bom irmos agora, porque mais tarde fica muito cheio. Provavelmente no vamos precisar fazer reserva. Ligue pra Amy e avise que vamos pra l. Pode at 
ser que o tio dela lhe d a sobremesa de graa, quando souber que voc foi aceito na faculdade.
      Ela desceu alguns degraus da escadinha e gritou de novo:
      - Me!
      O poro estava em silncio, a luz, apagada. Selena subiu de volta e encontrou a me no alto da escada.
      Sharon Jensen era uma mulher magra, cheia de energia, como Selena. Tinha seis filhos. Devia estar acostumada com barulho, mas olhou para a filha franzindo 
a testa.
      - Que barulhada  essa? Eu estava l em cima, com os garotos.
      - Ronny foi aceito na Rancho Corona! informou ela. Que maravilha, n?
      - Oh! Parabns, Ronny! exclamou D. Sharon, dando um tapinha nas costas do rapaz e desfazendo a carranca.
      Ele j estava ao telefone, conversando com um dos colegas. Olhou para a me de Selena e deu um sorriso e um aceno de cabea.
      - E talvez ganhe a bolsa, continuou Selena. Na carta, eles disseram que vo dar a resposta final dentro de vinte dias.
      - Mas isso  timo! disse a me. Que bom pra voc, Ronny! Seus pais devem estar muito satisfeitos, hein!?
      O rapaz acenou de novo e continuou falando ao telefone.
      - Eu tambm recebi uma carta hoje, interps a garota, mostrando seu envelope com selos da Gr- Bretanha.
      Em seguida, deu alguns passos em direo  sala de jantar e fez um sinal  me para que se aproximasse, como se quisesse lhe contar um segredo.
      - Sabe de uma novidade? A senhora nem vai acreditar! Paul disse que vai vir pra minha formatura, comentou em tom alegre, erguendo a carta. E falou tambm que 
vai ficar aqui quatro dias.
      - Aqui em casa? quis logo saber a me.
      - No, na casa do tio dele. A senhora sabe. Na Highland House.
      - Ah, , claro! Oh, que tima notcia, Selena!
      -  mesmo! E eu e o Ronny vamos jantar fora pra comemorar. Ele 't chamando alguns amigos nossos pra irem tambm. Vamos ao restaurante da Amy. Eu posso, n?
      - Quem vai pagar?
      - Cada um paga o seu, explicou Selena, como sempre fazemos.
      A garota olhou para o short folgado que estava usando e para a camiseta que vestira quando chegara da escola.
      - Ser que devo trocar de roupa?
      A me dela olhou para Ronny, que estava de cala jeans, camiseta e bon, e replicou:
      - Acho que pode ir com essa roupa mesmo. Talvez possam ir a um restaurante mais simples.
      Nesse momento, Ronny pendurou o fone no gancho e se virou para elas.
      - O.k.! Tudo combinado! O Tre vai ligar para o resto do pessoal pra que a gente possa ir pegar a Vicki. Creio que ela larga servio s 5:00h.
      - Ento  bom irem logo, comentou a me de Selena, dando uma espiada no relgio.
      - Em que carro? indagou Selena.
      - No seu, respondeu Ronny. O meu 't quase sem gasolina, e talvez a gente precise dar uma carona para o Tre na volta. Alm disso, na minha caminhonete no 
cabe ns dois e mais ele e a Vicki.
      - Selena, interveio D. Sharon, lembre que voc s pode levar mais trs no carro.
      - Eu sei, me, no se preocupe.
      Uma vez, a garota tinha levado cinco pessoas no seu velho fusca. E Vicki tivera de sentar no banco de trs, no meio, sem cinto de segurana. Tinham rodado 
apenas alguns quarteires, mas Selena ficara o resto da semana com sentimento de culpa. Naquele dia, jurou a si mesma que nunca mais iria desobedecer a exigncia 
dos pais de que nunca andasse com algum sem cinto de segurana.
      Selena e Ronny foram at a sala, onde havia um cabide tipo "rvore", no qual estava sua mochila. A garota pegou-a e retirou dela uma bolsinha. Nesta cabiam 
apenas sua carteira de motorista, um pouco de dinheiro e o brilho para os lbios. Entretanto era s disso mesmo que ela precisava, pois o chaveiro ficava preso ao 
zper. A garota guardou a carta de Paul na mochila, e em seguida os dois saram.
      Enquanto seguiam em direo ao carro dela, Brutus, o cachorro da famlia, ficou a olh-los. Era um co enorme, muito brincalho e carinhoso, que estava em 
p com as patas dianteiras na grade do cercado. Ele soltou um latido grave, e Ronny foi l e lhe coou a cabea.
      - Vamos! chamou Selena j no carro.
      Ela enfiara a chave na ignio e estava pronta para dar a partida.
      - Conte pra essa bola peluda a notcia que voc recebeu e vamos embora.
      Ronny aproximou- se, entrou, sentou-se no banco traseiro e fechou a porta.
      - U! O que foi? indagou a garota.
      O rapaz estava sentado no meio do banco, com os braos abertos sobre o encosto. Fitava Selena com o queixo erguido, como quem olha o outro "por cima".
      - Estou com vontade de ser "prncipe por um dia", explicou. E com voc de motorista. Quero ver como uma pessoa se sente numa situao dessas. No  todo dia 
que a gente  aceito numa faculdade e praticamente ganha uma bolsa pra estudar msica.
      Selena riu e ligou o carro.
      - Como queira, Alteza!
      Os dois caram na risada.
      - Mas tem de colocar o cinto de segurana. Lembre o que minha me disse.
      Ronny escorregou para o lado direito do banco.
      - Pronto; j coloquei.
      - Nem acredito que estou dando uma de motorista, comentou Selena, arrancando.
      Partiram em direo  agncia de automveis do pai de Vicki, onde a amiga deles trabalhava em meio expediente. Em dado momento, pararam em um sinal que todos 
diziam ser mais demorado que os outros. Nessa hora, Selena viu uma lata de refrigerante rolando de um lado para outro no assoalho do carro e resolveu brincar mais.
      - Agora, pra sua satisfao, vamos dar incio ao nosso servio de bordo, disse.
      Em seguida, pegou a lata e a entregou a Ronny.
      - Ei! Sem o balde de gelo?
      - Sinto muito, senhor, mas na classe econmica  assim.
      - Voc tinha de dizer: "Como queira", brincou o rapaz.
      O sinal abriu e Selena passou o cruzamento. Um pouco mais adiante entrou num posto de gasolina e estacionou junto  lojinha de convenincias. Correu l dentro, 
pegou um copo de plstico e encheu de gelo na mquina de atendimento automtico. A seguir, colocou a tampinha prpria no copo e apanhou um canudinho. Depois, ainda 
apressada, foi ao balco, pegou alguns tabletes de chocolate, pagou tudo e saiu. Levara menos de um minuto. Guardando o troco no bolso, dirigiu-se para o veculo. 
Ronny estava deitado, com as pernas sobre o encosto do banco dianteiro e os ps para fora da janela.
      - Como queria! disse ela, estendendo o gelo e os chocolates para o amigo. Vai curtindo a essa "paparicagem", seu "prncipe por um dia", porque esta  a ltima 
vez que vou lhe dar toda essa ateno.
      Ronny aceitou alegremente o "servio de bordo" e estendeu  garota os tabletes para que ela escolhesse primeiro. Em seguida, partiram novamente e Selena disse:
      - , mas hoje voc merece essa ateno toda. Ento, aproveite bem, companheiro!
      - Estou aproveitando, respondeu o rapaz e, em seguida, para dar mais nfase ao que dissera, bebeu ruidosamente um bom gole do refrigerante, agora gelado.
      Quando entravam no ptio da Autos Navarone, Ronny disse:
      - Ei! Aquela ali que est saindo do showroom no  a Vicki?
      Era mesmo. Vicki tinha um jeito todo peculiar de caminhar. Nesse dia, ela fizera um cacho com seu sedoso cabelo castanho e o prendera  cabea. Ao ombro, trazia 
sua mochila de cor azul-escura.
      - Parece que chegamos bem na hora, comentou Selena, apertando a buzina do carro, que soou meio fraquinha.
      Vicki virou-se e logo os avistou. No rosto, estampava uma expresso preocupada. Selena parou o carro perto dela e gritou:
      - Ei, Vicki, entre aqui! Estamos indo comemorar!
      A garota aproximou-se e se debruou na janela do veculo. Vendo Ronny no banco traseiro, indagou:
      - Por que voc est a atrs?
      - Sou "prncipe por um dia", replicou ele.
      - Eu o estou chamando de "Alteza", explicou Selena.
      - U, por qu? quis saber Vicki, que ainda tinha o ar de preocupao.
      - Porque hoje, principiou Ronny, fui honrado com uma carta de uma certa universidade, dizendo que me aceitaram como aluno. E talvez ganhe uma bolsa de estudos 
tambm. Mas no precisa se inclinar, no. Desta vez, no. Quer chocolate?
      -  mesmo? indagou Vicki, sem demonstrar o menor interesse pelo chocolate.
      Seu rosto, de traos delicados, ficou ainda mais tenso.
      - Voc tambm recebeu sua carta hoje? E tem certeza de que o aceitaram mesmo? indagou ela.
      - Tenho. J est oficialmente resolvido.
      - Voc tambm recebeu sua carta, Vicki? indagou Selena.
      A garota acenou que sim, mas com um ar triste.
      - E a? insistiu Selena.
      - Minha me me ligou e disse que tinha chegado, mas ela no quis abrir. Falou que era eu que tinha de l-la. Mas eu estou muito nervosa, gente. Se eles no 
me aceitarem, o que vou fazer?
      - Ah, eles vo te aceitar, sim, interps Selena. Voc vai estudar na Rancho conosco. No vamos de forma nenhuma nos conformar com uma resposta negativa. A 
gente vai l e faz um movimento de protesto naquela secretaria, ou algo assim. Tenho certeza de que te aceitaro, sim. Vamos  sua casa pegar a carta e depois seguimos 
para o restaurante DeGrassi. O Ronny ligou pra uma poro de colegas, e vamos nos encontrar com eles l.
      - Sei no, disse Vicki, talvez eu no deva ir. Tenho muito dever de casa pra terminar.
      - Dever de casa? repetiu Selena. De que matria? Eu no tenho nenhum. S preciso estudar para as provas finais da semana que vem. E depois,  s folga.
      - Na verdade, explicou a outra,  um trabalho que estou fazendo para o Prof. Wellington, pra melhorar minha nota. E tenho de entreg-lo amanh.
      - Olhe aqui, interveio Ronny, so 5:00h. Ns no vamos demorar muito. At s 7:00h voc j estar de volta em casa. Entra a. Depois a gente te traz.
      A garota ainda hesitou um pouco, mas afinal abriu a porta do carro, sentando-se no banco da frente.
      - 'T bom, disse. Eu vou, desde que esteja de volta s 7:00h, no mais tardar s 7:30h.
      - A no, interps Ronny. Voc tem de vir aqui atrs comigo.
      Afinal Vicki sorriu, desfazendo as rugas de preocupao.
      - O.k. Chega pra l, Majestade!
      - No  "Majestade", no, corrigiu o rapaz.  "Alteza", faz favor.
      - E qual  a diferena? indagou Vicki em tom brincalho.
      Selena virou o veculo e partiu em direo  casa da amiga, que ficava a poucos quilmetros dali. Comeou a se sentir constrangida de estar na frente, sozinha. 
Uma coisa era aceitar aquela brincadeira com o Ronny. Agora, porm, rodando pela cidade com os dois no banco de trs, rindo e se divertindo, era diferente. Ela se 
sentiu ridcula.
      Contudo, de certo modo, achava timo o Ronny ter chamado a Vicki para se sentar ao lado dele. Havia j um bom tempo que a amiga gostava do Ronny, mas ele sempre 
se mostrara frio e desinteressado, por ela e por outras garotas. Entretanto nesse momento ele a estava tratando de um jeito divertido, todo especial. Provavelmente 
sua amiga estava se sentindo at mais animada com relao ao rapaz.
      Ao mesmo tempo, porm, Selena teve uma sensao ruim. E se a Universidade Rancho Corona no tivesse aceitado a Vicki? O que fariam? Como poderiam comemorar 
a conquista do Ronny, se sua amiga no tivesse sido aceita? E depois lhe ocorreu um pensamento ainda pior. Como poderia estudar naquela faculdade se a amiga no 
estivesse l? J tinham at conversado em ser colegas de quarto e fazerem juntas algumas das disciplinas, para que pudessem ajudar uma  outra com os trabalhos da 
escola. Selena iria ficar bastante decepcionada se Vicki no fosse aceita. E sabia que a outra tambm iria se sentir muito desolada.
      - Sabe o que mais? disse afinal. Acho que poderamos ir direto para o restaurante, j que os outros esto nos esperando l. A, Vicki, voc pode deixar pra 
ler a carta depois que voltar pra casa, concluiu ela, dando uma espiada pelo retrovisor para ver se algum lhe responderia.
      A princpio, nenhum deles disse nada. Por fim, Vicki replicou:
      - Ah, mas no quero prolongar ainda mais esta tortura.
      - Achei que talvez voc pudesse esquecer essa questo por algumas horas, replicou a garota. Primeiro a gente ia jantar e depois seguia pra sua casa. E se voc 
quiser, eu e o Ronny podemos ficar l, enquanto voc abre a carta, mas s se voc quiser.
      - No sei... replicou Vicki.
      - Ento, pegue a carta e leve para o restaurante pra abrir l, sugeriu o rapaz.
      - E se tiverem me rejeitado? interps a garota.
      - A, ns todos vamos te alegrar, respondeu Selena, olhando de novo pelo retrovisor.
      - Era assim que voc queria abrir sua carta? perguntou Vicki.
      Ronny deu de ombros e fitou Selena pelo espelho.
      - No, disse Selena, respondendo pelos dois. Voc tem razo.  melhor ns a levarmos at sua casa e deixarmos que leia a carta sozinha. Depois voc vai para 
o restaurante pra nos dar a boa notcia. Porque tem de ser uma boa notcia, Vicki. Tem de ser. Eu e o Ronny recebemos cartas hoje, todas as duas timas. Agora  
sua vez.
      - S tem um problema, disse Vicki. Meu carro ficou l no meu servio.
      - Ah,  mesmo!
      - , ento voc tem de ficar com a gente, falou Ronny. Um por todos e todos por...
      Vicki inclinou- se para a frente e ps as mos no encosto do banco de Selena.
      - Que carta voc recebeu, Selena? Voc j tinha recebido a da universidade. Ganhou outra bolsa?
      - No, foi uma carta muito melhor.
      - Ah! exclamou a outra, soltando o encosto.
      Pelo seu tom de voz, parecia que ela entendera que a carta era de Paul. Selena recebera vrias cartas do rapaz nos ltimos meses. Embora ela no falasse sempre 
para a amiga sobre o contedo delas, esta sabia por alto quantas chegavam e qual era o assunto geral.
      Selena pedira a Vicki e a Amy que a "vigiassem", com relao aos "vos" da sua imaginao.  que, anteriormente, ela se deixara levar pela fantasia e imaginara 
que Paul dissera palavras que na realidade ele no quisera dizer. Agora, porm, as amigas estavam acompanhando de perto o relacionamento dela com o rapaz, e Selena 
estava mantendo "os ps no cho".
      - Depois ento voc me conta sobre essa carta, disse Vicki para a amiga, no momento em que chegavam  casa dela.
      - Conto, sim, claro, replicou a outra, virando-se para Vicki com um amplo sorriso, j dando a entender que a carta fora maravilhosa.
      Vicki, porm, no parecia ter notado nada. Seu rosto se mostrava novamente tenso.
      - Ah, eu no estou com vontade de entrar. No quero ler aquela carta.
      - Ah, que  isso? interveio Ronny. Ns vamos com voc, se quiser.
      - Tenho certeza de que eles te aceitaram, comentou Selena.
      Contudo, assim que terminou de falar, compreendeu que no tinha o direito de dizer aquilo. E se no a tivessem aceitado? No tinha nenhum poder de decidir 
sobre o futuro de Vicki, assim como no tinha sobre o seu. De repente, ela se deu conta de que se encontravam em uma importante encruzilhada na vida. O contedo 
da carta de Vicki poderia mudar para sempre a amizade delas. Novamente lhe sobreveio uma sensao desagradvel. Ficou em silncio, esperando que a amiga tomasse 
a deciso sozinha.
      -'T bom, 't bom, disse Vicki afinal, soltando um suspiro. Vamos acabar com esse suspense. Quero que os dois entrem comigo.
      Selena estendeu o brao para abrir a porta do carro e ao mesmo tempo pensou:
      E ns dois queremos entrar com voc. 
      

      
Captulo Dois
      
      A porta da casa de Vicki estava trancada. A garota pegou a chave dentro de sua mochila, dizendo:
      -  mesmo; esqueci que minha me disse que ia fazer umas compras. Vou deixar um bilhete pra ela, informando pra onde fomos.
      Os trs atravessaram a sala e foram direto para a cozinha. A luz do Sol, entrando pela janela, dava em cheio na mesa redonda. Parecia um claro de holofote 
sobre a carta que se achava sobre ela, encostada em uma jarra com bocas-de-lobo amarelas.
      - Est ali, disse Selena, que avistou o envelope antes da amiga.
      Vicki pegou-o e se ps a olh-lo.
      - Sei que isso  bobagem. Afinal, no  to importante assim.
      - , sim, interps Ronny.  muito importante. Pelo menos eu acho que .
      Vicki olhou para ele.
      - A questo  que nunca recebi uma carta desse tipo antes, explicou. Nunca entrei num concurso e fiquei esperando a resposta pra saber se ganhei ou no. Nunca 
passei por algo assim.
      - Ento abre logo! disse Selena em tom impaciente.
      Ronny e Vicki olharam espantados para a garota, como se ela tivesse, de repente, interrompido um momento de privacidade entre os dois.
      - Quero dizer, explicou-se a outra, ser que s de saber a resposta voc no vai se sentir melhor?
      Vicki olhou para a carta e deu um suspiro.
      - , acho que sim.
      Em seguida, enfiou o polegar debaixo da aba do envelope e se ps a abri-lo cuidadosamente, bem devagar. Selena comeou a ficar inquieta. Era como se estivesse 
vendo Tnia, sua uma mais velha, abrindo os presentes de Natal. Tnia gostava de guardar todos os papis de embrulho e, por isso, os abria com cuidado. Parecia at 
que o papel era mais precioso do que o prprio presente. Ela no queria que rasgasse nem amassasse.
      Por fim, Vicki tirou a carta com o timbre da Universidade Rancho Corona. Era uma folha s, e ela a desdobrou lentamente. Tanto Selena como Ronny se aproximaram 
e se puseram a ler junto com ela.
      - Ah, no! exclamou Selena. Tanta ansiedade por uma carta dessas!
      -  que eu no sabia, n? comentou Vicki, com uma ponta de irritao.
      - Que  isso que eles esto pedindo a? quis saber Ronny. Que formulrio  esse?
      - No tenho a menor idia, replicou Vicki.
      -  um dos formulrios que eles mandam pra gente junto com os papis da inscrio, explicou Selena. Eles esto dizendo que voc no o devolveu devidamente 
preenchido quando enviou o resto da documentao. E para analisarem sua situao, vo precisar dele. Voc sabe onde ele 't? Talvez voc possa preencher agora e 
a gente pe no correio de uma vez, quando estivermos indo para o restaurante.
      - Vou verificar no pacote que me mandaram com todo o material. 'T no meu quarto e sei exatamente em que lugar.
      Selena logo pensou que era muito bom que no seria ela quem teria de procurar algo em seu quarto. Em questo de quarto arrumado, ela era o oposto da amiga. 
Elas haviam at conversado a respeito do assunto, quando tinham falado sobre ficar juntas no dormitrio da faculdade. Selena prometera a Vicki que iria fazer todo 
o possvel para procurar ser igual a ela nesses cuidados. Alis, durante vrios anos, ela convivera com sua irm Tnia, que era quase neurtica com relao a arrumao. 
Ento, quando queria (o que no era sempre), conseguia manter o seu lado do quarto igual ao da irm.
      Vicki se sentira ofendida ao ver que a amiga a comparara a Tnia, dando a entender que ela tambm era "neurtica". Selena logo mudara de assunto e, consigo 
mesma, jurou nunca mais fazer comparaes entre as duas, embora elas realmente fossem muito parecidas. A semelhana entre elas era bem mais significativa do que 
Selena imaginara.
      - Bom, no ter notcia  sinal de boa notcia, n? comentou Selena em tom alegre, virando-se para o Ronny depois que Vicki saiu para ir ao quarto. Quero dizer, 
no foi to ruim assim. Podemos ir comemorar e a Vicki tambm poder alegrar-se.
      - Sei no, replicou o rapaz. Acho que isso ainda  pior que uma negativa. Significa que ela ter de esperar mais tempo pra saber a resposta final. A espera 
pode ser mais torturante do que uma rejeio, concluiu ele, dando mais uma olhada na carta.
      - Voc acha que ela no vai ser aceita? Quero dizer, no  to difcil assim entrar naquela faculdade, ?
      Ronny tirou o bon, coou a cabea num ponto em que o cabelo louro e curto estava todo espetado para o alto e em seguida o recolocou.
      - Pra ela no  igual como  pra gente, explicou, abaixando um pouco a voz. Vicki no tem notas altas como voc nem as dificuldades financeiras que eu tenho. 
Pra ela, talvez seja mais difcil do que imaginamos.
      Selena arrancou uma boca-de-lobo do ramo que estava na jarra. Ficou apertando de leve na base da flor, fazendo-a abrir e fechar a "boquinha".
      - Ela vai ser aceita, disse. Ela tem de ser aceita.
      - Como foi que voc fez isso? indagou Ronny, olhando para o pequenino "fantoche" na mo da amiga.
      - Nunca viu boca-de-lobo, no?
      A garota repetiu o movimento com a flor e o rapaz sorriu.
      - Que legal! exclamou. Deixe-me fazer isso!
      - Pegue uma pra voc, respondeu ela com jeito brincalho, afastando dele seu "brinquedinho".
      Vicki retornou  cozinha com um envelope grande, de cor parda.
      - Ser que sua me vai achar ruim se a gente brincar com as flores dela? quis saber Ronny.
      - O que voc quer fazer? perguntou ela.
      - Um fantochinho com a boca-de-lobo. Ser que ela vai achar ruim?
      - Nada. Nosso quintal 't cheio dessa flor.
      -  mesmo? indagou o rapaz. Posso ir l pegar umas?
      Vicki, que estava olhando os papis em sua mo, ergueu os olhos.
      - Voc 't querendo colher flores? indagou, com uma expresso interrogativa no rosto.
      - Estou. Posso?
      - Fique  vontade, disse ela, apontando para a porta dos fundos.
      O rapaz saiu e a garota indagou:
      - O que  que h com ele? 'T com um jeito estranho hoje!
      Selena deu de ombros e, falando com uma voz aguda, como a de um fantoche, comentou:
      - Talvez ele tenha ido colher flores pra dar a voc, como demonstrao de um amor eterno.
      - Ah, 't bom!  isso mesmo! Finalmente devo ter usado um perfume fatal, e Ronny acordou de seu profundo coma e me viu...
      - Acho bom comprar um frasco grande desse perfume, disse Selena, ainda com a vozinha do fantoche.
      Vicki deu uma olhada para a "boquinha" amarela da flor e sorriu.
      - Eu acho  que ele 't com muita cafena na cabea, isso sim. Esse  que  o problema.
      Continuou examinando os papis da faculdade e finalmente tirou um deles.
      - Olhe, acho que  este aqui. Parece que nos esquecemos dele. Meus pais vo ter de assin-lo. Ento, no adianta ficarmos aqui perdendo tempo com ele. Vou 
deix-lo aqui, junto com a carta, e eles vo entender.
      - Voc ficou chateada? indagou Selena, agora com sua voz normal.
      - Um pouquinho, sim. Claro que foi melhor isso do que receber uma negativa. Mas no  o que eu estava esperando. Ento vamos para o restaurante? Vou deixar 
um bilhete pra minha me.
      Selena comeou a pensar que o Ronny tinha razo. A espera talvez fosse mesmo mais torturante do que uma negativa imediata. Achou que o melhor agora era irem 
logo para a comemorao.
      Nesse momento, o rapaz voltou do quintal, mas no com um buqu, como Selena dissera. Trazia apenas uma boca-de-lobo entre os dedos e tentava faz-la abrir 
a "boquinha", como a garota fizera. Ela achou engraado Ronny ter ido l para pegar uma flor exclusivamente para ele. Vicki tinha razo. Ele estava meio estranho 
mesmo, isto , mais estranho do que j era.
      - Ns vamos ter de pegar o Tre? indagou Selena, assim que Vicki terminou de escrever o bilhete para os pais dizendo aonde fora.
      - Vou ligar pra ele, disse Ronny, apertando a boca-de-lobo e tentando falar com a vozinha de fantoche.
      Vicki fez um gesto  amiga para que fossem para a sala enquanto o rapaz telefonava. Selena se lembrou de que fizera o mesmo sinal para a me, para lhe falar 
sobre a carta ele Paul. Calculou que a outra tambm queria lhe indagar sobre a carta. Contudo no era de Paul que Vicki desejava falar.
      - Ser que o Ronny 't agindo assim porque escutou aquilo que voc disse? indagou ela.
      - O qu? Do "amor eterno"?
      Vicki fez que sim.
      - Como  que vou saber? Entra na brincadeira, menina. Pode ser que nosso amigo esteja comeando a pensar mais seriamente no futuro, pelo fato de ter sido aceito 
na faculdade.
      - Voc acha mesmo? perguntou Vicki, dando uma espiada por cima do ombro da amiga para ver se Ronny estava vindo e, pensando no que ela dissera, passou a mo 
no cabelo, para ajeit-lo.
      - Pode ser, continuou Selena. Uma coisa posso lhe dizer por experincia prpria.  meio humilhante saber que a gente 't quase se formando e indo para a faculdade 
e nunca na morou ningum a srio, nunca foi beijada.
      Vicki desviou o olhar.
      - Voc j sabe o que penso disso. Eu queria ser inexperiente como voc.
      Selena mordeu o lbio inferior e procurou no ficar magoada com o comentrio da amiga. Sabia que a outra no dissera aquilo por mal. Mesmo assim se sentia 
incomodada de ser to inexperiente e de nunca ter sido beijada. Ela s sara com um rapaz, uma vez. Era um colega da escola chamado Drake. Embora na ocasio tivesse 
pensado que se achava preparada para comear a namorar, a experincia no fora muito boa.
      Vicki pegou no brao dela e perguntou:
      - Qual o problema?
      - Nenhum. Por qu?
      - Voc 't encucada com algo. Mordeu o lbio.
      Imediatamente, Selena passou a lngua sobre o lugar onde beliscara a pele da boca, como que tentando "apagar" a marca.
      - Podemos ir? indagou Ronny, entrando na sala. O Tre vai com a Margaret, e esto saindo de casa agora.
      - Claro. Eu estou pronta, replicou Vicki.
      - Eu tambm, respondeu Selena e, aproximando-se um pouco mais da amiga, continuou: No h nenhum problema. Mesmo!
      E dando um sorriso, como que para convencer a outra, saiu conduzindo os dois para o carro. Em seguida, dirigiram-se para o restaurante DeGrassi. Dessa vez, 
Vicki sentou-se no banco da frente, e Ronny foi sozinho atrs.
      Quando chegaram ao restaurante, viram Warner, o baterista da banda de Ronny, que tambm estava chegando. Os quatro entraram juntos.
      Amy achava-se em seu posto de recepcionista.
      - E a? indagou ela. Por que o jantar especial da turma toda?
      - O Ronny no lhe disse quando telefonou? Perguntou Selena.
      A outra fez que no, a longa franjinha batendo nos clios com o movimento da cabea.
      - Estamos comemorando um grande acontecimento, explicou Selena. O Ronny tem uma boa notcia. Conte pra ela, Ronny!
      O rapaz caminhou lentamente para perto de Amy, do mesmo modo que se encaminhara para falar com Selena no balano da varanda - sem muita empolgao.
      - Vou estudar na Rancho Corona; e talvez ganhe uma bolsa de estudos.
      A garota deu um sorriso amplo, dando um brilho diferente aos seus olhos castanhos.
      - Que bom, Ronny! exclamou. Deve ter sido um grande alvio!
      Ronny concordou com um aceno de cabea.
      - E voc? quis saber ele. J tomou alguma deciso?
      Amy abanou a cabea.
      - Ainda no sei ao certo se quero ir estudar fora. Alis, nem sei se quero mesmo fazer faculdade, pra falar a verdade.
      - Mas voc vai  nossa formatura, no vai? indagou Ronny, chegando mais perto dela.
      Amy havia estudado no Colgio Royal, uma escola evanglica onde todos os outros estudavam. Contudo, no ano anterior, transferira-se para uma escola da rede 
pblica. Nesta, a formatura seria uma semana antes da do Royal.
      - Vou, e vocs tambm vo  minha, no vo? replicou ela e, olhando para o Warner, continuou: Voc tambm, viu, Warner? No vamos ter festa nem nada, mas eu 
gostaria muito que todos vocs fossem.
      - Claro que vamos, interps Ronny.
      - Sabe o que mais? interveio Vicki. Ns devamos fazer uma festa, para o nosso grupo.
      Imediatamente, Selena comeou a dar asas  imaginao. Seria maravilhoso se fizessem uma festinha. Assim ela poderia apresentar o Paul a todos os seus amigos.
      - Isso! exclamou. Vamos fazer uma festa! Tenho quase certeza de que pode ser na minha casa.
      Nesse momento, chegaram Tre e Margaret. Parecia que esses dois estavam comeando um namoro. Alis formavam um casalzinho bem interessante. Quando Tre comeara 
a estudar no Royal, dera a impresso de que no sabia falar a lngua direito, embora entendesse tudo.  que era natural do Camboja, um pas da sia, e viera morar 
em Portland quando estava com mais ou menos com treze anos. Mais tarde, os outros perceberam que ele falava pouco tambm porque era tmido. Apesar disso, porm, 
era a "espinha dorsal" da banda de Ronny. Sempre era ele que relembrava aos outros de que precisavam orar antes de comear o ensaio.
      Margaret era filha de missionrios. Os pais dela tinham trabalhado no Peru, e ela nascera naquele pas. Fazia pouco tempo que viera para os Estados Unidos 
e fora estudar no Royal. Pouco a pouco ela se aproximara do grupo de Selena e Ronny. O Colgio Royal no era muito grande. Os grupinhos de alunos eram todos muito 
"fechados". Era quase impossvel para um novato "entrar" neles. Entretanto esse grupo, que os outros chamavam de "turma do Ronny e da Selena", apesar de ter tido 
algumas dificuldades, conseguira permanecer relativamente "aberto". E quase todos os novatos podiam se relacionar com eles.
      Ultimamente, Margaret e Tre estavam sempre juntos. Parecia que tinham muito em comum. Ambos haviam sido criados em outro pas e falavam outra lngua. Alis 
formavam um par muito engraadinho. E dava para perceber que eles tinham se aprontado para ir ao restaurante. Mais ou menos um ms atrs, a garota havia tingido 
o cabelo de castanho, com luzes avermelhadas. Selena achou que ficou muito bom para ela, mas Vicki preferiria que ela tivesse clareado um pouco o cabelo.
      - So quantos ao todo? indagou Amy, pegando os cardpios e contando rapidamente o grupo.
      - Acho que somos s ns, replicou Ronny. Voc chamou mais algum Tre?
      - Drake e Cassandra, respondeu o outro com sua voz meio abafada. Mas eles vo ajudar a preparar o carro alegrico para o desfile.
      Todos os anos, no ms de junho, havia em Portland um evento chamado "Desfile das Rosas", para celebrar essa flor que  bastante cultivada na cidade, alis, 
denominada "Cidade das Rosas". O pai de Drake tinha uma fbrica de fraldas e participava da festa desde o incio da dcada de 1960. O rapaz convidara a turma para 
ajudar a preparar o carro alegrico para o desfile, mas Selena esquecera totalmente. Talvez ela quisesse mesmo esquecer.  verdade que o relacionamento dela com 
Drake fora bom. E ele era um cara legal. O problema era que ele namorara todas as garotas da cidade, ou, pelo menos, todas as da escola. E Selena ainda se sentia 
um pouco sem graa ao lembrar que, nas frias do ano anterior, ela tambm passara a fazer parte da lista de conquistas dele.
      -  mesmo! disse Ronny. Talvez fosse bom a gente dar uma chegadinha l depois.
      - Eu tenho dever de casa pra fazer! disse Vicki imediatamente.
      Selena pensou que depois iria perguntar  amiga o que ela achava de Drake estar namorando Cassandra, j que as duas no se davam muito bem. Do mesmo modo que 
Selena se sentia incomodada na companhia de Drake, assim era Vicki com a outra garota. No fim das contas, talvez fosse bom mesmo que nenhum dos dois tivesse vindo.
      - Vou lev-los para um compartimento grande no fundo do salo, informou Amy.
      Em seguida, ela foi conduzindo o grupo pelo salo ainda no muito cheio.
      Warner caminhava ao lado de Selena. Sempre que ele dava qualquer ateno  garota, deliberadamente ou no, ela se sentia incomodada. Contudo ela no se importava 
de ele estar junto com o grupo.  que nesse caso havia outros por perto, e ele se mantinha distante. O relacionamento dos dois sempre fora apenas "educado". Warner 
era uma dessas pessoas que a deixavam irritada, embora ela tivesse de reconhecer que o rapaz estava se esforando para se relacionar bem com todos.
      - Ento voc e o Ronny vo estudar na Rancho Corona, hein? disse Warner.
      Como ele era bem mais alto que Selena, ela tinha a sensao de que as palavras dele caam no alto da cabea dela como uma chuva de granizo.
      - Vamos, replicou sem olh-lo.
      - Quem mais j sabe com certeza que vai?
      - Vicki, respondeu ela em tom confiante.
      - Eu ainda no recebi a resposta, comentou a outra, virando- se e dando uma olhada para os dois. Ento no sei "com certeza".
      Eles entraram no compartimento e se sentaram. Selena ficou perto de Ronny. Ela evitou ficar ao lado de Warner, pois este tinha pernas muito compridas. Todas 
as vezes que se sentava junto dele na cantina da escola, as pernas dele ficavam batendo nas dela. Margaret se sentou perto de Selena, com Tre do outro lado. A distribuio 
dos lugares acabou ficando bem legal, na opinio de Selena, pois Ronny ficara no centro do compartimento, onde ele deveria mesmo ter ficado.
      Quando todos j estavam terminando de comer, Selena pegou sua colher e deu umas batidinhas no copo.
      - Como todos sabem, disse ela, imitando um mestre de cerimnias, nosso amigo Ronny Jenkins recebeu uma carta muito importante hoje. Ento nos reunimos aqui 
pra comemorar o evento e pra homenage-lo.
      Warner ergueu seu copo e, falando bem alto, num restaurante quase em silncio, disse:
      - Ao Ronny!
      Os outros o imitaram e em seguida tocaram os copos uns dos outros, fazendo um brinde ao colega. Selena sorriu para o amigo e continuou:
      - Agora, nosso homenageado vai fazer um discurso.
      - Eu vou para a faculdade, disse ele, dando de ombros.
      - E como  que voc se sente com relao a essa grande aventura? indagou a garota, usando a colher como um "microfone" e colocando-a em frente ao rosto de 
Ronny.
      O rapaz deu aquele seu sorriso caracterstico, entortando os lbios, e respondeu:
      - Minha me disse que achava que esse dia no chegaria nunca.
      O grupo todo caiu na risada.
      - Pois , interps Selena em tom alegre, mais alguns meses e iremos embora daqui!
      Seguiu-se um silncio pesado. Todos estavam encarando a realidade dos fatos. Por fim, refletindo o pensamento geral, Tre disse:
      - E ser o fim da nossa banda!
      
      
Captulo Trs
      
      - Oh, gente, interveio Margaret, inclinando-se para diante, vocs ainda tm as frias. Tero mais duas apresentaes no The Beet. E tenho certeza de que viro 
mais algumas.
      - E justamente agora que estvamos comeando a melhorar, lamentou Warner.
      Novamente o silncio tomou conta do grupo. Selena se lembrou de uma ocasio em que assistira a um filme de que gostara muito. Quando ele terminou, ela permanecera 
sentada na cadeira por alguns minutos. No lugar das cenas movimentadas e das belas imagens, via-se apenas uma longa lista de nomes, sobre a escurido da tela. Mas 
ela ficara ali parada, escutando enlevada a msica de fundo, tocada ao violino. Ficou olhando aqueles nomes at que acabaram de passar e surgiu na tela a marca comercial 
"Dolby Sound". S a foi que se deu conta de que o filme de que tanto gostara havia terminado.
      Contudo o ltimo ano escolar ainda no findara. E esse jantar comemorativo tambm no.
      - Algum vai querer sobremesa? indagou a garonete, aproximando-se e pegando alguns pratos vazios.
      - Vamos, replicou Selena, respondendo pelos outros. Voc pode pedir a Amy pra dar uma chegada aqui?
      - Claro, disse a mulher. Vo querer ver nossa bandeja de sobremesas?
      - Eu j sei o que quero, informou a garota. Quero tiramis. E vocs no tm aqui um ch de cereja com algo?
      - Temos.  cereja com amndoas. Vou lhe trazer um bule de ch quente ento. Mais algum vai querer sobremesa?
      Os outros fizeram seus pedidos, e alguns minutos depois Amy chegava  mesa deles.
      - A que horas  seu jantar? indagou Selena.
      - Acho que no vou ter horrio pra intervalo, no, respondeu a outra. Estou trabalhando menos horas hoje.
      - Mas ser que no d pra voc ficar aqui com a gente uns trs minutinhos? Eu queria que voc pegasse uma cadeira e viesse comer uma sobremesa conosco.
      - Vou ver, respondeu ela. O movimento hoje 't meio devagar.
      A garonete trouxe as sobremesas e Amy voltou, carregando uma cadeira.
      - Posso ficar s cinco minutos, avisou. Ento vamos conversar depressa. O que vocs esto planejando em termos de festa de formatura?
      Selena esperou que algum dissesse algo, mas logo se lembrou de que ela oferecera a casa dela.
      - Ainda no resolvemos nada, explicou. Voc j pensou em algo?
      Os olhos escuros de Amy brilharam.
      - Sabe o que sempre tive vontade de fazer?
      Ningum se aventurou a dar um palpite.
      - Um jantar elegante, continuou a garota. Meu tio disse que pode nos vender a lagosta e o que mais quisermos.
      Selena se recordou bem de uma ocasio em que ela e Amy haviam planejado fazer um jantar assim. Convidariam Wesley, seu irmo mais velho, e o Drake. Entretanto, 
o namoro deles no foi adiante, como esperavam, e o jantar acabou no se realizando.
      - Pra mim est timo, replicou Ronny.
      - , tambm acho que vai ser divertido, concordou Vicki.
      - E se eu no gostar de lagosta? disse Warner. Ser que podemos ter um outro prato, como lasanha, por exemplo?
      - Voc no gosta de lagosta? quis saber Amy.
      - No sei. Nunca comi, respondeu ele. Mas de lasanha eu sei que gosto.
      Selena olhou-o, pensando que ele parecia mais um menino mimado.
      - Ah, mas voc vai gostar de lagosta, sim, insistiu Amy. Ns vamos prepar-la com aquela manteiga derretida. Voc vai gostar.
      - E quando vai ser a festa? perguntou Margaret. No mesmo dia da formatura?
      - Ah, no dia da formatura vai uma poro de gente l em casa, disse Vicki. Que tal na vspera? Seria uma festa pr-formatura, s pra ns.
      - Vocs esto pensando em ir quela excurso dos formandos no prximo final de semana? indagou Margaret. Ouvi dizer que at agora pouca gente fez a inscrio.
      - Eu tinha me inscrito, explicou Vicki. Mas depois fiquei sabendo que iramos passar dois dias l e ficaria em 350 dlares, ento mandei tirar meu nome. No 
sei por que ficou to caro assim. Eu no posso ter essa despesa agora. E com todos os outros gastos relacionados com a formatura, meus pais tambm no podero.
      Warner deu um relatrio completo sobre os planos para o passeio dos formandos. Como o Colgio Royal no promovia o baile de formatura, que havia em outras 
escolas, alguns pais de alunos haviam organizado uma viagem para uma praia do Oregon. Eles tinham reservado dois andares inteiros em um hotel. E deixaram bem claro 
que os rapazes ficariam em um, e as garotas, em outro. Seriam dois alunos por quarto, e iriam diversos acompanhantes adultos. Todos teriam de estar nos quartos para 
dormir no mximo at meia-noite. O comit organizador, alis muito bem-intencionado, colocara mais regulamentos do que divertimentos no panfleto. Os pontos altos 
do passeio seriam uma visita ao aqurio e uma partida de golfe. E essas no eram exatamente as atividades que os jovens mais apreciavam; ainda mais por aquele preo. 
Alm disso, no era assim que pensavam comemorar a formatura do ensino mdio que, sem dvida nenhuma, era um marco na vida deles.
      - Estou achando que o passeio vai acabar sendo cancelado, comentou Vicki. Ningum tem dinheiro pra ir.
      - O ltimo dia de inscrio no era sexta-feira passada? quis saber Selena. No sei de ningum que tenha se inscrito.
      - Ento vamos nos programar uma festa, sugeriu Margaret. Acho que poderamos organizar um jantar mesmo. Seria timo, continuou ela, dando um sorriso para o 
Tre.
      Selena logo pensou se esse evento no seria o comeo de um namoro entre os dois. Correu os olhos pela mesa e fez a conta. Ali havia trs casais que dariam 
certinho. A nica dupla que no "combinava" eram ela e Warner. E s de pensar nisso, comeou a suar frio. Nesse momento, lembrou-se de que Paul estaria a e, sem 
querer, soltou uma risada alta.
      - Que foi? indagou Amy.
      - Nada, nada, apressou-se em responder. Vamos combinar os detalhes desse jantar. O que vocs quiserem 't bom pra mim, desde que seja depois do dia 12.
      - Tenho de voltar para o meu posto, disse Amy. Selena, mais tarde telefono pra voc pra combinar tudo, o.k.?
      - timo! exclamou a garota, sentindo o corao encher-se de alegria s de pensar em Paul num jantar elegante com seus amigos queridos.
      O rapaz iria gostar deles, e seus amigos tambm iriam gostar de Paul. A idia ficou ainda mais agradvel quando se lembrou de que s sua me sabia da vinda 
dele. Era gostoso ter um segredo que apenas sua me conhecia.
      Contudo Selena no era muito de guardar segredos. E no momento em que levava Vicki de volta para a agncia, contou o fato para ela. Ronny no voltara com ela, 
pois pegara uma carona com Margaret e Tre. Os trs iriam dar uma espiada em Drake e nos preparativos para o desfile. Ento, assim que as duas entraram no carro, 
Selena falou a amiga sobre a notcia que Paul lhe dera na carta. Vicki soltou um gritinho e agarrou o brao da amiga, toda alegre.
      - Por que voc no me disse logo? indagou.
      - Estava tudo acontecendo muito depressa, explicou Selena.
      - Que notcia maravilhosa, Selena! Estou to feliz por voc! Que mais que ele disse?
      - No sei. Nem acabei de ler a carta ainda. S li o primeiro pargrafo. O Ronny apareceu naquela hora e a notcia dele foi mais importante que a minha. A 
ns fomos l te buscar e comeamos a falar sobre a sua carta...
      - , a minha carta, disse Vicki, interrompendo-a e ficando seria de repente.  horrvel ficar assim sem saber se vo me aceitar ou no, principalmente agora 
que j sei que aceitaram o Ronny e voc. Eu j tinha pensado nisso l no restaurante, na hora que o Tre falou que a banda vai acabar. Fiquei muito "pra baixo". , 
como a Amy disse, precisamos fazer uma festa muito legal, pra comemorar a formatura.
      - Precisamos mesmo, concordou Selena.
      - Sabe o que mais que lembrei l no restaurante? indagou Vicki. Que as nossas reunies de segunda-feira na Mother Bear tambm vo acabar.
      Havia j vrios meses que Selena, Amy e Vicki se encontravam todas as segundas- feiras, s 4:00h da tarde, nessa confeitaria. Ali conversavam bastante, fazendo 
o que Amy chamava de "purificao de alma". Selena achava o nome meio exagerado, para as conversas que mantinham ali. Para ela, aqueles encontros com as amigas nas 
tardes de segunda-feira significavam um momento de intimidade. Era uma ocasio em que se abriam umas com as outras, de forma franca e sincera, tomando um chazinho 
e comendo um pozinho de canela. Anteriormente, as trs tinham tido problemas de relacionamento. Certo dia, porm, conseguiram se acertar e resolveram que teriam 
de fazer algo para manter e fortalecer essa amizade.
      Alguns meses antes, haviam visitado algumas faculdades, e na ocasio Amy tinha deixado bem claro que no pretendia estudar numa universidade evanglica.  
que seus pais haviam se divorciado no ano anterior, e ela passara a questionar a igreja e sua f crist. Ento no queria ir para uma escola onde se falava de questes 
das quais ela no tinha certeza.
      Selena achava que o problema de sua amiga era que ela no expunha o que sentia. Apesar de chamar aqueles encontros delas de "purificao de alma", era a que 
menos se abria com as outras. Era verdade que sempre as escutava com ateno; e fazia muitas perguntas tambm. Com isso, nesses ltimos meses, Selena e Vicki tinham 
aprendido que "o amor  paciente". E quando se sabe que uma amiga est sofrendo e precisa de algum do seu lado, a o sentido dessa frase fica ainda mais claro. 
Nesses casos, essa pessoa necessita de algum que a ame com toda sinceridade e que no fique sempre cobrando mudanas que ela no est disposta a fazer.
      Muitas vezes, esses encontros de segunda-feira  tarde eram o ponto alto da semana para Selena, principalmente quando no recebia nenhuma carta de Paul. Sabia 
que tinha duas amigas que iriam ouvi-la desabafar aquilo que estava em sua mente. Ademais, aprendera que podia confiar nelas, quando se tratava de relatar confidencias. 
Se para Amy aqueles momentos que passavam juntas eram como uma "purificao de alma", para ela eram como um "refgio seguro".
      - Sabe do que vou sentir mais falta? disse Vicki no momento em que Selena parara num sinal.  da sensao que tenho quando acordo segunda-feira. Antes eu detestava 
levantar de manh. Mas agora, depois que comeamos a nos reunir, eu pulo da cama, penso no que vou vestir e desejo que o dia passe bem depressa pra gente se encontrar.
      Selena sorriu. O sinal abriu. Ela comeou a atravessar a rua e logo se preparou para virar  esquerda, pois havia uma seta no poste indicando essa converso. 
Nesse instante, ouviram o barulho estridente de um carro freando, vindo em sua direo. Vicki soltou um grito. Era uma caminhonete que, no ltimo momento, se desviou 
do fusca, passando  frente dele e parando bem no meio do cruzamento. Todos os outros carros frearam. Por milagre, nenhum deles bateu em ningum.
      Ao que parecia, o motorista da caminhonete tentara atravessar no sinal amarelo e depois desistira. Freou mas no conseguiu parar o veculo. Todos os motoristas 
permaneceram uns instantes parados, imveis, dentro do carro, olhando uns para os outros. Afinal o cara da caminhonete comeou a dar r bem devagar. O motorista 
do veculo que vinha atrs do de Selena buzinou. O sinal dela agora estava no amarelo, ento ela rapidamente engatou a marcha, foi passando por entre os outros carros 
e entrou na rua que dava para a agncia de automveis.
      - Olhe s pra mim, disse Vicki, mostrando a mo. Estou tremendo. Como  que voc consegue ficar to calma, Selena? Ns poderamos ter morrido. Por pouco, aquela 
caminhonete no nos atingiu em cheio!
      - , eu sei, replicou a garota em voz baixa.
      Dirigia com muito cuidado, em direo a agncia. Afinal, entraram no estacionamento dela, onde o carro da amiga ainda se encontrava. Selena desligou o fusca 
e as duas ficaram sentadas em silncio, por alguns minutos, sentindo-se ainda meio abaladas.
      - Como  que uma pessoa consegue viver, principiou Vicki, virando-se e olhando para Selena, se no sabe se vai para o cu quando morrer? Fatos como esse acontecem 
com todo mundo, no ? A gente quase sofre um acidente, em questo de segundos, e fica frente a frente com a morte.
      Selena fez que sim, ainda tremendo por dentro.
      - Se eu no tivesse certeza de que sou salva, continuou a outra, e de que no instante em que morrer vou para o cu, um acontecimento como esse me deixaria 
totalmente em pnico. Ficaria traumatizada pelo resto da vida.
      -  mesmo, concordou Selena.  nesses momentos que sinto algo ruim dentro de mim, ao lembrar de pessoas, como a Amy por exemplo, que no tem interesse em acertar 
a vida com Deus.
      As duas se entreolharam, com expresso de tristeza.
      - Precisamos ter uma conversa com ela nesta segunda-feira, comentou Vicki. Ns podemos falar com jeito, de um modo que ela nos de ateno. Sei que podemos.
      Selena concordou.
      Aps certificar-se de que a amiga chegara com toda segurana, Selena foi para casa. Dez minutos depois que entrou no quarto, Amy ligou. O pai lhe trouxe o 
telefone sem fio e pediu que ela o levasse para baixo assim que terminasse, pois a bateria estava acabando.
      - Al! disse Selena. Amy?
      - Oi, Selena! replicou a outra. Conversei com meu tio sobre a lagosta, e ele disse que amanh poder me dizer o preo dela. Acho que se fizermos uma "vaquinha" 
e todos participarem, no fica muito caro, no. Perguntei a ele tambm se o restaurante pode nos fornecer a salada e a sobremesa. Assim s teremos de preparar a 
lagosta, comprar po e arranjar um legume. O que acha disso?
      Selena retirou algumas roupas e uns papis da poltrona que ficava junto  janela e respondeu:
      - Pra mim est timo. Mas ainda no conversei com meu pais. Vamos fazer o seguinte, vou falar com eles e depois ligo pra voc, 't bom? Quantas pessoas voc 
acha que viro?
      - Umas dez ou doze. Pelo menos foi o que disse ao meu tio.
      - Adivinha quem vai ser uma dessas dez ou doze, falou Selena com um sorriso maroto nos lbios.
      - Wesley? indagou Amy.
      - No; d outro palpite.
      - No sei.
      -  uma pessoa que voc nunca imaginaria.
      - No  o Nathan! falou Amy meio em pnico. O Ronny no o convidaria no, n? Sei que os dois ficaram amigos, depois que se conheceram no The Beet. Mas ele 
sabe que se o Nathan fosse eu ficaria muito sem graa, no sabe?
      - Claro! No se preocupe, disse Selena, acalmando-a e assegurando-lhe que seu ex- namorado no seria um dos convidados. No  o Nathan, no, mas  um rapaz.
      - Ah, Selena, diga logo! pediu Amy num tom de quem est comeando a se irritar.
      Selena sorriu e disse o nome que muitas vezes sussurrara baixinho, numa orao silenciosa. Era o nome do rapaz com quem ela se correspondia havia quase um 
ano, um nome em que ela pensava muito, mas raramente pronunciava em voz alta.
      -  o Paul!
      

      
Captulo Quatro
      
      - O Paul? repetiu Amy. Ele vem pra sua formatura?
      - Vem. Recebi uma carta dele hoje. Chega no dia 12 e vai ficar por aqui quatro dias.
      - Oh, Selena, voc deve estar no cu, hein?
      Essas palavras da amiga fizeram com que Selena se lembrasse do que lhe acontecera alguns momentos antes. Ainda sentia aquele aperto no estmago por causa da 
colega. E foi por isso que resolveu mudar de assunto.
      - Eu queria lhe perguntar algo, Amy, e espero que no fique zangada comigo.
      - Claro. Fico no.
      Dentre as pessoas que Selena conhecia, Amy era a que mudava de humor mais depressa. Naquele instante, estava de bom humor, e ento Selena resolveu falar o 
que desejava.
      - Quando eu estava levando a Vicki pra agncia, quase levamos uma batida de uma caminhonete. A ns duas comeamos a pensar sobre a morte e o fato de que vamos 
para o cu quando morrermos. E sabe, Amy, no esqueci que combinamos de no conversar sobre isso com voc, mas tenho de falar. Fiquei apavorada s de pensar que 
voc no sabe se vai para o cu, pois est muito incerta com relao a Deus.
      A nica reao da amiga foi ficar em silncio.
      - Amy, no fique com raiva de mim, no. Eu tinha de dizer isso porque me preocupo de verdade com voc. Amy, gosto muito de voc e no quero que v para o inferno.
      Nesse instante, ouviu um forte rudo de telefone sendo desligado, e logo em seguida o sinal de ocupado no aparelho.
      Que e que eu fui fazer? pensou Selena, baixando a cabea e cobrindo o rosto com as mos. Por que fui falar dessa maneira? Por que no esperei at segunda-feira, 
como a Vicki sugeriu, deixando que ela falasse? Por que sempre tenho de falar o que penso e extravasar meus sentimentos desse jeito?
      Mas antes que a garota prosseguisse nessa autocondenao mental, o telefone, que ainda estava em seu colo, tocou de novo. Pegou-o rapidamente, apertou o boto 
para ligar e disse:
      - Desculpe, eu no deveria ter falado daquele jeito.
      Quem estava do outro lado da linha no disse nada. Foi ento que lhe ocorreu que no fora Amy quem ligara.
      -  voc, Amy? indagou ela.
      - Selena? perguntou uma voz masculina.
      - , replicou.
      O homem soltou uma gargalhada, num tom de voz grave.  Ela no tinha a menor idia de quem se tratava.
      - Parece que voc e a Amy esto tendo outra discusso feia, falou ele.
      - , mais ou menos, respondeu ela meio cautelosa, tentando identificar a voz e se indagando por que ele dissera aquilo.
      - E fora esse problema com ela, est tudo bem com voc a? indagou ele.
      - Muito bem, replicou ela, falando devagar. E com voc?
      Estava esperanosa de que ele desse alguma "dica". A, porm, o fone comeou a dar uns estalidos, e a resposta dele saiu abafada, parecendo muito distante. 
Selena no conseguiu entender direito.
      Ah, no! pensou apavorada. A bateria est acabando!
      - Liga de novo! pediu ela, gritando. Se voc estiver me ouvindo, vou desligar aqui, porque a bateria deste telefone est no fim. A voc me liga de novo, 't?
      - Ei, voc est a? disse a voz dele, agora bem alto e com clareza.
      - Estou, disse ela. Mas tenho de trocar de aparelho. A bateria deste aqui est acabando. Voc pode ligar de novo?
      - Claro.
      Ouviu novamente os estalidos e imediatamente desligou. Desceu a escada correndo e se perguntando quem seria ele. De repente, sua cabea como que deu um estalo 
e ela entendeu. Soltou um grito e desceu os ltimos quatro degraus batendo os ps com fora. Chegando embaixo deu uma deslizada no assoalho de madeira, j que estava 
s de meias.
      Seu pai veio da sala correndo, segurando o controle remoto da televiso.
      - Que foi? indagou ele.
      -  o Paul! Ele ligou pra mim, mas tive de desligar.
      Sua me tambm apontou na porta, vindo da sala, e disse:
      - Ele vai ligar de novo, no vai?
      Nesse instante, o telefone tocou. Selena apertou o boto para lig-lo, mas a campainha continuou soando. O Sr. Harold saiu na frente dela, dirigindo-se para 
a saleta. Selena foi logo atrs.
      - Pai, no faa isso! Pai!
      Mas ele pegou o aparelho antes que a garota pudesse agarr-lo. O pai de Selena tinha muitas qualidades positivas, mas possua tambm um grave defeito: gostava 
de atazanar a vida dos rapazes que se interessavam por suas filhas. Como Tnia estava morando fora, "jogava" suas brincadeiras todas em cima dos amigos de Selena. 
Coitado do Paul! Estava ligando da Esccia e certamente no entenderia as piadas malucas de seu pai. Dessa vez, provavelmente era ele que iria desligar.
      -  o Paul? indagou o pai de Selena, atendendo ao telefone.
      A garota tentou afastar o aparelho do ouvido dele, mas ele o segurou firme com ambas as mos.
      -  Harold Jensen, Paul. Gostaria de saber quais so exatamente suas intenes com minha filha.
      - Papai! exclamou Selena por entre dentes. No faa isso! Por que o senhor no se torna um pai normal e vai simplesmente jogar golfe?
      O pai ergueu as sobrancelhas, aparentemente aprovando a resposta do rapaz,
      - Bom, nesse caso, vou deix-lo conversar com ela, isto , se ela ainda quiser falar com voc.
      Selena ps uma das mos no quadril e estendeu a outra para pegar o aparelho.
      - Isto , continuou seu pai, prolongando ainda mais a agonia da garota, eu deveria dizer, se voc ainda quiser falar com ela. Ontem ela tingiu o cabelo de 
azul e extraiu todos os dentes, mas as espinhas no rosto esto comeando a secar...
      - Papai!
      O pai deu uma risada com a resposta de Paul.
      - Est bem; vou passar pra ela. Foi um prazer falar com voc. Tudo de bom!
      O Sr. Harold estendeu o aparelho para a filha. Ela colocou a mo sobre o bocal e ficou esperando que ele sasse e fechasse a porta.
      - Oi! disse ela afinal, procurando aparentar calma. Deveria lhe pedir desculpas pelo meu pai, mas, quando ele est assim, na verdade, no tem desculpa.
      - Eu disse pra ele que voc fica bem de azul, portanto o cabelo azul no  nenhum problema.
      Selena riu.
      -  bom escutar sua risada, "princesinha dos lrios", comentou ele.
      A voz do rapaz estava clara. Parecia que ele se achava muito perto, quase como se estivesse do seu lado. A garota fechou os olhos e deixou que aquele apelido 
carinhoso fosse entrando devagarzinho em seu corao.
      - E  muito gostoso ouvir sua voz tambm, disse ela.
      Teve a sensao de que iria comear a chorar e fechou os lbios com fora. Coitado dele! J era o segundo telefonema que teria de pagar; e ainda tivera de 
suportar aquele dilogo forado com seu pai. Agora o que ele no iria querer mesmo era ouvi-la chorar de alegria.
      - Recebi sua carta hoje, informou ela, esforando-se para conversar num tom bem controlado.
      - timo! Ento j est sabendo que estou planejando chegar dia 12. Posso ir  sua formatura?
      - Claro! Vou gostar muito! Eu e meus amigos estamos pensando em fazer uma festa; talvez um jantar. Provavelmente vai ser em minha casa. Estou muito feliz de 
saber que voc estar aqui.
      - Ei, mas espere a! Voc est sendo sincera, no 't? Eu no vou atrapalhar seus planos com seus amigos nem "arrombar" sua festa, n?
      - No! Absolutamente! Sua presena aqui vai ser a melhor parte de tudo!
      Paul no respondeu de pronto. Selena mordeu o lbio. Ser que falara demais? Ser que demonstrara muita ansiedade pela presena dele? O rapaz j lhe dera a 
entender que queria levar o relacionamento deles mais "devagar". Ele nunca havia terminado suas cartas com a costumeira saudao: "Com amor..." Nunca dissera nada 
que pudesse dar a entender que eram namorados. Sempre a tratara como uma simples amiga. Selena  que volta e meia se precipitava um pouco, enxergando nas entrelinhas 
do relacionamento deles algo que no existia. Entendendo isso, ela tentara se conter, ir mais "devagar" e ver a situao de forma mais realista. Ser que agora estragara 
tudo?
      - Sabe o que mais? disse o rapaz afinal. Encontrar com voc vai ser a melhor parte da minha volta pra casa!
      A garota sentiu o corao leve. Nunca esperaria que Paul dissesse algo assim. De repente, ficou meio acanhada, o que no era nada natural nela. Sua cabea 
estava a mil, pensando no que haveria por trs dessas palavras. O que ser que ele quisera dizer? Ser que desejava avanar um pouco mais no relacionamento deles?
      - Selena, estou ansioso pra conversar com voc sobre uma poro de assuntos, continuou ele. Vai ser maravilhoso poder estar frente a frente com voc e dizer 
tudo que quero.
      - Hum hum! replicou ela.
      Foi a nica coisa que conseguiu dizer; e ficou a se xingar mentalmente, procurando uma resposta mais inteligente.
      - Lembra- se daquele caf aonde fomos no ano passado? indagou Paul.
      - Lembro;  o Carla's Caf, respondeu a garota rapidamente. Claro que lembro.
      - timo! Espero que voc ainda saiba ir l, disse ele. Acho que seria bom a gente dar uma chegada ali para tomar uma xcara desse nosso maravilhoso caf da. 
Sei que parece bobagem, mas tenho muita saudade de um capuccino que tomava em uma lanchonete do tipo drive-thru, quando morava a. Se me lembro bem, o caf do Carla's 
tambm  muito bom.
      - Ahn... disse Selena.
      Outra resposta pouco inteligente. Sentiu as emoes indo "l embaixo" quando ele falou que estava ansioso para tomar caf no Carla's. Ela tambm "sonhava" 
com aquele lugar. S que, em seus "sonhos", os dois se sentavam na mesma mesinha perto da janela que haviam ocupado um ano atrs. Dessa vez, porm, Paul pegaria 
em sua mo e lhe diria que a amava, em vez de zombar dela por lhe terem dito que Selena nutria uma paixozinha por ele.
      - O que voc achou do resto da carta? indagou o rapaz.
      - Pra dizer a verdade... principiou ela.
      Ia contar que no tivera oportunidade de ler a carta toda mas ele a interrompeu, dizendo:
      - Claro que voc vai me dizer a verdade. Nisso voc  especialista. Voc  uma pregadora, Selena. Prega a verdade Alis, esse era um dos assuntos que eu queria 
conversar com voc pessoalmente, mas acho que posso falar de uma vez. Reconheo que j a chateei muito, pelo fato de voc ser to criteriosa. Ultimamente, porm, 
aprendi a dar valor a essa sua qualidade; e queria lhe dizer isso.
      - Obrigada!
      Naquele instante, o nico pensamento que lhe ocorreu foi que, pelo fato de "pregar" a verdade, talvez tivesse afastado Amy de sua vida de uma vez por todas. 
Contudo disse para o rapaz:
      - Muito obrigada pelo incentivo!
      - Sou eu que tenho de lhe agradecer pelo seu incentivo, disse Paul. As cartas que voc me escreveu neste ano que passou foram muito importantes pra mim. E 
assim tambm foram os versculos que me mandou e as oraes que fez em meu favor. Voc no imagina o quanto me influenciou, Selena. Estou falando srio. Acho que 
Deus a usou muito pra operar uma grande mudana em minha vida. Foi por isso que escrevi aquela poesia que mandei no final da carta. Foi o primeiro poema que fiz 
especialmente pra voc.
      Aqui ele fez uma pausa. Selena s conseguiu responder:
      - Obrigada, Paul!
      Agora seria muito sem graa se dissesse que ainda no tinha lido a carta toda.
      - Eu pensei em esperar quando estivesse a para l-lo pessoalmente para voc, mas depois resolvi mandar. Existem palavras que so mais fceis de dizer numa 
carta do que frente a frente.
      -  verdade, concordou Selena.
      - Bom, disse ele, acho melhor ficar por aqui, seno no vou ter dinheiro pra pagar nosso caf, quando formos ao Carla's, brincou.
      Imediatamente Selena procurou pensar no que deveria lhe perguntar antes que ele desligasse.
      - Algum vai busc-lo no aeroporto?
      - Sim. O Tio Mac vai me pegar.
      - A que horas seu vo chega aqui?
      - Por volta de 10:00h.
      - Da manh? indagou Selena esperanosamente.
      - No; da noite.
      - Ah! Estou muito feliz de saber que voc vai chegar. Vai ser timo v-lo e poder conversar pessoalmente, disse a garota, tentando controlar as emoes.
      Sua vontade era extravasar impulsivamente tudo o que queria lhe dizer, e falar:
      "Eu o amo, Paul MacKenzie! No vejo a hora de o abraar e sentir aquele perfume de pinho, da sua loo aps barba!"
      Felizmente para os dois, ela se conteve e guardou o que pensava s para si.
      - Assim que eu chegar na Highland House, ligo pra voc. Se estiver muito tarde, ligo no dia seguinte pela manh. Faltam s uns dez dias, Selena.
      - , eu sei, replicou ela, num tom de voz que revelava o quanto estava ansiosa. Vou ficar contando os dias!
      Houve uma pausa curta, e Paul respondeu:
      - Eu tambm, "princesa dos lrios"!
      E desligou.
      

      
Captulo Cinco
      
      Assim que Selena ouviu o rudo do telefone desligando, teve a sensao de que estava sem ar. Ainda se encontrava parada, em p, no meio da saleta, no mesmo 
lugar onde pegara o aparelho da mo do pai. No se movera nem um centmetro durante todo o tempo em que conversara com Paul. Nem ao menos pensara em se sentar. Era 
como se tivesse sado das dimenses de tempo e espao. Parecia que, se fechasse os olhos com fora, talvez ainda pudesse escutar a voz do rapaz no telefone que ainda 
segurava junto ao ouvido. Contudo s ouviu os rudos caractersticos do aparelho desligado.
      Como se estivesse saindo de um profundo sono e acordando para um novo dia, ela abriu os olhos lentamente e, no sem certo esforo, recolocou o fone no gancho. 
Queria recordar cada palavra que ele dissera, cada variao no seu tom de voz.
      Oh, a poesia! Minha poesia! pensou.
      Saiu correndo da saleta e pegou a mochila que estava pendurada no cabideiro da sala.
      - O Paul j est com tudo resolvido pra viagem? perguntou a me, aproximando-se.
      - 'T, disse ela. Ele vai chegar dia 12, depois de 10:00h da noite, explicou, enfiando a mo na mochila e tirando a carta. Ento no vai dar pra fazermos o 
jantar de comemorao.
      - Como assim? indagou D. Sharon.
      - Ah, eu ainda no tinha falado com a senhora sobre isso. Estamos pensando em fazer um jantar pra festejar a formatura. Amy disse que ela pode arranjar lagosta 
pra ns.
      Assim que mencionou o nome da amiga, lembrou-se de como a outra batera o telefone em sua cara, vinte minutos atrs. Teria de ligar para ela. E precisava conversar 
com a me sobre os planos da festa. Contudo o que queria mesmo fazer era voar para o quarto para ler a carta de Paul; e guardar no corao a poesia que ele compusera 
especialmente para ela.
      - E voc est querendo fazer a festa aqui? perguntou a me.
      - Estou. Se puder... S que agora no sei mais quando vai ser. Pensei em fazer na vspera da formatura, mas o Paul no vai chegar a tempo, e eu queria muito 
que ele viesse ao nosso jantar.
      - Mas, filha, interveio a me, mesmo que faa a festa s com seus amigos, sem o Paul, pode ser muito legal.
      Imediatamente ocorreu a Selena que, nesse caso, ela "faria par" com o Warner.
      - No, me, respondeu, pode crer, no vai ser a mesma coisa. S quero fazer a festa depois que ele chegar.
      As duas ficaram paradas ali por alguns instantes, pensando em outras opes, mas nenhuma delas parecia adequada.
      O pai de Selena, que estava na sala e escutava a conversa, sugeriu:
      - Por que no fazem no mesmo dia da formatura? Ns podemos planejar a festinha da famlia para a vspera. Nosso pessoal vai embora logo depois da colao de 
grau, e vocs podem fazer a festa aqui  noite. A colao no vai ser s l4:00h? Pois . Tero muito tempo para se prepararem para o jantar.
      - E os colegas dela, Harold? lembrou a me. Talvez eles tenham alguma comemorao em casa no dia da colao.
      - A Amy no vai, interps Selena imediatamente. A formatura dela  neste final de semana. E Ronny no disse se vai haver muita gente na casa dele. Agora, a 
Vicki, eu no sei.
      - , ento vale a pena tentar, comentou a me. Mas assim que vocs decidirem, me avisem, para eu ligar para os nossos parentes.
      Selena voltou para a saleta com a carta na mo. Assim que pudesse iria l-la, mas antes teria de fazer alguns telefonemas. Discou o nmero da Amy e ficou aguardando 
que ela atendesse, sem saber exatamente o que iria dizer. Na sexta vez que o fone tocou, ela atendeu.
      - Sou eu, disse Selena. Sinto muito o que aconteceu. Quero conversar com voc. Pode ser?
      - Por que  que voc sempre faz isso, Selena? Tudo estava correndo to bem com nossa amizade, e a voc diz algo que deixa a gente nervosa.
      - Eu no peo desculpas pelo que disse, mas pela forma como disse, replicou a garota. Poderia ter dito de um modo melhor.
      - Ah, ?
      - Mas eu queria lhe falar sobre outro assunto. Pode ser?  sobre o jantar em minha casa. O Paul s vai chegar no dia 12 j bem tarde da noite. Ento meu pai 
sugeriu que faamos nosso jantar na sexta-feira, aps a colao de grau, que  s 14:00h. Que tal?
      - Eu fico maravilhada com a maneira como voc consegue mudar assim de repente!
      - Eu mudar? Voc  que sempre tem variaes de humor, Amy, o tempo todo!
      - S que eu no vivo dizendo que voc vai para o inferno e depois lhe telefono e digo: "Ser que pode trazer as lagostas na sexta-feira?"
      Selena deu um suspiro.
      - Foi assim mesmo que voc sentiu isso, Amy? Me desculpe. Mas ser que podemos esquecer essa questo de cu e inferno por agora, e s falar sobre ela na segunda-feira? 
Quero conversar sobre isso e lhe explicar por que considero esse assunto to importante. Mas acho melhor falar quando a Vicki estiver conosco.
      - Pra qu? Para as duas me atacarem juntas?
      - Claro que no, Amy!
      - Voc e a Vicki no fazem a menor idia de como est minha f e meu relacionamento com Deus.
      -  verdade, concordou Selena. E  por isso que desejamos conversar sobre o assunto. Voc sempre tem liberdade pra falar sobre aquilo que  do seu interesse, 
no ? Agora,  justo que tambm me deixe conversar sobre o que  importante pra mim.
      Amy no replicou logo, mas em seguida disse:
      - 'T bom. Voc tem razo. Na segunda-feira poderemos discutir esse assunto. Ah, sim, acho que podemos fazer o jantar na sexta-feira, pois vou estar de folga 
do trabalho.
      - timo! exclamou Selena. timo, no, excelente! Ento vou ligar para o pessoal pra ver se podemos marcar para aquela noite.
      - O.k., depois a gente se fala, ento.
      Selena telefonou para Vicki e Ronny e lhes contou sobre o que havia planejado com Amy. Ambos disseram que iriam conversar com os pais e tentar convenc-los 
a antecipar a festinha da famlia para a vspera, como seria na casa de Selena. Achavam que os parentes que viriam para essa comemorao seriam em pequeno nmero. 
Portanto havia uma boa probabilidade de conseguirem mudar a data. Ronny ficou de telefonar para os caras da sua banda e falar com eles sobre o assunto. Vicki iria 
ligar para Margaret e mais duas garotas que elas pensavam em convidar para o jantar.
      Tudo resolvido, Selena subiu para o quarto bastante ansiosa. Queria ler a carta de Paul sem mais interrupes. Ao passar pela sala, onde os pais assistiam 
 televiso, deu uma paradinha e viu o final de um engraado comercial. Aproveitou para lhes dizer que tudo estava dando certo. A me ento disse que iria comear 
os preparativos no dia seguinte e recomendou  filha que no ficasse tensa com relao a nada.
      -  sua festa de formatura, querida, disse ela. Queremos que tenha momentos memorveis e curta bem todos os eventos, tanto com os familiares como com os amigos.
      Obedecendo a um impulso, a garota correu at eles e deu um abrao em cada um.
      - Vocs so os melhores pais do mundo, sabiam?
      Pegos de surpresa, os dois se entreolharam com uma expresso de satisfao no rosto.
      - Faz favor de dizer isso para o Kevin, 't bom? disse o pai. Ele est muito chateado porque no queremos deix-lo ir ao Parque Estadual de Burnside, no sbado, 
com os colegas da escola.
      - Ele 't querendo ir l? indagou a garota. Mas ele  muito pequeno. Os skatistas que vo l so todos na faixa dos dezesseis, dezessete anos, e bem mais experientes 
que ele. Eles iriam atropel-lo. Alm disso, neste sbado vai ter o Desfile das Rosas, e o centro da cidade vai estar lotado de gente.
      -  mesmo! interveio a me. Acho que ns todos - a famlia toda - devemos ir ver o desfile.
      - Eu vou ter de trabalhar, explicou a garota. No posso pedir mais nem uma folga. D. Amlia j vai me dispensar no prximo final de semana, por causa da formatura.
      - Mas talvez a gente v assim mesmo, disse o pai. Se o tempo estiver bom, poder ser um timo passeio pra V May.
      - Tem razo, disse Selena. Bom, vou para o meu quarto. Obrigada por terem trocado o dia da nossa festa por minha causa.
      - Ter flexibilidade  um sinal de boa condio mental, citou o Sr. Harold.
      A garota olhou para a me como que pedindo uma explicao.
      - Ele andou lendo aqueles panfletos que o mdico nos deu na semana passada, quando levamos sua av para fazer o check-up.
      Selena fez um aceno de cabea, dando a entender que compreendera, e em seguida subiu para o quarto, com a carta de Paul na mo. A av de Selena tinha problemas 
de sade, ainda no muito bem explicados, que vinham piorando de forma gradual nos ltimos anos. Algumas vezes, ela se mostrava perfeitamente equilibrada, com a 
mente lcida e tranquila. Entretanto, de repente, ela se alterava, parecendo estar em outra dimenso. A ficava confusa, sem dar tino de nada. Fora por causa disso 
que Selena e seus familiares haviam se mudado, cerca de um ano e meio atrs, para a grande manso vitoriana onde moravam agora. Estavam ali para cuidar dela. Todos 
eles amavam muito sua avozinha e tinham muita considerao e compreenso para com ela, na maior parte do tempo. De vez em quando, porm, essa tarefa se tornava exaustiva, 
principalmente para a me, que era quem mais se encarregava dela.
      A ss em seu bagunado quarto, Selena foi direto para a poltrona que ficava perto da janela. Abriu as cortinas de tecido transparente e elevou a vidraa at 
o ponto mximo. Usou uma tabuinha para cal-la. A deliciosa brisa noturna soprou para dentro do aposento, levantando o cortinado. No imenso cedro que ficava logo 
em frente, dois passarinhos comearam a cantar, soltando um trinado alegre. O cu estava com um belo tom azulado, como que formando um fundo para uma linda jia 
- a lua em quarto crescente, cor de marfim, aparecendo logo acima da copa da rvore.
      Selena respirou fundo, enchendo os pulmes com os dois perfumes que pairavam no ar naquele anoitecer. Em pensamento, agradeceu a Deus por todas as belezas 
que ela podia curtir. Agradeceu por seus pais, pelo amor e pela compreenso que eles demonstravam. E deu ainda mais graas por seu Pai celeste e por sua bondade 
para com ela.
      Sentindo-se disposta e alegre, resolveu acender uma vela decorativa que havia em sua mesinha. Era um presente que Vicki lhe dera em seu aniversrio, meses 
atrs. Como a amiga sabia que ela gostava de lrios, comprara-lhe essa vela no formato de um belo lrio amarelo. Ela a colocara sobre um pires, com a "boca" da flor 
voltada para cima, e o pavio bem no meio da "corneta".
      A garota pegou o pires e o depositou sobre a cmoda. Deu uma espiada para sua imagem refletida no espelho e ajeitou um pouco o cabelo, que era bem "rebelde". 
Abriu a gaveta e remexeu nela  procura de seu lip gloss. Passou um pouco no canto dos lbios, onde a pele estava ressecada. Depois sussurrou outra orao de agradecimento 
a Deus por haver dado livramento a ela e a Vicki daquele acidente com a caminhonete. 
      Como ainda era cedo, resolveu passar uns bons momentos ali, fazendo algo que fazia apenas esporadicamente, pois demorava muito. Primeiro, leria essa ltima 
carta de Paul e, depois, todas as outras que ele lhe havia escrito. Ela as guardava numa velha caixa de chapus de sua av, que encontrara no sto, na poca do 
Natal. O pai pedira que ela fosse l pegar algumas luzinhas para a rvore, e fora ento que encontrara aquela caixa prateada e se encantara com ela. Dentro havia 
algumas folhas de papel de seda amarelo, amassadas, mas no tinha nenhum chapu. A av provavelmente j se desfizera dele.
      Abriu a gaveta de baixo da cmoda e pegou a caixa. Acomodou-se bem na poltrona que ficava junto da janela, preparando-se para uma longa "conversa" com Paul, 
naquela belssima noite de junho.
      Primeiro leria a carta mais recente. Saltou o pedao que j havia lido, onde ele falava que estava planejando chegar dia 12, e depois continuou.
      
      E nesses momentos em que estou me preparando para ir embora, percebo o quanto minha vida mudou, depois que cheguei aqui, naquele chuvoso dia de junho do ano 
passado. Acho que quando desembarquei em Edimburgo, meu corao se encontrava to frio e indiferente para com Deus quanto a chuva que caa. Mas as estaes foram 
mudando, e eu tambm mudei. Pra falar a verdade, creio que, nesses doze meses que passei aqui, vivi vrias vezes a minha vida, ou, pelo menos, vrias "estaes".
      Hoje, pela primeira vez na vida, posso dizer que realmente conheo a Deus. Ser que essa afirmao  meio ousada? Mas  o que sinto. Agora ele no  mais uma 
Pessoa que est "por a", ou que se manifesta em outros, como meu pai e meu av. Ele est vivo em mim. No sou eu mais quem controla minha existncia. Agora encontro- 
me "escondido" dentro da vida eterna de Deus. E enquanto estiver aqui na Terra, o Bom Pastor  que dirigir meu viver.
      Voc conhece aquela figura de Jesus como o Bom Pastor, no conhece? Est em Joo 10. Nos ltimos meses, essa passagem se tornou muito real para mim, principalmente 
o trecho que diz que "ele chama pelo nome as suas prprias ovelhas" e "eu sou a porta das ovelhas... se algum entrar por mim, ser salvo; entrar, e sair, e achar 
pastagem". Finalmente eu entrei por essa porta e estou achando pastagem, como diz o versculo.
      Aqui na Esccia  muito difcil se aprender acerca de ovelhas. Cada dia que passa, mais compreendo como elas so meio "perdidas". s vezes, seguem os outros 
animais do rebanho, em vez de acompanhar o pastor. Por diversas vezes, vi que o fato de uma ovelha no seguir a direo do pastor pode terminar em tragdia, principalmente 
quando ocorre uma tempestade.
      E por que estou dizendo tudo isso? Porque sou ovelha; e durante muito tempo segui o balido insensato de outros animais. Mas agora ouvi a voz do meu Pastor, 
que me chamou com toda pacincia para que me aproximasse dele, e eu fui.
      Deus atendeu suas oraes, Selena. Agora no volto mais atrs. Como  que posso lhe agradecer por ter insistido em me apresentar a verdade, mesmo quando eu 
no estava a fim de ouvir? Nem sei dizer o quanto sua intercesso foi importante pra mim. Voc nunca desistiu, apesar de muitas vezes eu nem lhe dar incentivo nenhum 
para orar. E voc tambm  uma das ovelhas do Senhor Jesus, Selena; alis, uma muito especial. Voc tem uma sabedoria incomum para sua idade. Defende suas convices 
e proclama a verdade com toda coragem. Muito obrigado!
      Selena parou de ler um pouquinho, para pegar um leno de papel. Suas lgrimas estavam caindo no papel e manchando a carta. Estava admirada de Paul ter dito 
tudo aquilo. Nas outras cartas, ele nunca se abrira tanto.
      Assoou o nariz e jogou o leno no cho. Em seguida, continuou a ler. Faltavam mais duas folhas de papel de seda bem fino, com a letra grande do rapaz. Iria 
ler e guardar no corao.
      

      
Captulo Seis
      
      Selena pegou a pgina seguinte e se ps a l-la, comeando em cima.
      
      Tenho orado muito, buscando saber o que o Pastor deseja que eu faa quando for embora daqui. A primeira providncia que creio que ele deseja que eu tome  
procurar diversos colegas da escola, em Portland, para pedir perdo. Quero dizer para eles o que Deus fez em minha vida, e como ele me transformou. Essa  uma das 
razes por que desejo ir a antes de seguir pra minha casa.
      Depois, pretendo ter uma conversa sria com meus pais, para acertar alguns pontos com eles. Estou percebendo que  bem mais fcil errar do que consertar os 
erros. Cheguei a pensar em escrever pra eles ou telefonar-lhes, mas depois achei que ser melhor conversar pessoalmente. Terei de pedir perdo a eles tambm, por 
alguns erros que cometi.
      Sei que Deus j perdoou meus pecados passados, mas no foi s contra ele que errei. Portanto preciso fazer tudo que puder para reparar meus erros com diversas 
pessoas. Por favor, ore por mim nesse sentido, t bom? No vai ser nada fcil, mas sei que esse  o prximo passo que tenho de dar.
      Alm disso, assumi um srio compromisso com Deus a respeito do meu futuro. Creio que ele quer que eu entre para o ministrio, que trabalhe em algum tipo de 
servio cristo. No sei se  para eu ser pastor, missionrio, atuar num servio cristo em tempo integral, como o Tio Mac, ou ainda alguma outra atividade. S sei 
que  isso que devo fazer; e estou muito empolgado com a idia de caminhar com o Senhor daqui pra frente. Ento, por favor, ore por mim, mais at do que j orou.
      Antes de terminar, quero lhe mandar uma poesia que compus especialmente para voc, Selena. Eu a escrevi algumas semanas atrs, depois que voltei de uma caminhada 
nas montanhas. Na hora que sa pelo portozinho e entrei no pasto, lembrei que seria minha ltima caminhada nessas colinas que aprendi a amar.
      Queria que voc visse os novos cordeirinhos que nasceram h uns dois meses. Eram to pequeninos! E ficavam bem juntinhos da me. Ao ver aquilo, lembrei-me 
de como me sinto "pequeno" e de como estou ansioso para permanecer bem perto de Jesus, meu Bom Pastor. Essa minha conversa com Deus, quando senti que ele me chamava 
para o ministrio, foi anteontem. Talvez algum dia eu lhe conte como isso aconteceu.
      Mas o que me levou a escrever esta poesia foi uma cena que vi e nunca mais vou esquecer. Eu tinha acabado de atravessar uma campina e comeara a subir o morro. 
Depois de alguns instantes, cheguei a um lugar onde o terreno era muito pedregoso. Ali havia muita urze silvestre. No gosto muito dessa flor;  espinhenta e tem 
uma cor meio desbotada. Mas de repente, no meio delas e bem perto de uma pedra grande e cinzenta, v um lrio amarelo, com a "corneta" voltada para o alto. Parei 
e fiquei admirando-o.  que aquele simples lrio embelezava toda aquela colina to sombria.
      A me lembrei de voc, "princesa dos lrios". Voc  como aquela flor amarela, destacando-se no meio de tudo, contrastando com tudo que  medocre. Suas palavras 
so como um vibrante toque de clarim, num mundo cheio de vidas plidas e espinhentas. E sabe o que mais? No dia em que a conheci, eu disse algo que agora vou repetir: 
no mude nunca, Selena!
      Com carinho,
      Paul
      
      A garota teve de pegar mais leno de papel, antes de comear a ler a poesia. Estava com os olhos embaados pelas lgrimas e o nariz escorrendo. Seu corao 
estava todo derretido.
      Respirou fundo e deu uma olhada para a luz da vela em formato de lrio, que tremulava ali perto. Nesse momento, desejou que j tivesse lido toda a carta antes 
do telefonema do rapaz. Teria dito muito mais coisas para ele.
      E dessa vez, ele terminara a carta com as palavras "Com carinho". Nunca fizera isso antes.
      Jogando no cho mais dois lenos de papel, ela se virou e acendeu o abajur que ficava ao lado da poltrona. Agora j escurecera bem. O canto dos pssaros estava 
mais suave, e a luz do poste da rua fazia "concorrncia" ao luar. Nunca em sua vida, Selena sentira o que estava sentindo naquele momento. Tambm ningum nunca lhe 
dissera aquilo que Paul escrevera na carta. Ningum lhe falara que ela estava certa em ser como era - mais do que certa - e que era uma pessoa muito especial, singular 
e querida.
      - "Com carinho", leu ela de novo.  bom demais!
      Deixou no colo a ltima pgina da carta, a que tinha a poesia. Passou-lhe pela mente no l-la.
      E se eu no gostar dela? E se for uma poesia exageradamente sentimental? Ser que estou preparada para dar corda aos sentimentos que tenho por Paul? Eles j 
se acham aprisionados em minha alma h tanto tempo! Minha vida se complica muito quando deixo minhas emoes ficarem desenfreadas, causando uma poro de estragos 
por a. O que ser que vai acontecer se eu as soltar?
      Ento, de repente, ela enxergou algo: estava muito diferente. As afetuosas palavras de Paul haviam conseguido mudar a viso que tinha de si mesma. Alis, elas 
ficaram impregnadas em sua memria. Devia ler o poema. Precisava devorar cada palavra que ele dissera, e principalmente porque era uma poesia que o rapaz escrevera 
s para ela.
      O ttulo era uma palavra s: "Lrio".
      
Voc est a, de p, valente, junto  sua Rocha,
Proclamando a verdade,
Eterna e imutvel,
Para uma multido espinhenta,
Orgulhosa, resistente,
Que zomba do que voc diz.
Mas voc continua firme, junto  sua Rocha,
Anunciando a verdade, em alto e bom som.
Valente Lrio dourado.
E algum, no meio dessa multido,
Orgulhoso, resistente,
Acolheu suas palavras
No corao.
E nunca mais ele ser o mesmo.
Ento, Lrio, belo Lrio,
Continue firme e valente,
Surpreenda o mundo,
Como s voc sabe surpreender.
      
      Selena releu o poema, bebendo as palavras de Paul e notando que ele a chamara de "belo Lrio". No fim da pagina, havia um PS. Dizia:
      
      Devo dizer que, no dia em que fiz essa caminhada to inspirativa, havia lido o livro de Filipenses. Quando voc puder, d uma lida em Filipenses 1.19-21. Esse 
texto me fez pensar em voc. Copiei esses versculos num pedao de papel e pus em minha carteira. Acho que posso dizer que os escolhi como lema pra minha vida. At 
breve,
      Paul
      
      A garota recostou-se na poltrona e olhou para fora, pondo-se a admirar a suave noite de junho. Permaneceu ali um longo tempo, sentada quieta, os olhos fixos 
l fora, com a carta no colo. Acabou no lendo as outras cartas dele. Dentro de mais dez dias, ela o encontraria. Iria olhar bem dentro de seus olhos azuis e ouvir 
sua voz grave. Ser que ele a tomaria nos braos, junto ao corao, num abrao apertado? Que ser que ele pensaria quando a visse? Ela havia mudado muito, desde 
que ele a vira pela ltima vez, um ano atrs. Ou pelo menos, ela achava que mudara. E com isso ela se deu conta do quanto era jovem e inexperiente quando o conhecera.
      Lembrando isso, deu um sorriso. Eles haviam se conhecido perto de um telefone pblico, no Aeroporto Heathrow, em Londres. Selena estava aguardando que ele 
terminasse sua ligao, para ento poder telefonar para os pais. Num dado momento, ele se virara e lhe pedira dinheiro emprestado, algumas moedas, para colocar no 
aparelho e concluir seu telefonema.
      Que engraado! pensou. Ele estava telefonando pra Jalene, sua ex- namorada. Puxa! E eu lhe dei dinheiro pra ligar pra ela! Ei, espere a! Acho que ele no 
me pagou. Vou ter de cobrar quando me encontrar com ele... daqui a apenas dez dias.
      No dia seguinte, na escola, Selena ainda se encontrava meio no ar, sonhando acordada. Tinha a impresso de que nem adiantava assistir s aulas. Parecia que 
os professores estavam mais infectados com o "vrus" das festas de final de ano do que os alunos. No primeiro horrio, o professor mostrou um vdeo. No segundo, 
a professora deixou os alunos livres para estudarem para a prova, que seria na quinta-feira. No quarto, como o tempo estava muito bom, o professor liberou a turma 
para ir para o ptio, sentar-se por ali e conversar.
      No fim do dia, Selena percebeu que no havia realizado nada. No tinha aprendido nenhum dado novo. No estudara nada. Aproveitara o tempo, arquitetando planos 
para os dias que ela e Paul passariam juntos. Primeiro, seria a colao de grau e o jantar. Depois foi fazendo uma lista mental com vrios itens. Iriam fazer um 
piquenique na Cachoeira Multnomah. Fariam um passeio de barco no Rio Willamette, onde jantariam. Passariam uma tarde folheando livros na Livraria Powell's, no centro 
da cidade. Em outra noite, alugariam uma fita e assistiriam a um filme em casa, comendo a famosa pipoca caramelada que sua me fazia. Dariam uma caminhada at a 
Manso Pittock, que ficava numa colina de Portland. E por fim iriam a um concerto ou a uma pea de teatro, dependendo dos eventos que estivessem sendo realizados 
na cidade. Se nenhum deles lhes interessasse, poderiam ainda fazer uma visita aos museus de arte existentes na regio. Ah, e naturalmente iriam ao Carla's Caf, 
pelo menos uma vez.
      E  medida que a semana ia passando, Selena continuava desenvolvendo seus planos. Anotou tudo numa folha de papel e foi fazendo verificaes a respeito de 
cada um. Ligou para o teatro para saber os horrios dos concertos e das peas. Checou a administrao dos barcos para ficar a par do preo do passeio. Consultou 
a Livraria Powell's, para saber o horrio de funcionamento. Acabou enchendo todo um caderninho com as informaes completas de tudo. Chegou at a pegar, num restaurante, 
alguns panfletos com publicidade de outras atraes em que no havia pensado. Dentre elas, havia umas lojas de antiguidades em Sellwood e um passeio ao Rochedo Haystack, 
que ficava no litoral, na Praia Cannon. Essa poca do ano era muito boa, tambm, para fazer windsurf no Rio Columbia. Poderiam alugar jet skis em Vancouver, do outro 
lado do rio. Havia ainda um passeio de trem de ferro, num lugar chamado Campo de Batalha, que passava pelo meio de um parque estadual. Seria outro ponto turstico 
muito bom para um piquenique.
      E o caderninho acabou virando um detalhado e bem organizado guia turstico de Portland e suas imediaes. Se Selena pudesse apresent-lo como um trabalho escolar 
e receber uma nota por ele, ficaria muito satisfeita, principalmente se fosse numa das provas finais.
      No fim das contas, ela recebeu um 9,8 numa das matrias, e dois 9 em outras. Era uma das primeiras vezes, no seu ensino mdio, que no tirava 10 em todos os 
exames finais. Uma das professoras quis saber a razo disso. Ela respondeu que no se esforara muito porque lhe faltara motivao. Nos anos anteriores, estudara 
muito para tirar notas mximas e, assim, poder se matricular na faculdade que quisesse. Agora, porm, j fora aceita na Universidade Rancho Corona e conseguira trs 
bolsas de estudo. Ademais estava terminando os estudos. O que ela no explicou foi que sua mente no conseguia se concentrar mais nas matrias, pois estava cheia 
de informaes mais importantes. Uma dessas era que as lojas de antiguidades de Sellwood no funcionavam aos sbados, e outra, os nomes dos filmes que estavam sendo 
exibidos nos cinemas da cidade. Na segunda-feira, quando foi se reunir com Vicki e Amy na Mother Bear, levou seu caderninho. Abriu-o sobre a mesa e perguntou s 
amigas o que elas sabiam sobre os dois barcos que ofereciam cruzeiros pelo Rio Willamette.
      Vicki disparou a rir e no conseguiu mais parar. Selena se sentiu insultada e ficou indignada.
      - No sei onde est a graa, falou.
      -  que voc sempre leva tudo aos extremos, explicou outra, tentando ficar sria. Como foi que teve tempo pra fazer tudo isso? Veio trabalhar dois dias  tarde, 
e no sbado, o dia todo. Na sexta-feira, fomos  formatura da Amy. E na semana toda, fizemos as provas finais.
      - Tive muito tempo, replicou ela.
      - A gente sempre acha tempo pra fazer aquilo de que gosta, interps Amy, defendendo Selena. Acho que ficou timo. Se voc quisesse, at poderia vender isso 
pra uma agncia de turismo ou algo assim. Poderia inclusive criar sua prpria agenda, pesquisando e organizando passeios tursticos para o pessoal que vem passar 
frias aqui.
      Selena ficou agradecida a Amy pelo apoio que recebeu dela, mas o fato  que no esperara essa reao das amigas.
      - Acho que vocs no esto entendendo nada, comentou, fechando o caderno e afastando-o para um lado. Lembrem-se de que estou me preparando pra receber o Paul. 
Faz um ano que no o vejo. Ele vai passar aqui apenas quatro dias. Nunca fiz nada junto com ele; nenhum passeio assim. No sei o que ele vai querer fazer enquanto 
estiver aqui. Sei que, na Esccia, ele gostava muito de caminhar. Talvez queira fazer caminhadas aqui tambm, ou quem sabe j esteja cansado disso e prefira ir a 
um cinema. Preciso estar preparada para o que der e vier. Quero estar com tudo resolvido para quando ele chegar. Assim no vou perder tempo decidindo o que vamos 
fazer.
      Vicki mudou a expresso, pondo-se mais sria. Fitou a amiga com olhar carinhoso.
      - , voc tem razo, disse. Voc est muito certa. E realmente, pensando na situao toda, fez a melhor coisa que poderia ter feito. Isso ajudar muito os 
dois a aproveitar bem o tempo, continuou e, com um brilho diferente no olhar, concluiu: Mas, faz favor, no lhe aparea com esse caderninho assim que ele puser o 
p aqui. Ele pode sair correndo!
      - Ah, claro que no! concordou Selena. Isso aqui  s pra mim. Ele nem sabe que preparei este caderno.
      No fundo, Selena ficou alegre de Vicki ter mencionado essa questo.  verdade que ela no fizera aquele elaborado planejamento achando que Paul iria "vibrar" 
com ele; no. Contudo, se a amiga no tivesse dito aquilo, era bem possvel que, assim que o rapaz chegasse, ela o mostrasse a ele. E provavelmente tentaria convenc-lo 
a realizar todos os passeios que planejara para os dois.
      - , disse ela, bebericando um pouco do seu ch de hortel, talvez eu precise mesmo me desligar disso aqui um pouco.
      Nesse dia, no estava com vontade de comer o pozinho de canela, ento empurrou-o para o lado das duas amigas, para que elas o dividissem.
      - Vocs tm razo, concluiu.
      Vicki pegou um guardanapo e limpou um pouquinho de glac que ficara preso em seu lbio superior.
      - Com relao a qu? indagou. O que foi que dissemos?
      - Com relao a algo que pensaram, mas tiveram a delicadeza de no dizer, explicou Selena. Minha mente e minhas emoes esto correndo soltas. Tenho de dar 
uma freada nelas.
      Vicki e Amy se entreolharam com expresso sria.
      - , mas no precisa se fechar totalmente, comentou Amy. Tudo que voc est fazendo e sentindo est certo. Talvez s deva ir um pouco mais devagar.
      Selena ficou surpresa com as palavras sensatas da amiga.
      - Obrigada, Amy, disse, pondo a mo sobre o brao dela e apertando-o de leve. Mas as duas precisam se lembrar de que sou inexperiente nessa questo de namoro. 
Vocs tm algum conselho pra me dar?
      Desse vez foi Amy que riu e Vicki quem ficou sria.
      - O que foi? indagou Selena, sem saber por que uma pergunta to sem maldade iria provocar tal reao.
      - Se ns temos algum conselho pra lhe dar? repetiu Amy. Cuidado, Selena! Depois lembre-se de que foi voc que pediu, hein?
      As trs se aproximaram mais umas das outras, e em seguida, Vicki e Amy se puseram a falar com a amiga, como se quisessem colocar na cabea dela a matria de 
um ano inteiro, como se ela fosse fazer o exame mais importante da vida.
      
      
      
Captulo Sete
      
      J eram 6:10h, quando Selena afinal levantou a cabea, ao fim de um "curso intensivo" sobre rapazes. Recostou-se na cadeira e fez, para suas professoras, um 
resumo de tudo que ouvira. J 't bom, disse. Vamos ver se entendi tudo direitinho. Os rapazes so uns idiotas, mas ns gostamos deles mesmo assim. Nunca devemos 
lhes dizer o que realmente estamos pensando, pois no entendero. E depois, se tivermos uma discusso, ainda podero usar contra a gente aquilo que lhes contamos. 
Devemos deixar que paguem as despesas na maioria das vezes e podemos ficar preparadas pra ter decepes.
      Vicki fez que sim.
      - , disse,  mais ou menos isso.
      - E se ele disser que a ama, interps Amy, na verdade  s porque est querendo alguma coisa. Ento fique atenta.
      Selena abanou a cabea.
      - Voc duas me causam pena, comentou.
      As amigas ficaram espantadas.
      - Por que foi que se tornaram to amargas, se ainda so jovens?
      -  a realidade, Selena, confirmou Amy, com expresso sria. Algum dia faa uma experincia e voc ver.
      - Olhem aqui, retrucou a garota. Eu sinto muito se o relacionamento de vocs com os rapazes foi to negativo, mas nem todos so assim.
      - Ento vamos fazer uma prova, Srta. Inocncia, sugeriu Vicki, pegando o cabelo longo, torcendo-o e prendendo-o  nuca com uma "piranha". Na segunda-feira 
que vem, vamos nos reunir aqui de novo e a voc poder dizernos se temos razo ou no.
      - Nesta segunda, no, replicou Selena. O Paul ainda estar aqui.
      - O.k., na outra segunda, ento. Ou quem sabe a gente tenha de fazer uma reunio extra depois que ele for embora, pra voc provar que estamos erradas.
      - Vocs iro conhec-lo em minha casa, no jantar na sexta-feira. A vero como esto enganadas.
      - Ah, e por falar no jantar, interps Amy, j sabe com certeza quantas pessoas iro?
      Nos quinze minutos seguintes, as trs conversaram sobre o nmero de participantes, o cardpio e outros preparativos para a festa. Selena se esquecera de pensar 
em alguns detalhes como a bebida, o po e a hora em que iriam preparar tudo. Ento Amy tomou a direo da conversa e fez diversas sugestes. Percebia-se que ela 
j havia pensado bastante sobre o assunto. Ofereceu-se para levar uma bandeja de frios ainda pela manh, que Selena poderia tirar da geladeira logo depois da colao 
de grau. To logo a cerimnia terminasse, Amy daria uma chegada no restaurante, pegaria o resto da comida e a levaria  casa da amiga. Assim tudo j estaria pronto 
para ser servido. Vicki disse que poderia recolher o dinheiro com o pessoal para que, na sexta-feira, Amy j pudesse levar o pagamento para seu tio. Selena se encarregaria 
dos arranjos necessrios na casa. E se ainda houvesse algo mais para ser feito, as trs cuidariam disso aps a festa da formatura.
      - No momento, disse Selena, o Warner  o nico que no vai poder ir.
      E, como o rapaz era mesmo um incmodo para ela, aqui ela teve de se conter para no fazer mais nenhum comentrio. Preferia no demonstrar que a ausncia dele 
no a desagradava nem um pouco. Em seguida, ajuntou:
      - Mas eu pensei em convidar o Wesley para nosso jantar, se ele quiser. Acho que vocs no vo se importar, n?
      - Pra mim est timo, disse logo a Amy, com os olhos brilhando.
      Selena teve vontade de falar: "Eu j sabia que voc diria isso", mas no o fez. E prosseguiu:
      - Acho que ainda no comentei isto, mas creio que a Tnia e o Jeremy estaro a. Eles vo vir de carro, mas minha irm ainda ter de acertar alguns detalhes 
do trabalho dela. Ela vai ter de fazer umas fotos na quarta-feira. Isso significa que tero de dirigir sem parar, para chegar aqui a tempo, na sexta-feira. Se eles 
vierem mesmo, vocs se importariam se participassem da nossa festa? Acho que o Paul talvez fique alegre de ver o irmo entre ns.
      - Mas tenho de saber tudo isso at amanh, comentou Amy, para encomendar a comida.
      - 'T bom. Vou ligar pra Tnia hoje  noite.
      -  gente, disse Vicki, infelizmente vou precisar interromper nossa reunio. Tenho de estar em casa daqui a cinco minutos. Na semana passada, cheguei duas 
vezes depois da hora marcada. E esta semana no quero ter nenhum problema com meus pais. Ento tenho de ir embora voando.
      Ela se levantou e pegou a mochila que estava pendurada num cabide de parede, perto da mesa delas.
      - Tchau, meninas! Beijinhos! Depois a gente se v!
      E com movimentos rpidos, saiu.
      - , disse Amy se levantando, tambm tenho de ir.
      Selena pegou no brao da amiga para det-la.
      - Ainda no conversamos sobre Deus, disse.
      Amy deixou o sorriso bonito ir morrendo no rosto.
      - Ah,  mesmo? Outra hora ns conversamos.
      Selena ficou sem saber se aquela resposta significava que a amiga estava mais interessada em ouvir a respeito de Deus, ou se se sentia aliviada de no terem 
tocado no assunto.
      - Ento, na sexta-feira cedo a gente se v, disse Selena, erguendo-se tambm. Se precisar de algo antes disso, voc me liga, o.k.?
      - Quando  que o Paul chega?
      - Na quinta-feira, tarde da noite. No sei se vou v-lo na sexta de manh, ou se ele s vai aparecer na hora da formatura, ou o que vai acontecer.
      - Pena que voc no pode ligar pra ele pra saber.
      Quando Selena se dirigia para casa, ps-se a pensar se havia um jeito de ligar para o Paul, caso resolvesse faz-lo. Bem, agora era de manh na Esccia, muito 
cedo para ligar. Teria de esperar at mais tarde um pouco. Como arranjaria o nmero dele? Com o Tio Mac?
      Assim que entrou em casa ouviu a voz da me chamando-a da cozinha.
      -  voc, Selena?
      - Sou, me.
      - timo! Pode dar uma chegadinha aqui? Tenho umas coisas pra lhe dizer.
      Encontrou a me lavando as vasilhas. Sobre a mesa, havia um prato, com arroz, feijo e alguns pedaos de carne, coberto com filme plstico transparente. Entendeu 
que era! para ela.
      - Os meninos tm um jogo de beisebol agora  noite, ento jantamos mais cedo. Seu pai foi lev-los l. Vrias pessoas ligaram pra voc. Uma foi o Paul.
      - Ah, ? Eu estava justamente pensando em telefonar pra ele. Quando foi que ele ligou?
      - Ah, no sei a hora certa. Foi mais cedo. Disse que os horrios da viagem mudaram. Anotei tudo. Est vendo aquele papel ali?
      Rapidamente, Selena foi l e o pegou. Era uma folha de caderneta com um desenho impresso no alto,  esquerda. A me anotara ali todas as informaes sobre 
o vo de Paul. Ele chegaria s 4:15 da tarde.
      - Mas isso  timo! exclamou a garota. Antes ele ia chegar depois de 10:00h da noite!
      - Na verdade, disse a me, enxugando as mos e se aproximando dela para explicar melhor, ele s vai chegar na sexta-feira  tarde, e no na quinta. Eu repassei 
tudo com ele. Disse que sente muito, mas no vai chegar a tempo da colao de grau. Mas vir direto do aeroporto para aqui, para o jantar.
      - Tudo bem, comentou Selena.
      Sentia-se um pouco frustrada, pois imaginara-o assistindo  sua formatura. De todo modo, preferia que ele viesse mesmo era  festinha.
      Explicou que foi a companhia area que mudou o horrio do vo, completou a me. Ele no teve nada a ver com isso.
      - 'T tudo bem, repetiu Selena. Que bom que ele ainda vai poder vir pra passar uns dias aqui!
      - E o melhor de tudo voc ainda no sabe. A Tnia tambm telefonou e disse que o trabalho que ia fazer foi adiado. Ento ela e o Jeremy vo sair de San Diego 
amanh. Eles vo para na casa de uns amigos dos pais dele em San Francisco e chegaro aqui na quarta-feira  noite. Ento vo participar de nossa festinha da famlia 
na quinta-feira. Depois o Paul pode pegar uma carona com eles na volta pra casa, na semana que vem.
      - Que dia eles vo embora?
      - Pois . Isso  o que eu disse que  o melhor de tudo. Eles no tm o dia certo. Ento pode ser que o Paul fique aqui mais de quatro dias.
      Selena sorriu. Sua me devia saber o quanto essa notcia era importante para ela. A garota sabia que D. Sharon gostava muito de ir aos jogos de beisebol dos 
filhos, principalmente numa noite agradvel como aquela. Ela curtia bastante esses eventos. Costumava ficar sentada numa cadeira, prximo do campo, torcendo e gritando 
muito. Contudo ficara em casa s para lhe dar essas notcias pessoalmente. Sorriu alegre de novo.
      - E a Margaret tambm ligou, continuou a me. Disse que na sexta-feira s vai poder vir mais tarde, pois sua famlia vai sair pra jantar aps a colao de 
grau. Mas disse que vai chegar pra sobremesa.
      - Ento tenho de avisar a Amy, lembrou a garota. Ela vai fazer o pedido da refeio amanh. O Ronny tambm no sabe se poder vir. Os pais dele ainda no decidiram 
sobre a festa da famlia.
      - Ser que se eu ligasse pra eles e explicasse o que estamos planejando ajudaria um pouco? indagou a me.
      - No sei, replicou Selena. , mas no faria mal fazer uma tentativa.
      - Voc e a Amy vo precisar de mais alguma coisa? Eu pensei que seria bom vocs utilizarem nosso jogo de jantar de porcelana. Temos s vinte e um pratos, por 
causa daquele problema no Natal. Acha que d?
      - D e sobra.
      - Agora, lembre que a Tnia chega depois de amanh. Acho bom voc dar um jeito no quarto, seno ela nem encontra mais a cama dela.
      - No tem graa nenhuma, me. Alis, o quarto no est no bagunado, no.
      D. Sharon ergueu uma das sobrancelhas, duvidando. Era uma mulher de corpo elegante, cabelo curto e lbios cheios e bem formados, como os de Selena. Sempre 
que ela erguia uma sobrancelha, curvava um pouco os lbios. Embora estivesse querendo reforar a ordem para a filha, mostrando que estava falando srio, a expresso 
do seu rosto era cheia de ternura. E Selena tinha mais vontade era de rir.
      - 'T bom, 't bom, disse a garota. Vou l dar uma arrumada boa, e a cama vai aparecer direitinho. Mas s depois que eu jantar, viu?
      Nos dias seguintes, Selena se esforou bastante para colocar o quarto em ordem. Pensou que talvez o Paul pudesse querer conhecer a casa e, com isso, sua motivao 
para arrumar tudo aumentou muito.
      Assim, na quarta-feira  noite, quando Tnia e Jeremy chegaram, ela j estava dando os retoques finais no aposento. Apanhara algumas flores no jardim e as 
pusera em dois vasos. Estava subindo para o quarto com os vasinhos quando ouviu a porta da frente se abrir e a voz de sua irm gritando:
      - Ei! Chegamos!  pessoal!
      Selena subiu correndo para colocar as flores no quarto. Ps um vaso sobre a mesinha-de-cabeceira ao lado da cama de Tnia, e o outro, em sua cmoda. Naquele 
instante, uma suave brisa noturna invadiu o lugar, espalhando nele o delicioso perfume das flores.
      Desceu as escadas apressadamente e cumprimentou a irm com um forte abrao. Tnia deu-lhe um beijo no rosto, correspondendo tambm com um abrao apertado.
      A garota teve a impresso de que a irm estava um pouco mais alta. Ou ser que eram os saltos do sapato? Mais magra no havia dvida de que estava. Ou talvez 
tudo fosse consequncia do fato de ela estar trabalhando como modelo profissional, havia j alguns meses. Com isso ela adquirira um jeito e uma postura mais elegantes. 
O cabelo estava quase batendo no ombro; e tinha uma colorao bem semelhante  sua cor natural. Fazia algum tempo que Selena no o via com aquele tom. A irm j 
tinha tingido o cabelo de diversos tons, indo do louro at o castanho mogno avermelhado. Hoje, porm, estava com um castanho claro, que lembrava a cor de um ch 
quente, com um pouquinho de creme por cima. Ela combinava bem com a pele rosada de Tnia.
      - E a? perguntou Tnia. Est animada?
      Selena deduziu que o mais provvel era que a irm estivesse se referindo  formatura.
      - Claro que estou! replicou com um brilho diferente no olhar, pois estava pensando que iria rever o Paul.
      Ao lado de Tnia estava Jeremy, irmo de Paul e mais velho que este. Ele abriu os braos esperando um abrao de Selena. Ela o abraou, sentindo-se meio sem 
jeito. Parecia estranho estar abraando o irmo de Paul, quando estivera sonhando em abraar o prprio. Era como tomar um sorvete de creme de segunda categoria, 
quando a vontade era provar um legtimo, bem cremoso, de boa marca. Eram parecidos, mas no tinham exatamente o mesmo sabor.
      Tentou recordar se Paul era mais alto que o irmo ou no. E o cabelo dele era to escuro quanto o de Jeremy? No; isso lembrava bem. O de Paul era mais claro. 
Os olhos de Paul no eram to profundos quanto os do irmo, e o queixo deste era mais pontudo. Na opinio dela, dos dois irmos, o mais bonito era o dela. Contudo 
no ficou muito tempo devaneando sobre isso. De repente, ocorreu-lhe que Jeremy tambm poderia estar ali, olhando para ela com o mesmo pensamento: das duas irms, 
a mais bonita era a dele.
      Os pais de Selena, que tinham sido os primeiros a cumprimentar os recm-chegados, agora estavam lhes fazendo as perguntas de praxe sobre a viagem e indagaram 
se queriam comer algo.
      - Eu s quero  dormir, respondeu Tnia. Na casa onde passamos a noite ontem, havia um cachorro, um filhotinho, e ele latiu a noite toda.
      - Os dois devem estar exaustos, comentou a me.
      - Eu no, replicou Jeremy. Dormi maravilhosamente no sof da sala ontem. A Tnia foi quem ficou no quarto de hspedes, bem ao lado da garagem onde estava a 
casinha do cachorro.
      Aqui ele passou o brao sobre o ombro da namorada e continuou:
      - Eu fiquei dizendo a ela pra dormir no carro. Mas ela no consegue dormir com movimento, n?
      A jovem abanou a cabea olhando para ele, como que pedindo para no contar o que mais acontecera. Contudo ele no atendeu; e prosseguiu falando.
      - Todas as vezes que eu parava no posto de gasolina, ela dormia. Assim que eu ligava o carro, ela despertava. J que ela estava acordada, pedi a ela para dirigir 
o resto do caminho e fui dormir. Agora, estou perfeitamente desperto, e ela, dormindo em p.
      - Ento vai deitar, filha, disse o pai. Eu levo sua bagagem.
      - Pode deixar, interveio Jeremy. Eu levo.
      O rapaz teve de pegar a pesada mala com as duas mos para carreg-la para cima. Deu uma esbarrada no pilar do corrimo, e Selena viu a me se contrair, tensa.
      - Onde  o quarto? indagou ele.
      As duas irms o acompanharam escada acima, e Selena passou  frente para lhe abrir a porta. Jeremy parou, deixando que Tnia entrasse antes. Em seguida, chegou 
e depositou a mala no cho.
      - No acredito! exclamou a jovem, dando uma olhada pelo cmodo. Nunca vi este quarto to arrumado assim! O que aconteceu? Arranjaram uma empregada?
      - Hummm! No tem graa nenhuma, Tnia!
      Tnia se sentou na beirada da cama e se ps a admirar o vasinho com as flores.
      - Parece que a minha irmzinha finalmente est crescendo e aprendendo a ter responsabilidade. Nunca pensei que esse dia chegaria.
      Selena sentiu uma ira sbita. Ao que parecia, ela e a irm estavam voltando aos velhos tempos, quando brigavam por qualquer motivo. E o pior era que ela pensara 
que j haviam superado essa fase da vida. Agora, ali estava a irm, tratando-a como criana, e na frente do Jeremy.
      De repente ocorreu-lhe um pensamento apavorante. Poderiam continuar assim durante todo o final de semana. Se Tnia ficasse a relembr-la constantemente que 
ela era a irmzinha tola, iria se sentir muito constrangida, no s diante do Jeremy, mas tambm do Paul. Alm disso, no teria mais aquele quarto, que era o seu 
refgio, s para ela. Tnia acabara de invadi-lo; e, pelo visto, iria invadir tambm a sua vida.
      

      
Captulo Oito
      
      Na quinta-feira de manh, Selena at ficou alegre de ir para a escola. Muitos colegas haviam resolvido "matar" as aulas.  que era o ltimo dia, e parecia 
desnecessrio assistir s aulas. Selena, porm, preferiu ir, para sair de casa. Tnia fora dormir cedo, mas acordara meio irritada, com o fato de Selena estar abrindo 
e fechando gavetas to cedo, s 7:00h da manh. A garota ainda no superara a sensao de tristeza que tomara conta dela na noite anterior. Naquele momento, achava 
tudo meio irreal. As aulas tinham terminado. Ela estava se formando. Parecia que sua infncia tambm acabara.
      E acabou to depressa, pensou, quando dirigia para a escola. Ainda me lembro do meu primeiro dia de aula. Mame me obrigou a calar aquele sapato vermelho 
com fivelas. Detestei aquele sapato! Que ser que ela pensou quando comprou aquilo pra mim? Mas ser que ela comprou? Talvez fosse de Tnia, e ficara pequeno pra 
ela!
      Quando entrava no estacionamento do colgio, ela se deu conta de algo. Era verdade que, naquela poca, sua me no entendia muito de seus gostos, mas agora 
compreendia bem. Fora maravilhoso da parte dela aceitar antecipar a festinha da famlia, para que Selena pudesse fazer aquela comemorao na sexta-feira com os colegas. 
Os pais da Vicki tinham criado muito problema com essa mudana. A amiga lhe dissera que discutira demais com eles.
      Selena se sentia muito grata  me, mas, ao mesmo tempo, no deixava de ter certa tristeza. Naquele seu primeiro dia de aula, muito tempo atrs, a me preparara 
um caf da manh especial, com panquecas e tudo. Ela lhe escrevera um bilhetinho carinhoso e pusera no bolso do agasalho. Tambm haviam tirado fotos, antes de ela 
seguir para a escola. E a turminha seguira em fila indiana. Cody ia  frente. Atrs dele vinha Wesley, seguido de Tnia. Ela era a ltima, depois da irm. Hoje ela 
tomara o "caf da manh" sozinha: apenas uma banana. Ningum se despediu dela, e teve de ir para a escola tambm sozinha. Obviamente no esperava que a me tirasse 
retratos, nem nada. S que estava tudo muito diferente de todos os outros dias escolares.
      Se isso  que era ser adulta e independente, no estava gostando muito, no. Ou pelo menos no tinha muita certeza de que j queria entrar nessa fase da vida.
      E nesse ltimo dia, em todos os perodos s houve festa. Quase todos os professores fizeram belos discursos, dizendo que o ano letivo fora excelente. Uma professora 
dera a cada aluno um cartozinho com um versculo bblico, como que proferindo uma beno para o futuro deles. Foi um dia gostoso, divertido, mas ao mesmo tempo 
um pouco triste; um dia meio estranho.
      Terminada a aula, em vez de ir direto para casa, Selena resolveu passar na Eaton's. Essa loja era uma drugstore onde havia um pequeno balco de lanches. Pediu 
um milk-shake de chocolate. A garonete lhe trouxe a bebida gelada num copo grande. Era a mesma garonete que a atendera na primeira vez que fora ali, acompanhando 
a V May. No se lembrava do nome dela, mas lhe sorriu agradecendo. A mulher lhe fez perguntas sobre sua famlia, principalmente sobre a av.
      A garota foi sorvendo o milk-shake lentamente, recordando a ocasio em que estivera ali com V May, havia um ano e meio. Tinha sido seu primeiro dia de aula 
no Colgio Royal. V May tinha o costume de levar todos os filhos quela lanchonete no primeiro dia de aula.  verdade que, para Selena, o primeiro dia de aula fora 
no meio do ano letivo, pois viera transferida de outra escola. Mesmo assim, a av ainda achou que a neta merecia tomar um milk-shake com ela na Eaton's. Agora ela 
se sentia meio estranha, sentada ali sozinha, vendo-se como uma pessoa adulta, responsvel por si mesma, e ningum "cuidando" dela. Sabia que assim que a festa da 
famlia comeasse,  noite, no sentiria mais isso. E no dia seguinte, seria a formatura. O Paul chegaria, e eles passariam quatro dias juntos. A ela adoraria j 
ser adulta, dona de seu nariz, com liberdade para fazer o que quisesse.
      Naquele exato momento, porm, ela era apenas uma formanda triste e solitria, to triste e solitria que perdeu a vontade de tomar aquele milk-shake.
      Deixou uma excelente gorjeta para a garonete. Sentia que algum precisava recompensar aquela mulher por estar trabalhando naquela lanchonete havia tanto tempo 
-durante o perodo que terminou o seu ensino mdio.
      Em seguida, entrou no carro e foi para casa, dizendo para si mesma que os melhores anos de sua vida ainda estavam por vir. A essa altura, achou que parte de 
sua tristeza se devia ao fato de no ter passado a vida toda em Portland. Viera transferida para ali na metade do ensino mdio. Gostava muito de todos os colegas, 
mas no era o mesmo sentimento que tinha pelos de Pineville, a cidadezinha da Califrnia onde morara antes. Ela os conhecia desde pequena. E quando se mudara, tinha 
pensado em manter contato com eles. Prometera, com toda sinceridade, que iria l para assistir  formatura deles tambm. Conhecia bem os cinquenta e nove alunos 
que tinham se formado naquela escola, na semana anterior. Conhecera-os quase que durante a vida toda. Agora estava surpresa ao se dar conta de que, com pouco tempo 
em Portland, ela se adaptara e se esquecera de todas as promessas feitas. E parecia que o mesmo acontecera aos seus colegas. Apenas dois ou trs deles lhe haviam 
enviado o convite de formatura. E nenhum deles mandara sequer um bilhete ou uma carta.
      At onde sabia, nem ela nem sua me haviam mandado convites para os antigos colegas de Pineville. Isso a deixou ainda mais triste.
      Por que ser que a vida muda tanto assim? No vou deixar isso acontecer quando for para a faculdade. Ou ser que vou? No. Embora Amy no tenha interesse em 
estudar na Rancho Corona, e mesmo que a Vicki no seja aceita l, ns trs vamos continuar sendo amigas, no vamos? Quando eu vier pra casa nas frias, ainda vamos 
nos reunir na Mother Bear. Temos de fazer isso! No aceito em hiptese nenhuma que nossa amizade termine!
      Quando afinal entrou em casa, estava muito pra baixo, quase em estado de depresso. Se houvesse um "Oscar" para formandos que fingiam estar alegres na comemorao 
da famlia, mas que na verdade estavam em profunda, tristeza, ela certamente o ganharia. E de fato, armou uma bela fachada de felicidade para os parentes. Os dois 
irmos mais velhos, Cody e Wesley, j tinham chegado. Katrina, esposa de Cody, e seu filhinho, Tyler, vieram cobri-la de beijos e abraos. Parecia at que ela ganhara 
algum concurso, e no que estava apenas se formando no ensino mdio. Achou estranho abraar a cunhada, pois Katrina estava com seis meses de gravidez. Selena no 
estava habituada a abraar grvidas.
      E por duas vezes, durante a festinha, Katrina pegou a mo de Selena e a ps em sua barriga, dizendo:
      - Viu, Selena? Sentiu isso? Espere um pouco. Ela vai chutar de novo.
      A garota tinha vontade de dizer para a cunhada que poderia vir a amar a sobrinha depois que ela "entrasse em cena", da a alguns meses. Agora, porm, no estava 
muito a fim de cultivar carinho pela pequenina, apenas sentindo os chutezinhos dela atravs da barriga da me.
      D. Sharon preparara um grande jantar, com vrias bandejas de saladas e legumes. O Sr. Jensen estava cuidando de grelhar o frango. De sobremesa, a me serviu 
um grande bolo de cenoura, com uma cobertura de queijo cremoso. Nele, havia uns enfeitezinhos de plstico, no formato do capelo de formatura, e pequeninos diplomas 
enrolados. No meio, estava inscrito: "Parabns, Selena!"
      Todos deram presentinhos para a garota. Os parentes que no tinham vindo para a festa enviaram cartes com dinheiro. V May estava maravilhosamente lcida 
e, durante toda a noite, conversou de forma clara e lgica. Selena observou que Jeremy se "entrosara" perfeitamente dentro da festinha. Notou que ele tratava sua 
irm como uma princesa.
      Nesse dia, Selena recebera uma nova carta da faculdade, avisando que ganhara mais uma bolsa de estudos. J era a quarta. Tudo estava perfeito. E ela deveria 
estar to feliz quanto fingia estar. Mas no. Sentia-se como que entorpecida. Parecia que toda aquela celebrao no era para ela, mas para um dos irmos mais velhos, 
como as festas anteriores. Ela era apenas mais uma das "crianas" presentes. O problema  que no era mais um dos pequeninos. Tinha a sensao de que cruzara uma 
"fronteira" e agora fazia parte do grupo dos filhos "mais velhos" da famlia Jensen. Contudo, no momento, dos seis filhos, apenas Kevin e Dilton eram pequenos. E 
ainda faltava muito tempo para que se formassem no ensino mdio.
      S na manh seguinte foi que Selena conseguiu acreditar que tudo aquilo estava acontecendo de fato. Sua me havia pendurado na porta do closet a beca e o capelo 
que ela iria usar na colao de grau. Assim que acordou, a primeira coisa que avistou foi a vestimenta. Recordou-se da formatura de Tnia, dois anos atrs. Ela havia 
pegado o capelo da irm e o colocara na cabea. Achara o objeto mais feio que j vira. Ento se pusera a abanar a cabea, fazendo a borla danar de um lado para 
outro. A Tnia gritara com ela, e parara com a brincadeira.
      Hoje, o capelo que se achava pendurado na porta do closet era dela. Dessa vez, ele lhe pareceu muito importante e valioso. Entendeu que se o Kevin o colocasse 
na cabea e se pusesse a brincar com a borla dele, tambm gritaria com o irmo.
      Este era o dia que ela esperara ansiosamente. Nesse momento, Paul estava num avio. E antes que se passassem vinte e quatro horas, ela se encontraria com ele 
e... Fez um esforo e interrompeu o vo da sua imaginao. Tudo viria a seu tempo, como dizia V May, falou consigo mesma.
      Selena ficou a orar, enquanto tomava banho, se aprontava e "brigava" com o cabelo. Demorou um pouco aplicando o rmel e depois desceu. Embaixo, encontrou Wesley 
e Jeremy envolvidos numa batalha qualquer, num vdeo game.
      - ! exclamou em tom brincalho. Vocs dois me do pena!
      Nenhum dos dois havia tornado banho. Ambos estavam despenteados e com roupas amarrotadas.
      - Ei, pare de debochar do nosso brinquedinho, reclamou Jeremy. Estamos nos divertindo um pouco!
      -  mesmo! concordou Wesley. Alguma vez ns debochamos das suas brincadeiras, quando tomam seus chazinhos? Dizemos que vocs nos do pena?
      - No, replicou ela. Mil desculpas. Continuem se divertindo, garotes!
      - Uuuuhhh! gritou Wesley, levantando e se sentando, com o controle remoto nas mos. Voc no podia ter ganhado essa, Jeremy, eu cheguei ali antes de voc! 
Uuuuuh! Cuidado!
      - Cochilou, perdeu! replicou o outro, dando uma risada.
      Selena se dirigiu para a cozinha, rindo tambm. Paul iria se entrosar muito bem nessa famlia, principalmente porque o irmo mais velho dele j fazia parte 
da turma. A me deixara sobre a mesa um tabuleiro com bolinhos, uma jarra de suco de laranja e uma tigela grande com salada de frutas. A luz do Sol, brilhante e 
dourada, entrando pela janela, iluminava o balco da cozinha. L de fora, vinha a gargalhada gostosa de Tyler, seu sobrinho de quatro anos, que estava ali com o 
vov. Brutus dava latidos alegres e, provavelmente, babava em cima do garoto. No andar superior, algum tomava banho. No banheiro que havia no poro, outra pessoa 
usava um secador de cabelo a todo vapor.
      Embora a garota fosse a nica na cozinha, naquele momento, servindo-se de suco de laranja, sentiu-se cercada de amor. Em ocasies assim, ela se alegrava de 
ter uma famlia grande. Achava que quem no tinha esse mesmo privilgio estava perdendo algo de muito bom.
      E eles tiveram de ir em trs carros, quando se dirigiram para o salo nobre da escola de Selena. A garota foi com Tnia e Jeremy. Felizmente sua irm dormira 
um pouco mais e se mostrava de bom humor. Pretendia dizer-lhe que ela e Paul gostariam de sair sozinhos, em vez de estarem sempre acompanhados dela e do namorado. 
Ento queria conversar sobre isso agora, aproveitando que ela estava bem humorada. Se falasse num momento em que ela no estivesse de bom humor, poderia no entender 
direito e ficar ofendida.
      Selena colocou a beca sobre os joelhos e o capelo em cima dela. Sentia-se um pouco nervosa, mas no sabia bem por que. Achava que no era por causa da formatura. 
Afinal, no era oradora da turma, nem nada. No precisaria fazer nenhum discurso. S teria de caminhar at a frente, cumprimentar o diretor, pegar seu diploma e 
descer do palco. Ento, o que a estava incomodando?
      Deve ser por causa do Paul, pensou. Estou to nervosa e emocionada porque vou v-lo, que no consigo pensar em mais nada. , mas a formatura  algo muito importante, 
e eu deveria estar pensando nela.
      Tentou imaginar o que o rapaz estaria fazendo no avio aquela hora. Ser que estaria lendo? Dormindo? Estaria olhando pela janelinha, como ela fazia nesse 
momento, espiando pela janela do carro? Ser que estava nervoso pelo fato de que iria v-la?
      Quando chegaram ao estacionamento da escola, Selena tirou o Paul da mente, deu tchau para seus familiares e foi correndo em direo  biblioteca, onde todas 
as moas iriam se reunir antes da cerimnia.
      Vicki j estava l, vestida com a beca e arranjando o capelo na cabea. Assim que avistou a amiga, soltou um gritinho e correu para ela. Outras garotas tambm 
a cumprimentaram, abraando-a e dando risadinhas nervosas. Depois ficaram a reparar umas as outras, arrumando os capelos e as borlas.
       - Quem ser que inventou este chapu achatado afinal? indagou Margaret. Por que ser que no arranjaram um negcio melhor? Quero dizer, eles j conseguiram 
mandar um homem  Lua, mas no conseguem criar um chapu mais bonito pra gente usar na formatura!
      Selena achou que aquele era um bom momento de demonstrar seu talento com a "dana da borla". Vicki logo viu o que ela estava fazendo e tentou imit-la, fazendo 
os movimentos leves para balanar o cordo. Mais duas garotas as viram e se puseram a fazer o mesmo. Depois mais trs se aproximaram e se juntaram a elas, como uma 
competio improvisada. Da a pouco, todo o grupo ria s gargalhadas, o que foi uma espcie de desafogo para a tenso nervosa.
      - De que lado que a borla fica mesmo? indagou uma das meninas.
      - Deste, replicou Vicki, colocando a sua de um dos lados. J esqueceu que eles disseram isso no dia do ensaio? Depois, terminada a cerimnia, a gente a joga 
para o outro lado.
      Nesse momento, uma das professoras de Histria entrou na biblioteca e bateu palmas para chamar a ateno das garotas.
      - 'T bom, meninas, est na hora. Vamos fazer uma fila no corredor, por ordem alfabtica. Ento vamos, com muita ordem.
      Os rapazes j estavam enfileirados no corredor, com espaos vazios nos pontos em que as meninas deveriam se encaixar entre eles, como haviam feito no ensaio. 
Parecia que eles tambm estiveram inventando brincadeiras antes. Os orientadores do ensaio lhes passaram muitas recomendaes no sentido de que no fizessem nenhuma 
"aprontao" durante a cerimnia. No ano anterior, algumas garotas haviam levado, escondidos dentro da beca, alguns vidros com gua e sabo. A certa altura, tinham 
feito bolhas, soltando-as por todo o salo nobre. Foi uma brincadeira inofensiva, mas acabou causando muitos problemas. Por isso, a administrao da escola recomendara 
seriamente que ningum "inventasse" nada semelhante. Selena no tinha muita certeza de que os alunos iriam obedecer.
      - Vem c, Selena, chamou Ronny.
      Durante o ensaio, eles tinham percebido que iriam ficar um ao lado do outro, por causa da ordem alfabtica. Ento a garota logo se adiantou e entrou na fila. 
Ficou entre o amigo e outro rapaz, que no conhecia bem e que estava o tempo todo remexendo na gravata.
      - Est nervosa? indagou Ronny com seu sorriso tpico, hoje um pouco mais aberto.
      - No, replicou Selena. E voc?
      - Tambm no. Eu j estava ansioso que este dia chegasse.
      - Eu tambm, respondeu ela, concordando.
      - Olhe aqui, pessoal, disse o professor de educao fsica, com voz bem retumbante, vamos entrar. Lembrem-se de fazer tudo exatamente como ensaiamos. E agora. 
Podem entrar e encher de orgulho o corao das mames.
      A porta do salo se abriu e eles ouviram uma msica majestosa, como que lhes dando as boas-vindas. E todos os alunos, com a beca e o capelo preto, saram andando 
pelo corredor.
      Assim que chegou a vez de Ronny e Selena comearem a andar, o rapaz pegou a mo da garota. E ela foi marchando, ao som da msica, de mos dadas com seu melhor 
amigo.
      

      
Captulo Nove
      
      Primeiro houve trs nmeros musicais. Depois, um homem que estudara no Royal e atualmente tinha uma cadeia de lojas de mveis no Arizona fez um discurso. Afinal 
o diretor foi  frente. Selena esticou um pouco o lbio inferior para a frente e soltou o ar dos pulmes com a boca semicerrada. Sentia calor e a testa molhada de 
suor. O salo estava abafado. Tinha a sensao de estar sufocada, com aquela roupa. Ainda bem que, os agradecimentos e a entrega de prmios transcorreram rapidamente. 
O ltimo prmio a ser apresentado era uma doao que a escola havia criado nesse ano. Destinava-se ao aluno que tivesse demonstrado o melhor carter cristo, nos 
anos em que estudara no Colgio Royal.
      - Provavelmente  voc que vai ganhar, cochichou Ronny para ela.
      - Que nada! replicou a garota, tambm em voz sussurrada. Deve ser voc. Merece esse prmio por causa daquela vez em que decidiu cortar o cabelo pra dissipar 
um tumulto que j estava se formando na escola, lembra?
      Aqui tiveram de parar de discutir, pois o diretor estava dizendo:
      - O ganhador deste prmio receber uma bolsa escolar no valor de $4.000,00 dlares, generosamente oferecida pela Mobiliadora Pellmer, do Arizona, para estudar 
na faculdade que escolher. O agraciado ... Ronny Jenkins!
      O rapaz quase deu um salto da poltrona. Virou-se para Selena com um enorme sorriso e lhe deu um tapinha no ombro. Em seguida, subiu ao palco. O diretor lhe 
entregou um envelope grande e cumprimentou-o com um aperto de mo.
      Que maravilha, Senhor! pensou Selena exultante. O Senhor sabia o quanto o Ronny precisava dessa bolsa pra estudar na Rancho Corona. T s maravilhoso, Senhor! 
Obrigada, meu Deus! Muito obrigada!
      Ronny retornou para seu lugar, com ar de quem finalmente entendera que ganhara o prmio. Parecia mais atordoado que no momento em que o diretor anunciara seu 
nome.
      - Isso foi uma "coisa de Deus", murmurou Selena.
      - ... disse o rapaz, e no conseguiu falar mais nada.
      Nesse instante, teve incio a entrega dos diplomas, com a chamada dos alunos  frente. Um a um, eles foram subindo ao palco. Quando foi a vez de Selena, ela 
percebeu que no estava nem um pouco nervosa. Com o canto dos olhos, notou o brilho de um flash. Era sua me, "registrando" aquele grande momento de sua vida. Selena 
sorriu. Pegou o diploma com a mo esquerda e lembrou de estender a direita para cumprimentar o diretor. Nesse instante, a professora de ingls, que estava ao microfone, 
disse o nome da garota e sua classificao acadmica, em voz alta e clara:
      - Selena May Jensen, magna cum laude! *
      Ouviu-se um estrondoso aplauso, e Selena sentiu um arrepio na espinha. Ela deu uma parada antes de descer os degraus do palco e olhou na direo de onde vinham 
as palmas mais barulhentas. Era o que pensara. Ali estava sua famlia, e sua me empunhando a mquina fotogrfica. A garota levantou o diploma e sorriu de novo, 
para dar  me mais uma chance de bater outra foto.
      A a professora chamou o aluno seguinte, tambm seguido de muitas palmas, encerrando o momento de glria de Selena. A garota foi sentar em seu lugar, ao lado 
de Ronny. O rapaz lhe deu uma cutucada com o cotovelo, e ela retribuiu. Estavam ambos muito felizes um com o outro.
      Afinal a cerimnia terminou e, realmente, ningum fez nenhuma brincadeira. Algum fez uma orao. Outro proferiu um pequeno discurso cheio de conselhos para 
os alunos. Em seguida, o diretor disse que podiam trocar a borla de lado. Os formandos desfilaram para fora do salo com ar mais triunfante do que quando haviam 
entrado nele. Enquanto desciam pela passarela central, Selena procurou seus familiares e fez um aceno para o Tyler. Em seguida lhe jogou um beijinho.
      Assim que eles saram para o corredor, algum soltou um grande nmero de bales. No dava para saber quem os havia soltado, mas isso no importava muito. Todos 
os formandos estavam gritando, abraando uns aos outros e batendo nos bales que se achavam no ar. Muitos tambm atiravam o capelo para o alto. Algum apareceu com 
um frasco de purpurina, e da a pouco Selena estava com o cabelo cheio de pontinhos brilhantes. Ela ria tanto que sua sensao era de que ia perder o flego. Viu 
que Ronny tirou o capelo e colocou na cabea o velho bon, no qual estava preso seu longo rabo-de-cavalo. Depois recolocou o capelo por cima do bon. Tyler, Jennifer 
e Lara, amigos dos dois, aproximaram-se, e esta ltima prendeu um brinco de presso na ponta do nariz de Ronny.
      Os parentes e demais convidados saram para o corredor, mas ningum mais conseguiria controlar a algazarra dos formandos. Os professores nem tentaram interromper 
as brincadeiras. Selena deduziu que era porque a turma havia se comportado muito bem durante a cerimnia. Agora, tudo encerrado, eles mereciam a liberdade de extravasar 
a alegria.
      O nico que tentou dizer algo em meio ao barulho geral foi o professor de educao fsica. Ficou pedindo aos alunos para sarem para o estacionamento, cada 
um com seus convidados.
      D. Sharon tirou vrios retratos de Selena e os amigos. A garota ficou satisfeita com isso, pois no queria parar com as brincadeiras para bater as fotos. Contudo 
sabia que iria querer aquelas fotografias para guard-las em seu lbum pelo resto da vida.
      Ronny estava fazendo muita baguna. Selena nunca o vira agir daquela maneira. Ele subiu num grande vaso de planta que havia na frente do prdio e ficou ali, 
fingindo que estava comandando a torcida, o rabo-de-cavalo esvoaando ao vento.
      Amy foi abrindo caminho por entre o povo e chegou perto das amigas. Deu um forte abrao em Vicki e Selena.
      - Puxa! A comemorao de vocs est bem mais animada do que a nossa! comentou ela, gritando por causa do barulho.
      Selena acenou, concordando, e respondeu, tambm aos berros:
      - Agora que eu precisava da minha cornetinha, no a trouxe!
      Amy soltou uma risada. As duas se lembravam da ocasio em que Selena usara o instrumento, cheia de boas intenes, pensando estar protegendo a amiga. No era 
uma lembrana das mais divertidas.
      Vicki enfiou o polegar e o indicador na boca e soltou um assobio agudo, o mais estridente que Selena j ouvira. Esta tapou os ouvidos com as mos e se virou 
para a amiga que, normalmente, era bem mais comportada.
      - Onde voc aprendeu isso?
      - Meu pai me ensinou. Olhe aqui.  assim. Tente fazer.
      Amy e Selena ficaram tentando assobiar, enquanto Vicki procurava melhorar sua "tcnica". Ronny continuava com os gestos de chefe de torcida. Muitos dos pais 
presentes tentavam fazer com que os filhos se acalmassem e pegassem seus objetos para irem embora. Provavelmente estavam ansiosos para ir para casa, festejar o acontecimento 
com um jantar em famlia, num ambiente mais tranquilo. Os familiares de Selena, porm, permaneceram de lado, deixando que ela "curtisse" as alegrias da formatura 
com os amigos.
      O pai de Vicki fez um aceno para a filha. A garota parou de assobiar e deu outro abrao em Selena.
      - Vou pra sua casa assim que der, disse. Mas no precisa guardar nada pra mim, no.
      Selena fez que sim. De repente lembrou-se de que Paul j deveria estar na cidade. Poderia estar no aeroporto, ou ento e dirigindo para a casa dela. No pusera 
o relgio no brao, mas sabia que j estava ficando tarde.
      - Vou pra casa, pra comear a preparar tudo, disse para Amy.
      - Ento vou buscar a lagosta e o resto, replicou a colega. Que tipo de roupa voc vai vestir? Ser que este vestido aqui est muito "social"? Acha que devo 
dar uma chegadinha em casa e trocar por um mais simples?
      Selena deu uma espiada na amiga. Ela pusera um vestido preto, curto e sem manga. Era uma roupa "social", mas estava linda nela.
      - Eu ainda no sei o que vou vestir, respondeu. Ah, vou com esse mesmo. Depois, se voc achar que deve troca pode por um meu.
      Amy acenou concordando e saiu em direo ao seu carro. Selena fez um gesto para o Ronny, avisando que j estava indo embora, e foi para junto de sua famlia. 
No tinha muita certeza de que ele a vira despedir-se, pois o rapaz continuava com as brincadeiras. Selena saiu, abanando a cabea. Desde que Ronny recebera a carta 
da Rancho Corona dizendo que o aceitavam como aluno, ele parecia estar passando por uma mudana de personalidade. Ento ela comeou a se indagar se ele seria como 
outros de que ela j ouvira falar. Eram jovens que saam de casa para estudar, ficavam livres da autoridade paterna, e passavam a ter um comportamento meio desenfreado. 
Na verdade, Selena no achava que os pais do rapaz eram excessivamente rigorosos, mas talvez fossem.
      Selena deu o brao a V May e foi caminhando em direo  van da famlia. Notou que muitos dos carros parados no estacionamento estavam enfeitados. Vrios 
alunos haviam escrito palavras de congratulaes nas vidraas do prprio carro e nas do veculo dos colegas. Selena estivera envolvida com tantas atividades nos 
ltimos dias que nem se lembrava de botar uns enfeites em seu carrinho.
      - Que barulhada! disse V May. Que coisa horrvel!
      - Ah, mas  muito divertido, v, replicou Selena. Imagine s, V May, agora sou formada!
      A senhora olhou para a neta com uma expresso interrogativa, como se no soubesse ao certo quem era a garota e do que ela estava falando. Vendo aquele olhar 
vago da av, Selena segurou o brao dela com mais firmeza e conduziu-a ao banco da frente do carro.
      - Acho que esse festejo todo foi demais pra V May, disse para sua me.
      Sharon Jensen acenou concordando, e todos se acomodaram no veculo.
      Chegando em casa, Selena procurou ver se havia algum carro diferente estacionado em frente dela, mas no havia. Pelo visto, Paul ainda no tinha chegado. Sua 
vontade era de correr para dentro e trocar de roupa, mas a me quis tirar mais algumas fotos. Queria gastar o filme todo fotografando a famlia. E ela levou apenas 
uns dez minutos para terminar. Para Selena, porm, qualquer minuto parecia uma hora. Ficava de olho em todo carro que passava na rua. Contudo nenhum deles parou 
 porta da famlia Jensen.
      Cody e Katrina abraaram a todos, despediram-se e foram embora. Imediatamente Selena subiu para o quarto correndo. Eram exatamente 4:30h da tarde. Paul j 
se encontrava em Portland. Ser que ainda estaria no setor de recolhimento da bagagem? Parou em frente ao espelho e sorriu para sua imagem ali refletida. Um ano 
e meio antes, na ocasio em que ela e Paul haviam se conhecido, houve um momento em que ele e ela pegaram a mesma mala, na esteira rolante.
      Quase no se aguentava mais de ansiedade. Imaginou o Tio Mac pegando o rapaz no aeroporto e trazendo-o para sua casa.
      No tinha a mnima idia do que iria vestir. Ouviu a campainha da porta tocando e compreendeu que tinha de se apressar e resolver logo. O vestido que usara 
para a formatura, sob a beca, era um pouco social. Era at parecido com o de Amy. E no havia nada de estranho nisso. Ela e a colega tinham o mesmo gosto para roupas. 
Mas ser que no ficaria esquisito as duas com o mesmo tipo de vestimenta naquele jantar? Selena no se lembrava mais de como era o vestido que Vicki estava usando 
na formatura.
      A campainha da porta tocou de novo, e a garota resolveu que no iria ficar ali parada, decidindo se trocava de roupa ou no. Afinal, nessa tarde era a anfitri 
da festa e tinha um convidado muito importante chegando a qualquer momento. Ento s deu uma rpida entrada no banheiro e retocou a maquiagem. Em seguida, desceu 
a escada correndo, toda alegre, para estar com os familiares e amigos.
      J embaixo, ouviu uma conversa animada que vinha da varanda da frente. Olhou pela porta entreaberta e avistou Ronny de costas, com o bon e o rabo-de-cavalo. 
Tnia e Jeremy tambm estavam no crculo que se formara  porta da entrada. Viu tambm sua me e os dois irmos menores. Amy se achava em p na escadinha. Todos 
pareciam olhar algo no cho.
      - O que foi, pessoal? indagou a garota, abrindo a porta e aproximando-se do grupo.
      Tnia e Jeremy deram um passo de lado para que ela pudesse ver tambm. Era a ltima coisa que ela esperava.
      

      
Captulo Dez
      
      - U! Elas esto vivas! exclamou Selena, olhando para Amy, como que pedindo uma explicao.
      - Pois , replicou a outra.
      A garota voltou a olhar para o balde imenso, cheio de lagostas avermelhadas, que se remexiam tentando subir pelas paredes lisas da vasilha.
      - Voc no avisou que ns as receberamos vivas.
      - Eu no sabia. Meu tio s disse que nos cederia as lagostas e que as passaria pelo preo de custo. Achei que iria entreg-las j cozidas.
      - E como  que se cozinha isso? indagou Selena.
      -  muito fcil, disse Wesley, chegando com outro balde cheio.  s colocar em gua fervente. Voc nunca viu como eles fazem isso no litoral? Colocam o bicho 
em imensas tinas.
      - , interveio Jeremy. Assim, pelo menos, a dente sabe que  carne fresca.
      Tnia deu um tapinha no brao dele, de brincadeira.
      - Quantas voc trouxe? perguntou Selena.
      - Dezesseis.
      - Podemos pegar duas a? quis saber Dilton. A eu e o Kevin vamos ficar com uma cada um e fazer uma corrida de lagostas.
      - Legal! exclamou Ronny. Tambm vou entrar nessa!
      - Parem com isso, caras! disse Selena. No! Vocs no vo brincar com nosso jantar, no!
      - Acho que no vou participar, no, falou Amy. Quero dizer, no vou conseguir comer, no. Elas estavam olhando pra mim o tempo todo, quando estava vindo pra 
c.
      Wesley deu uma risada. Durante as frias, ele havia trabalhado no restaurante DeGrassi como garom, e no tinha a menor piedade nem no que dizia respeito a 
carne de caa.
      - Voc j comeu lagosta no restaurante; eu vi, comentou ele.
      - , eu sei, replicou Amy. Mas no vi a lagosta viva abetes.
      A todo mundo caiu na gargalhada.
      - Como  o nome desta aqui? indagou Ronny, pegando uma bem rechonchuda e aproximando-a de Amy.
      A garota deu um passo para trs, como que receando que o bichinho a beliscasse com suas garras. Na verdade, as patinhas estavam amarradas.
      - Esta aqui se chama Rosy, disse Kevin, pegando outra.
      - Onde voc arranjou esse nome? indagou Tnia.
      - Sei l, replicou o garoto.
      Nesse momento, um carro parou junto a entrada da casa. Com o corao batendo forte, Selena se afastou um pouco do crculo para ver quem era. Se fosse Paul, 
sua chegada seria muito diferente de tudo que ela sonhara. Ela imaginara diversas situaes, mas em nenhuma delas pensara receber o rapaz cercada por uma poro 
de gente, diante de dois baldes cheios de lagostas vivas.
      No era Paul. Eram Tre e Margaret. E logo atrs deles vinha Drake, acompanhado de Cassie, Jennifer e Lara. O rapaz fez um aceno para Selena e esta tambm abanou 
a mo para ele.
      - S vim trazer estas meninas, explicou ele. Eu e a Cassie vamos a uma festinha na casa dela. Mais tarde, talvez, a gente passe aqui.
      - 'T bom, replicou Selena, que parara na beirada da varanda. Espero que venham mesmo. Oi, Cassie! Ento, divirtam-se!
      A garota sentada ao lado de Drake tambm lhe fez um aceno. A essa altura os outros j estavam subindo a escadinha e "travando conhecimento" com as lagostas 
do jantar.
      - Ser que cada um pode escolher a sua e fazer uma marquinha nela? indagou Lara. Aquela ali parece muito saborosa!
      - Vou l no poro ver se temos uma panela bem grande, disse a me de Selena. Wesley, leve essas lagostas para a cozinha. Est muito quente aqui. E acho que 
precisa colocar mais gua nesses baldes.
      Outro carro se aproximou, e Selena olhou para a direo dele com muita expectativa. Era Warner.
      U! Achei que ele tinha dito que no viria! pensou meio chateada.
      Entrou em casa logo atrs de sua me, com receio de que seus pensamentos acerca do colega se manifestassem em seu semblante.
      - Algum verificou se h algum recado na secretria eletrnica? indagou. Ser que o vo de Paul no est atrasado, ou aconteceu algum outro imprevisto?
      - Acho que ningum verificou, no, disse a me. Seu pai estava l fora, arrumando a rede de vlei, caso vocs queiram jogar depois.
      - De vestido, me?
      Selena estava comeando a achar que a festinha parecia estar perdendo a graa muito depressa.
      - Mais tarde, filha, insistiu a me, descendo a escada para ir ao poro. Se resolverem trocar de roupa. Vocs decidem.
      Wesley chegou com um balde de lagostas. As bichinhas, parecendo muito assustadas, ficavam arranhando a parede do balde, como se querendo sair. Aquele rudo 
lembrou a Selena o som de algum passando a unha no quadro-negro. De repente perdeu a vontade de comer.
      - Ainda temos de pegar o po l no carro, disse Amy, trazendo uma vasilha com uma salada j preparada. Voc pode ir l, Selena?
      - Eu ia verificar... principiou ela, mas percebeu um pedido silencioso no rosto da amiga.
      A secretria eletrnica poderia ficar para depois. Alm disso, era possvel que Paul chegasse no momento em que ela fosse ao carro.
      - Vou, replicou. Mais alguma coisa?
      - Bom, no quero dar uma de antiptica, nem nada disso, mas seus irmos vo ficar a durante a festa?
      Nesse momento, Amy olhou para Selena e, pela primeira vez, notou que as duas estavam com roupas parecidas. Logo estampou no rosto uma expresso de frustrao.
      - Ah, falou Selena em tom de brincadeira. Quer que eu pea ao Wesley para se mandar?
      - No! replicou Amy prontamente, mas, em seguida, percebendo que se revelara, ficou um pouco nervosa. Estava me referindo ao Kevin e ao Dilton, e voc sabe 
muito bem disso.
      Nesse instante, a me de Selena voltou do poro trazendo uma imensa panela.
      - No precisa se preocupar, no, Amy, disse D. Sharon. A festa  de vocs. Assim que eu tiver certeza de que est tudo encaminhado para o jantar, vou sair 
com eles.
      A garota ficou um pouco sem graa.
      - Obrigada. Acho que j est tudo mais ou menos no jeito.
      Wesley chegou com o outro balde de lagostas, e Selena saiu para buscar o po no carro. Gostaria de saber quanto tempo Paul levaria para desembarcar e sair 
do aeroporto. Quando ela voltara da Inglaterra, o avio tinha pousado em So Francisco. Fora ali que ela passara pela alfndega. Nesse momento, lembrou-se de que 
Jeremy dissera que o vo de Paul vinha de Londres para Seattle. Dali ele pegaria outro vo para Portland. Se o primeiro vo tivesse se atrasado, ele poderia ter 
perdido o segundo.
      Esforou-se para no se preocupar. Ainda tinham muito o que fazer para o jantar. Talvez fosse at bom mesmo que Paul no tivesse chegado. Pegou os pacotes 
de po - eram quatro - e foi para a cozinha.
      Todo mundo estava ajudando. Tnia tinha posto um avental e estava querendo convencer o Jeremy a por um tambm. O rapaz no concordava de jeito nenhum. Ronny 
punha gua na panela grande. Wesley limpava o cho.  que fora pr mais gua nos baldes das lagostas e derramara um bocado por ali. Amy estava orientando Warner 
sobre a preparao dos pratos de salada. Margaret tambm ajudava, tirando a salada da vasilha grande e colocando em travessas. Tre colocava manteiga em pratinhos 
pequenos, que a Amy trouxera mais cedo, junto com a bandeja de frios.
      Selena parou uns instantes e ficou a observar a turma trabalhando de forma to organizada. Como ser que Amy conseguira isso? Tinha de reconhecer que nunca 
seria capaz de fazer tanta gente trabalhar junta, de maneira to tranquila. 
      - Aqui o po, Amy. Onde vamos coloc-lo?
      - A sua me teria umas duas ou trs cestas prprias par nos emprestar?
      A garota foi pegar as cestas. A me e os irmos pequenos j no estavam mais por ali. Achou melhor ento no ir procur-la. Ela mesma poderia achar os objetos.
      Afinal foi Tnia que se lembrou de onde a me as guardava. D. Sharon havia mudado de lugar alguns dos utenslios da cozinha, aps o princpio de incndio que 
ocorrera ali, no Dia de Ao de Graas. Selena forrou as cestas com guardanapos de linho que pertenciam a V May e, em seguida, arrumou o po dentro delas. Depois 
foi para a sala de jantar ajudar a irm, que estava pondo a mesa, usando o jogo de porcelana da famlia.
      - Quantos so, afinal? indagou Tnia.
      - No sei ao certo.
      Nesse exato momento, a campainha tocou. Selena sentiu o corao quase parar. As duas se entreolharam com expresso significativa. Tnia fez um movimento de 
cabea, dando a entender a irm que fosse atender.
      - Tem algum batendo, gritou Warner da cozinha. Quer que eu v ver quem ?
      - Pode deixar. A Selena vai, replicou Tnia tambm gritando.
      Em passos leves, a garota se dirigiu  porta. O corao batia fortemente, retumbando em seus ouvidos. Ps a mo na maaneta e parou um pouco. Molhou os lbios 
que, de repente, tinham ficado muito secos, e pigarreou. Deu um belo sorriso, abriu a porta e disse:
      - Oi!
      Era um garoto magricela, parado no capacho de entrada, com um bloquinho na mo. Na frente da casa, estava uma bicicleta, "deitada" de lado. Evidentemente, 
Selena deve ter estampado no rosto uma expresso de desalento, pois o rapazinho, que estava sorrindo, logo ficou srio.
      - Vim recolher o auxlio para os entregadores de jornal! avisou num tom de voz de quem pedia desculpas.
      - D pra voc voltar amanh? disse a garota, tentando sorrir e falar com jeito mais agradvel. Hoje no tem ningum aqui que possa pagar.
      O garoto fez que sim e saiu apressado. Montou na bicicleta e se foi rapidamente, mais parecendo um bandido fugindo da polcia. Selena deu uma espiada na rua, 
para ver se vinha algum carro. No vinha nenhum. Fechou a porta e virou-se.
      Todos os seus colegas caram na risada. Eles tinham se ajuntado ali, formando um aglomerado semelhante a uma pirmide, na expectativa de ver o encontro dela 
com Paul.
      - Era o entregador do jornal! disse Amy com uma risadinha.
      - Uuuu! fez Ronny. Viram a expresso do coitado do garoto? Ele saiu correndo assustadssimo!
      - Muito engraado! exclamou Selena em tom irnico, mas sem poder conter um sorriso.
      Nesse momento, avistou a mquina fotogrfica a um canto da sala e disse:
      - Espere a, gente! Fiquem parados!
      Pegou a cmera, focalizou rapidamente e bateu uma foto do pessoal todo aglomerado  porta da sala. Pareciam ser um corpo s, com oito cabeas.
      - Esperem. Vou bater outra, procurando agir depressa antes que a pirmide desabasse. 'Guenta a! Sorriam!
      Quando ela j ia apertar o disparador, avistou uma coisa com o canto do olho. Algo se movia no cho, vindo da cozinha. Ficou segurando a mquina, mas deu uma 
olhada para o objeto. Era uma lagosta que escapara de um dos baldes e se dirigia para a porta da frente. Teve vontade de soltar um grito, mas resolveu fazer uma 
brincadeira com o pessoal, como que para ir  forra.
      - 'Pera a, turma! Estou focalizando bem! disse ela, procurando ganhar tempo.
      - Depressa! Estou caindo!
      - Minha perna est com cibra.
      - Tem algum enfiando um cotovelo em meu ouvido!
      - Bate logo!
      Com um olho na lagosta e outro no pessoal, ela comeou a contar devagar, falando baixo.
      - Trs, dois, um...
      Nesse exato momento, a fujona passou ao lado da pirmide humana e todos a viram ao mesmo tempo. Gritaria e agitao geral! Foi a que Selena bateu a foto.
      Wesley deu um mergulho de goleiro e pegou o bicho. Toda a pirmide desabou. Selena caiu na gargalhada e tirou outro retrato. O telefone tocou, e ela saiu correndo 
para atender, mas seu pai j pegara o fone. Ele estava na cozinha, o que fez a garota pensar que a lagosta fujona talvez tivesse recebido ajuda para escapar do balde.
      - , disse ele, aqui  Harold Jensen.
      Selena correu os olhos pela cozinha, para ver o que mais precisava ser feito, isto , alm de cozinhar a lagosta.
      - Ah ? E como voc est? Oh!
      Percebendo que parecia que no havia mais nada para fazer, a garota voltou para a sala, para guardar a mquina fotogrfica e ver se tinham conseguido pegar 
a lagosta fujona. O grupo todo estava rindo s gargalhadas, pois Wesley fazia de conta que estava lutando com o bichinho.
      - Essa a eu no quero comer, comentou Selena.
      - Vamos colocar uma marca nela, sugeriu Tnia, para que ela seja do Wesley.
      A jovem se afastara um pouco do resto do pessoal. Ela no achava muita graa nessas brincadeiras barulhentas.
      - Tnia! Selena! gritou o Sr. Harold da cozinha. Venham aqui um momento!
      As duas irms se entreolharam. Ambas haviam notado um tom diferente na voz dele. Selena logo se dirigiu para l, seguida de Tnia. O pai estava pendurando 
o fone no gancho. Tinha no rosto uma expresso muito estranha.
      - O que foi? indagou Selena. Aconteceu algo com Paul?
      - Tnia, chame o Jeremy aqui, disse o pai. Quero conversar com os trs.
      A jovem ia se virar, mas o rapaz j estava entrando ali. O resto do pessoal ainda estava l na sala, rindo e se divertindo, Na cozinha, havia um silncio profundo, 
quebrado apenas pelo rudo da gua que fervia no panelo.
      - Era o seu tio Mac, disse o Sr. Harold, olhando para o Jeremy.
      Selena teve a sensao de uma mo gelada penetrando em sua garganta, tentando arrancar-lhe o corao. Pelo jeito como o pai estava falando e pela expresso 
dele, dava para perceber que acontecera algo errado, algo muito srio. Aguardando que ele conclusse, a garota sentiu como se sua vida tivesse dado uma freada brusca. 
Ele fechou os olhos e continuou:
      - Houve um acidente de avio!
      

      
Captulo Onze
      
      - Como? Onde? Quando? Como foi que o senhor soube? indagou a garota, com a cabea a mil.
      E ficou fazendo mais perguntas, enquanto os outros permaneciam em silncio. O pai abriu os olhos. Estavam molhados de lgrimas. Foi ento que Selena sentiu 
o pnico domin-la.
      - O avio de Paul, que partiu de Heathrow, teve um acidente, quando aterrissava em Seattle, explicou o Sr. Harold, Foi agora s 3:00h da tarde. Ao que parece, 
ele conseguiu descer na pista direitinho, mas houve um incndio. At o momento no encontraram nenhum sobrevivente.
      Selena perdeu as foras. Foi se abaixando e se sentou no cho. Tnia e Jeremy se abraaram, encostando-se  parede,
      - E meus pais? indagou o rapaz.
      - Mac est tentando ligar para eles.
      - Vou para Seattle, decidiu Jeremy de repente, virando-se para pegar o telefone. Vou ver se o Tio Mac quer ir comigo.
      Ele discou o nmero, e Selena ps as mos no rosto. No chorava; apenas sentia uma dor aguda no peito. Era a dor mais insuportvel que j tivera na vida.
      Os convidados, que no estavam sabendo do acontecido, foram entrando na cozinha. O Sr. Harold relatou a Wesley o que se passava, falando em voz baixa. Os outros 
tambm ouviram a notcia. Imediatamente todos ficaram em silncio. Ronny aproximou-se de Selena e se sentou no cho, ao lado dela, sem dizer nada. Jeremy colocou 
o fone no gancho e disse:
      - Meu tio vai comigo. Iremos de carro para Seattle.
      - Quer que eu v com voc? indagou Tnia.
      - Quero.
      Selena ergueu a cabea e olhou para eles.
      - A no ser que voc prefira ficar aqui com sua irm, continuou o rapaz.
      As duas se entreolharam, ambas com olhos avermelhados.
      - Vai com ele, disse Selena com voz rouca.
      Gostaria que eles a levassem tambm, que entendessem que ela queria ir. Mas sabia que estava querendo demais. Naquele momento, estava dando uma festinha para 
seus colegas. Alm disso, o que ela significava para o Paul?
      - Ei! Esto falando na televiso! disse Warner.
      O rapaz fora  sala de jantar e ligara o aparelho, sintonizando numa estao local. Aparentemente, esperava que todos o congratulassem pela boa idia.
      O Sr. Harold e Wesley foram para l, andando em passos lentos. Os outros os seguiram. Jeremy hesitou por uns instantes, mas de repente correu para o aposento, 
com Tnia logo atrs dele. S Selena e Ronny ficaram na cozinha. Os dois permaneciam calados. Ronny estendeu o brao e pegou a mo da garota. A ela se recordou 
de que ele havia segurado sua mo, algumas horas atrs, quando entravam no salo nobre do colgio, para iniciar a cerimnia de formatura. Naquele momento, sua vida 
era bem diferente do que estava agora.
      Algum aumentara o som da televiso, e dali conseguiam ouvir a notcia.
      "O vo 8079, procedente de Heathrow, em Londres, teve problemas com o trem de pouso quando ia descer em Seattle hoje, s 15:07h. Como se pode ver pelas imagens 
gravadas no momento do acidente, o pessoal do resgate comeou logo a evacuar o aparelho. Contudo, no instante em que o nariz do avio tocara a pista, tinha havido 
uma exploso. E em pouco tempo, parte dele foi destrudo. Fomos informados de que at o momento h 157 mortos, e apenas trs sobreviventes. Vamos continuar dando 
informaes sobre o acidente, assim que as recebermos.  com voc, Bob."
      Ronny apertou de leve a mo da amiga.
      - Trs sobreviventes! gritou ela se levantando e correndo para a sala de jantar.
      - H trs sobreviventes! repetiu Jeremy, ao ver Selena entrando no aposento.
      - Eu ouvi, disse ela.
      Silenciosamente, ela comeou a orar com todas as suas foras.
      Senhor, por favor, que o Paul seja um desses trs. Faz com que ele esteja bem, Senhor! No permita que ele morra, no, meu Deus!
      - Eles j disseram em que hospital esto os sobreviventes? indagou o Sr. Harold.
      Imediatamente Wesley foi pegar o telefone sem fio.
      - Vou procurar saber, disse.
      O pai de Selena pegou o controle remoto da mo de Warner e se ps a percorrer os canais. Outra estao estava dando a notcia, repetindo a imagem do avio 
acidentado, ainda em chamas, com a ponta do "nariz" no cho, e o pessoal do resgate correndo para ele. Antes, quando Selena estava sentada no cho da cozinha, ela 
s ouvira a descrio feita pelo locutor. Agora, vendo as imagens, compreendeu que tudo fora bem pior do que pensara. Uma densa fumaa negra escapava pelas laterais 
do aparelho, enquanto as sirenes soavam estridentemente.
      A campainha da porta tocou, e Selena saiu correndo, junto com Tnia e Jeremy, para atender. Era o Tio Mac. Impulsivamente, a garota correu para ele e lhe deu 
um abrao forte. Era como se estivesse lhe dando o abrao que quisera dar em Paul.
      - Disseram que h trs sobreviventes, falou Jeremy.
      -  mesmo? indagou o Tio Mac, entrando na sala.
      O Sr. Harold adiantou-se e o cumprimentou com um aperto de mo.
      - Wesley est tentando contactar o hospital, informou ele.
      - O senhor conseguiu falar com papai e mame? perguntou Jeremy.
      - No; todas as vezes, a ligao caa na secretria eletrnica, e eu no queria deixar recado, explicou o tio.
      - Esto no Hospital Emmanuel, disse Wesley, pondo o fone no gancho. No querem dar nenhuma informao por telefone. Mas se os parentes chegarem l, eles deixam 
entrar.
      Tnia e Jeremy se entreolharam apreensivos. Selena compreendeu que eles deveriam estar pensando: E se Paul no for um dos sobreviventes?
      - Eu j estou querendo ir, disse o Tio Mac. Quem mais vai?
      - Eu e a Tnia, replicou Jeremy. Acho melhor a gente levar uma maleta com algumas roupas, n?
      - Est certo, concordou a jovem. Selena, voc pode me ajudar a arrumar a mala?
      As duas irms subiram a escada, uma atrs da outra.
      - Mame ainda no sabe, lembrou Selena, sentindo-se meio tonta. Onde  que ela foi?
      - Foi levar os meninos pra ver um jogo de miniatura de golfe. Voc tem uma sacola de viagem pra me emprestar?
      - Tenho, respondeu ela, e foi pegar o objeto.
      As duas permaneceram uns instantes em silncio. Tnia colocou na sacola uma cala jeans, algumas peas de roupa de baixo e vrias camisetas, alis, muito bem 
dobradas.
      - Telefonem assim que chegarem l, o.k.?
      - Claro, prometeu Tnia.
      - Quero dizer, mesmo que tenha acontecido o pior, liguem logo pra mim e me contem.
      - Eu ligo.
      Inesperadamente, as lgrimas comearam a escorrer pelo rosto de Selena. Tnia abraou-a, apertando-a bem junto do peito. A garota sentiu vontade de falar de 
Paul.
      - Ele queria entrar para o servio cristo, Tnia, principiou. Havia acertado a vida com Deus, um tempo atrs.
      E aqui ela foi dominada por um choro convulsivo.
      - Ele vinha a Portland para... e no conseguiu falar mais. Soltou-se da irm e foi pegar a preciosa carta de Paul, que mantinha debaixo do travesseiro desde 
o dia em que ela chegara. Estendeu-a  irm para que a lesse.
      Tnia leu a primeira pgina e depois, lentamente, foi se sentando na beirada da cama.
      - Oh, Selena! murmurou ela.
      A jovem j estava na ltima pgina, lendo o poema, quando ouviram uma leve batida a porta. Em seguida, algum abriu-a devagar. Era Jeremy.
      - O Tio Mac j quer ir.
      Tnia estava em lgrimas e fez um gesto ao rapaz para que ele entrasse. Agora era ela que no conseguia falar. Estendeu a carta para o namorado.
      - Que  isso? indagou ele.
      Selena engoliu em seco e se esforou para falar.
      -  uma carta de Paul, disse. Pode ler, se quiser.
      O rapaz se ps a ler em voz alta, mas depois comeou a se emocionar e foi ficando sufocado.
      "Finalmente eu entrei por essa porta e estou achando pastagem, como diz o versculo", leu ele com um fio de voz.
      Jeremy largou o papel e limpou os olhos com as costas da mo.
      - Continue lendo, disse Tnia sussurrando.
      O rapaz terminou a leitura e ergueu os olhos cheios de lgrimas para Selena, que tambm tinha o rosto avermelhado. Eles se fitaram por uns instantes. Depois, 
Jeremy deu dois passos rpidos em direo  garota e a abraou. Os dois choraram juntos.
      - Voc no faz idia, disse ele ainda firmemente abraado a ela, de como suas oraes ajudaram meu irmo. E continue a orar. No pare. Enquanto houver um fio 
de esperana, continue a orar.
      - Vou continuar, disse ela.
      Ele a soltou, e Tnia aproximou-se deles. Mostrava-se bem controlada, mas via-se que estava abalada, mais at do que irm.
      - E vou ficar orando por vocs tambm, afirmou a garota, para que faam uma boa viagem at l.
      Carinhosamente, Tnia beijou a irm no rosto e disse algo que Selena jamais esperara ouvir dela.
      - Gosto muito de voc, Selena. Tenho muito amor por voc.
      - E eu tambm por voc, replicou a garota, dando-lhe um abrao.
      - , eu sei, disse a jovem, passando a mo de leve no cabelo da outra.
      Ouviram outra batida na porta, e o Sr. Harold entrou. Pigarreando, ele disse:
      - O Mac j quer ir.
      - J estamos indo, replicou Tnia, fechando o zper da bolsa de viagem.
      Jeremy pegou a maleta e sugeriu  namorada que trouxesse tambm uma almofada e um cobertor, caso ela resolvesse dormir no carro dessa vez.
      Selena foi com eles at o carro do Tio Mac e fez com que prometessem que ligariam para ela assim que chegassem a Seattle. Eram trs horas de viagem. Ela sabia 
que seriam as horas mais longas de sua vida. Ficaria o tempo todo esperando que o telefone tocasse.
      O pai abraou-a e os dois entraram em casa assim. Ela queria ficar a ss, mas tinha de dar ateno aos convidados. Sabia que poderia pedir-lhes que desistissem 
da festa, e que eles compreenderiam. No fundo, porm, no queria que fossem embora. Agora, mais do que nunca, precisava dos amigos a seu lado.
      Amy estava em p,  porta, esperando-os. Carinhosamente, ela pegou a mo de Selena e a apertou de leve.
      - Como  que voc est? indagou.
      - Sei l, replicou a garota.
      - Senta um pouquinho. Quer ficar a ss por algum tempo?
      Selena ficou surpresa ao ver o quanto a amiga a compreendia. Nesse momento, se deu conta de que Vicki ainda no chegara. Assim que ela chegasse, teriam de 
lhe contar o que acontecera. E o mesmo fariam para sua me, quando esta voltasse.
      - No, respondeu. No quero que vo embora, no.
      - Quer comer algo?
      - No sei.
      Wesley tambm se aproximou deles e se postou ao lado da irm.
      - Parece que acharam outro sobrevivente. Falaram agora h pouco na televiso. Quer entrar e assistir ao noticirio?
      - No sei, respondeu Selena.
      Ficou parada no meio do corredor. De repente se sentia exausta e meio sem rumo.
      - Venha aqui, disse o irmo, passando o brao em torno do ombro dela e conduzindo-a para o sof da sala. Acho que voc deve assistir ao noticirio. No momento, 
 o nico meio de informao que temos.
      Selena se deixou cair na poltrona, ao lado de Ronny, e ficou a olhar para a televiso. Todas as estaes estavam repetindo a cena horrvel do avio em chamas 
na pista. Numa delas, o reprter falou sobre ao terrorista. Em outra, entrevistaram um tcnico, que explicou que, recentemente, tinha havido uma greve nessa companhia 
area. Por causa disso, poderia ter ocorrido algum descuido de parte do pessoal da manuteno. Os reprteres da CNN estavam dizendo que era o pior desastre areo 
j acontecido no aeroporto de Seattle.
      - Amy, disse Wesley depois de alguns instantes, vamos, ns dois, dar um jeito de preparar a comida. Seja o que for, o certo  que temos de jantar. Vocs podem 
ficar aqui, gente. Eu e a Amy vamos arranjar tudo.
      Comer? pensou Selena. Acho que no consigo comer, no.
      Seu pai sentou-se  direita dela e a abraou, puxando-a para junto dele. A garota apoiou a cabea no brao dele. Sentiu o perfume do sabonete que ele usava, 
um verde, que tinha aroma tipo cheiro de mato. Lembrou-se de Paul, do cheirinho de pinho de sua loo aps barba. Ela o sentira quando se sentara ao lado dele, no 
vo de San Francisco para Portland. Ao recordar isso, veio-lhe aos olhos uma nova onda de lgrimas, que foram caindo no peito de seu pai.
      Os amigos ficaram e comeram a lagosta ao molho de manteiga, ali mesmo na sala, assistindo  televiso. Selena no conseguiu comer nada.
      - Acho que devemos orar, props Ronny, depois de j terem visto as cenas do acidente pelo menos umas quinze vezes.
      No havia mais notcias a respeito de sobreviventes e, de certo modo, eles estavam ficando cansados de ver os noticirios. J se passara bem mais de uma hora 
desde que tinham recebido a pavorosa notcia.
      - s vezes, continuou o rapaz,  muito bom pensar num verso da Bblia quando a gente ora, sabe? Isso nos ajuda a focalizar o pensamento em Deus e em suas promessas, 
em vez de ficar s com o problema na mente. Creio que assim a gente ora de forma mais direta.
      - Na ltima carta que o Paul me escreveu, interveio Selena, ele falou sobre Jesus como o Bom Pastor.
      - Isso est em Joo 10, disse Ronny.
      O Sr. Harold se levantou e voltou da a instantes com uma Bblia.
      - Mas esse texto  um captulo inteiro, e no um verso.
      - Pode ser um captulo inteiro mesmo, explicou Ronny.
      Selena se lembrou de que, no fim da carta, Paul citara tambm um texto de Filipenses. Dissera que ele o fazia recordar-se da atitude destemida dela. Tinha 
pegado a Bblia e olhado o versculo, mas agora no se recordava mais qual era ele.
      - Ele citou outro verso tambm, disse ela para o pai.  no captulo 1 de Filipenses, quase no fim. Acho que  o versculo 27.
      O Sr. Harold pigarreou e se ps a ler:
       "Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver- vos ou estando ausente, oua, no tocante a vos outros, que estais firmes 
em um s esprito, como uma s alma, lutando juntos pela f evanglica."
      - Puxa! exclamou Margaret. Foi esse verso que Paul escreveu pra voc? Parece que ele tinha um pressentimento, quando disse "indo ver-vos ou estando ausente".
      - No, interps Selena. No  esse, no.
      A semelhana entre aquele versculo da carta de Paulo aos filipenses e o que acontecera depois que recebera a carta de Paul MacKenzie lhe doeu fundo.
      A ela se lembrou do texto que ele citara. Ela j o tinha decorado uma vez, na classe da escola dominical. Recordara-se disso, no momento em que o rapaz dizia 
que o escrevera num pedao de papel e o pusera na carteira. Assim que lera aquele verso, no vira muito sentido nele. No entendia por que Paul o achava to importante. 
Agora, porm, quando iria cit-lo para o pai e os amigos, via nele um significado muito especial.
      - Lembrei o verso, disse.  Filipenses 1.21: "Para mim, o viver  Cristo, e o morrer  lucro".
      
      
      
Captulo Doze
      
      Os colegas de Selena tiveram certa dificuldade para orar, mas ela, no. E a garota no se preocupou em segurar as lgrimas nem controlar as emoes que a dominavam. 
Extravasou tudo junto com as palavras. E tambm no estava nem a para o que os outros pensassem dela. Aquela conversa era algo entre ela e Deus. Tentava encontrar 
algum sentido no fato de aquela trgica notcia ter chegado logo depois de saber que Paul assumira um compromisso srio com Deus.
      - Senhor, sei que os teus caminhos no so os nossos caminhos. E no entendo por que isso est acontecendo. O Senhor levou Paul? Ou ele ainda est vivo? Senhor, 
eu te suplico, se ele ainda estiver vivo, tem misericrdia dele! Ele quer te servir, Senhor.  s o que ele quer!
      Aqui ela parou, sentindo-se exausta. Ento Ronny comeou a orar, como que continuando por ela. Era como se ela estivesse muito fraca e cansada, e ele se pusesse 
a sustentar os braos dela, erguidos em orao.
      O rapaz intercedeu pelos pais de Paul, por Jeremy, Tnia e Tio Mac. Pediu a Deus pelos mdicos do hospital e pelas famlias dos que tinham morrido no acidente.
      Depois o Sr. Harold orou, e em seguida o Tre. O garoto orou com voz firme e calma. Ele se dispunha a aceitar o que tivesse acontecido, vendo-o como o melhor 
que poderia acontecer, pela perspectiva de Deus. Selena no tinha a mesma disposio. A seguir, foi a vez de Margaret, que agradeceu pelo fato de que Paul era crente 
e, portanto, se tivesse morrido, tinha ido para o cu. Todos iriam encontrar-se com ele l.
      Nesse momento, Amy saiu da sala.
      Eles oraram durante mais de meia hora. A idia do Ronny tinha sido muito boa. Enquanto oravam, todos ficaram com a mente mais voltada para a Palavra de Deus. 
Aps o ltimo "Amm", eles permaneceram alguns minutos sentados em silncio, olhando uns para os outros.
      - Selena, disse Margaret afinal, voc deve preparar-se para aceitar o pior, pois o pior, nesse caso, na verdade  o melhor. Quero dizer, se Paul morreu, neste 
momento, ele est com Deus. Ele est no cu. E ns  que teremos de ficar aqui e enfrentar as provaes desta vida, at que afinal tambm sejamos libertos dela, 
como ele foi.
      A garota teve vontade de responder bruscamente, rejeitando aquela soluo fcil da amiga. Queria dizer que no aceitava a morte de Paul assim com tanta facilidade. 
Felizmente, nesse instante, a campainha da porta tocou.
      - Deve ser a Vicki, disse Ronny.
      Como Selena no se mexeu, o rapaz se levantou para ir atender.
      - Conte pra ela, viu? pediu Selena. Acho que no vou conseguir dizer nada.
      Ele fez que sim. Todos o ouviram abrindo a porta. Imediatamente escutaram o som de uma cornetinha de festa e o barulho de uma "lngua de sogra" abrindo-se 
e fechando. Em seguida, veio a voz alegre de Vicki.
      - Olhe aqui! Eu trouxe uns chapus e essas cornetinhas, disse a garota. Vocs ainda no esto na sobremesa no, n?
      E novamente o som do instrumento.
      Selena escutou Ronny respondendo com voz abafada, e em seguida uma exclamao de Vicki. A garota entrou na sala correndo e olhou para Selena, para ter certeza 
de que aquilo no era uma piada de mau gosto. Assim que viu o rosto da amiga, sua expresso mudou.
      - No! exclamou ela, deixando-se cair ao cho e se sentando perto de Selena. Ouvi a notcia no rdio do carro, mas achei que no poderia ser o avio de Paul, 
j que ele estava vindo para Portland.
      Lgrimas comearam a escorrer pelo rosto de Vicki.
      - Oh, Selena! Que terrvel!
      - Ainda no sabemos com certeza, disse Selena.  possvel que ele seja um dos sobreviventes.
      Estava tentando consolar a colega, mas sentia que ela prpria no tinha muita esperana.
      - O Jeremy e a Tnia foram com o Tio Mac para Seattle, explicou o Ronny. Assim que eles chegarem l, vo telefonar.
      Selena sentiu muita sede e perguntou se mais algum queria gua. Ningum queria. Foi andando pesadamente at a cozinha, que dava a impresso de ter sido palco 
de um terremoto. Estava bagunada e cheirando a peixe. Na mesa, viam-se pratos de salada, que alguns no tinham comido, as cestas com os pes e uma travessa cheia 
de pedaos de lagosta. Sem saber bem por que, lembrou-se do milagre da multiplicao dos pes, que Jesus fez. Naquela ocasio, eram mais de cinco mil pessoas que 
haviam se alimentado com alguns pes e peixes que um garoto dera para o Senhor. E sobraram doze cestos cheios de alimento. Cada um dos discpulos poderia ter levado 
um cesto para casa.
      Pegou uma jarra de gua e derramou um pouco num copo, tentando achar uma ligao entre essa histria e o problema de Paul. Estava querendo muito que acontecesse 
um milagre nesse momento. Queria que Deus pegasse aquele pedacinho de f que ela possua, o abenoasse e o multiplicasse.
      Foi ento que se lembrou do versculo que Paul citara. "Portanto, para mim, o viver  Cristo, e o morrer  lucro." E se a vontade de Deus nisso tudo fosse 
que Paul j estivesse no cu e que acontecesse algo de bom por causa da morte dele?
      Essa possibilidade lhe pareceu tremendamente dolorosa. Deus no faria isso, ou faria? Selena debruou-se no balco e ocorreu- lhe que, mesmo que ele no tivesse 
morrido, nesse dia, 157 pessoas haviam perecido naquele desastre. Todas essas haviam passado para a eternidade. Aqueles que tivessem entregado a vida a Cristo, aceitando 
a salvao que Deus nos oferece por meio de Jesus, agora se achavam no cu. Os que no haviam feito essa deciso, nesse momento, se encontravam no inferno.
      A garota teve uma sensao de enjo.
       Deus, clamou ela "gritando" mentalmente, como  que o Senhor pode fazer isso? T nos divides em ovelhas e bodes, uns  direita, outros  esquerda. Sei muito 
bem o que a Bblia diz. Sei o que exiges de ns. Mas por que tudo isso? Ser que no poderia ser mais fcil?
      Assim que lhe veio esse pensamento, ela se deu conta de que, na verdade, buscar a Deus era a coisa mais fcil que algum poderia fazer. At uma criana pode 
compreender os pr-requisitos de Deus para se ter a vida eterna. Mesmo um pequenino tem condies de receb-la. Era apenas uma questo de decidir, de exercitar o 
livre-arbtrio que Deus concedeu a todos ns.
      Sua cabea estava latejando.
      - Por que  que as pessoas simplesmente no te buscam, Senhor? disse. Por que ser que elas fogem, se escondem e ficam com raiva de ti?
      Selena no se dera conta de que expressara aquele questionamento a Deus de forma audvel. A ela ouviu a voz de Amy, vinda de fora da porta da cozinha.
      - Porque somos muito teimosos, falou suavemente a amiga.
      Selena abriu a portinhola de tela e saiu. A noite estava fresca. Amy se sentara na escadinha dos fundos, e Brutus se achava deitado a seus ps. A garota coava 
o plo dele.
      - Eu no a vi a, disse Selena, sentando-se ao lado da colega e dando um tapinha de leve na cabea do co.  tudo to difcil, Amy, continuou. Quero dizer, 
eu sei no que creio. E tenho certeza de que est certo. Mas  to doloroso! Tanta gente morreu! O que eles fizeram pra merecer isso?
      - Todos ns merecemos morrer, replicou Amy. J esqueceu os versculos que decoramos o ano passado na aula de religio?
      Selena fitou a amiga com expresso de quem no se lembrava. Ento a outra disse:
      - "Pois todos pecaram e carecem da glria de Deus... Porque o salrio do pecado  a morte, mas o dom gratuito de Deus  a vida eterna em Cristo Jesus, nosso 
Senhor."
      - , eu sei, mas...
      Amy recitou outro texto.
      - "O Senhor...  longnimo para convosco, no querendo que nenhum perea, seno que todos cheguem ao arrependimento."
      Selena ficou sem resposta. Tambm conhecia aqueles versculos. Alis, ganhara 10 nessa prova; ela e Amy. Entretanto que sentido eles tinham nesse momento? 
A amiga sabia os textos de cor, mas o que eles significavam para ela?
      - Eu acho, principiou Amy, como que "lendo" o pensamento da outra, que o grande problema est na questo do arrependimento. Eu, por exemplo, no estava querendo 
concordar com Deus. No aceitava que estava errada em nada. Quando meus pais se separaram, a nica atitude que quis tomar foi ficar magoada. E no havia nada que 
pudesse amenizar meu sofrimento.
      Selena no estava conseguindo acompanhar bem o pensamento da amiga.
      - A, continuou a outra, resolvi buscar a soluo por mim mesma. Tentei fazer de tudo pra me sentir melhor. E quando eu estava com Nathan, at que aliviava 
um pouco. A verdade, porm,  que, quando a gente est numa escurido, s a luz interessa.
      Nesse momento, a portinhola se abriu.
      - Ah,  a que vocs esto!
      Era Vicki, que se aproximou e se sentou atrs das duas colegas.
      - No consigo crer que isso est acontecendo, Selena, disse ela. Voc acha mesmo que ele... voc sabe.
      - No sei. Margaret acha que sim. Ela disse que devemos nos alegrar de saber que ele est no cu e que vamos v-lo depois, replicou a garota com voz embargada.
      - Ela disse isso? indagou Vicki.
      - Voc no pensa assim? perguntou Amy.
      - Bom, claro, mas... respondeu ela, aproximando-se um pouco mais e passando o brao em torno do ombro de Selena. Essa no  a melhor hora pra se lembrar isso. 
Ou pelo menos no de dizer isso dessa maneira.
      - Pois eu penso assim, retrucou Amy, quer essa seja a hora mais adequada para diz-lo ou no.
      Selena e Vicki olharam para a colega, esperando que ela explicasse aquela repentina confisso de f.
      - Minha sensao, comeou ela, com lgrimas brotando nos olhos,  que, durante muito tempo, estive presa numa masmorra que existe dentro de mim mesma.  um 
lugar frio e escuro, e eu me sentia profundamente infeliz. Vocs nem podem imaginar quanto. E no encontrava a "chave" que poderia me libertar dali. No conseguia 
sair dessa masmorra.  por isso que eu gostava tanto dos nossos encontros s segundas-feiras, na Mother Bear. Era como se vocs duas tivessem chegado  priso para 
me visitar. Vocs me levavam um pouco de po e gua, bem como uma vela acesa, um pouco de luz. E com isso eu ia vivendo.
      Selena deu o brao  amiga e ficou segurando a mo dela, firme e calmamente, como Ronny segurara a sua. Vicki tambm ps o brao em torno do ombro de Amy.
      - Agora creio que encontrei a "chave" para sair. Tenho de voltar pra Deus. O tempo todo pensei que fora ele quem me prendera ali. Agora, porm, compreendi 
que fui eu que o prendi l fora. No sei explicar direito, mas quero Deus de volta em minha vida.
      - Ento diz isso pra ele, interps Selena, dando um leve aperto na mo da amiga.
      Amy inclinou a cabea, e as duas amigas continuaram a segur-la. Em seguida, sem chorar, ela se ps a falar, de forma simples e direta, como s ela era capaz 
de fazer.
      -  Deus, eu tenho andado muito errada. Eu te tirei da minha vida e agora estou muito arrependida de ter feito isso. Quero voltar. Por favor, perdoa-me e me 
aceita, 't bom?
      - 'T bom, disse Vicki com um sussurro, como se ela pudesse responder por Deus.
      Em seguida, as trs abriram os olhos e se entreolharam carinhosamente.
      - Gente, muito obrigada por no terem desistido de mim, falou Amy, em voz suave.
      Selena abraou-a.
      - O que foi que houve antes de eu chegar? indagou Vicki. O que aconteceu, Amy?
      - Como assim?
      Vicki virou-se para Selena.
      - Voc falou alguma coisa com ela? perguntou para a amiga.
      Selena abanou a cabea.
      - Ah, j sei. Voc no entendeu por que abri o corao para Deus, assim repentinamente, depois de ter ficado tanto tempo com ele fechado, n? disse Amy, remexendo-se 
um pouco e olhando para as duas. Foi por causa do noticirio e a possibilidade de que o Paul... voc sabe, esteja morto.
      Selena se sentiu dominada por uma forte onda de emoo.
      - E quando eles disseram l que havia apenas trs sobreviventes, de repente lembrei de algo. Lembrei que nos tambm somos trs. E eu queria ser um dos trs 
sobreviventes, no um dos 157.
      Nesse momento, elas ouviram a van da famlia Jensen chegando e parando na frente da casa. Sharon Jensen, V May e os garotos deram a volta ao redor da casa, 
para entrar pela porta dos fundos. Brutus logo se levantou e se ps a latir barulhentamente, para receb-los. A me mandou que os garotos pegassem o co e o levassem 
para a casinha dele, evitando assim que saltasse sobre a av.
      - Oh! Ol! disse ela, avistando as trs garotas sentadas na escadinha, em meio ao crepsculo. Dando um tempo na festinha?
      - Me... principiou Selena, e contou a me a respeito do acidente, explicando ainda que Jeremy e Tnia tinham ido para Seattle com o Tio Mac. V May parou 
ao p da escada e se ps a ouvi-la silenciosamente, tensa, apertando a bolsa que tinha nas mos.
      - Oh, no! exclamou D. Sharon com voz tensa, encostando-se ao corrimo.
      V May continuou parada e disse em voz calma:
      - Paul no pegou aquele avio, no.
      Todos se viraram para ela, aguardando que explicasse o que dissera.
      - Ele perdeu o avio e voltou para Saigon. E foi a que comeou o bombardeio.
      Selena logo entendeu que a av estava tendo uma de suas crises de volta ao passado. Estava se referindo ao seu filho Paul, que morrera na guerra do Vietn. 
Seu Tio Paul perdera o avio, e ao pensar nisso uma nova esperana comeou brotar em seu corao.
      - Quem sabe o Paul no estava no avio acidentado? disse ela toda empolgada, levantando-se. Quero dizer, eles tinham mudado o vo dele uma vez. Podem ter mudado 
de novo. Talvez ele no tenha vindo nesse avio!
      - Oh, Selena! exclamou a me dela, estendendo o brao para tentar consol-la.
      Contudo a garota j estava se levantando e entrando em casa.
      - Pai! gritou ela. Wesley!
      Os dois logo vieram ao encontro dela na cozinha.
      - Ser que a gente pode ligar pra companhia area e checar a lista de passageiros? E se o Paul no estava naquele vo?
      D. Sharon e as duas amigas tambm j tinham entrado. Selena percebeu que seus pais estavam se entreolhando. Pela expresso do rosto deles, compreendeu que 
achavam que essa filha sonhadora iria ter uma decepo. Wesley, porm, no hesitou nem um instante. Pegou o telefone e logo se ps a fazer ligaes at encontrar 
algum que pudesse dar-lhe uma informao.
      Agora o grupo todo j estava na cozinha, aguardando uma resposta. O rapaz conversava com o supervisor da companhia. Repetiu tudo pela quarta vez para o homem. 
A certa altura, levantou uma das mos, pedindo ao pessoal para ficar em silncio.
      - Pode repetir, por favor? No. No creio que ele teria se registrado com outro nome. Deve estar a com o nome de Paul MacKenzie. Pois no. Eu aguardo.
      Passaram-se alguns minutos de dolorosa espera.
      - Tem certeza? indagou Wesley ao telefone. 'T bom. Obrigado! Sim. Boa-noite!
      Ele desligou e olhou para a irm.
      - Ele disse que o Paul tinha feito reserva no vo, mas, de acordo com os registros dos computadores, no se apresentou para embarque.
      A turma toda soltou gritos de satisfao e alegria.
      - Ele no veio no avio! exclamou Selena quase gritando e correndo os olhos ao redor  procura de V May.
      Mas a velhinha, com a cabea j meio confusa, devia ter ido para o quarto. Nesse instante, Selena enxergou algo com grande clareza. O Paul da V May tinha 
perdido o avio e por isso morrera. O seu Paul, porm, escapara de morrer por ter perdido o avio.
      O telefone tocou, e Wesley pediu silncio ao grupo para poder atender.
      - , falou ele. Jeremy, escute-me, antes de dizer qualquer coisa. Tenho uma notcia pra voc. Ns ligamos para a companhia area, e eles nos informaram que 
o Paul no estava naquele vo. Ele tinha feito a reserva, mas pelo registro do computador, ele no compareceu. No havia nenhum assento marcado com o nome dele. 
Ele no pegou esse avio.
      Selena sentia o corao batendo fortemente. Queria ter pegado o telefone e ter dado a notcia para o Jeremy ela mesma.
      - , continuava o rapaz dizendo. Sei. Conseguiram falar com eles? Ah,  mesmo? O.k.! Bom, ento vocs vo voltar. Claro!
      Wesley estendeu o telefone para o pai.
      - A Tnia quer conversar com o senhor.
      - O que ele falou? indagou Selena, no instante em que o irmo soltou o fone. Ele no estava no hospital, n?
      Wesley fez que sim.
      - Tambm no est na lista das vtimas fatais. Jeremy ainda no conseguiu falar com os pais. Telefonou para uns amigos deles, e estes disseram que seus pais 
foram passar o final de semana na casa de campo. E l no tem telefone. Ento o Jeremy pediu a esses amigos que fossem l contar pra eles.
      - E o que eles vo contar?
      - Acho que vo dizer que o Paul est bem.
      - Ser que est? indagou Selena. Quero dizer, ele no veio no avio, mas tambm no chegou aqui.
      A garota deu uma olhada ao redor, sem saber por que s ela estava fazendo essa pergunta.
      - Ento, onde e que ele est?
      
      
      
Captulo Treze
      
      Antes que o pai desligasse, Wesley pegou o fone da mo dele e disse:
      - Jeremy, a Selena lembrou um ponto muito importante. Onde  que o Paul est?
      Por uns instantes, reinou profundo silncio. Selena mordeu o lbio inferior, tentando imaginar o que teria acontecido com o rapaz. Pelo que sabiam, ele poderia 
ter pegado outro avio e talvez at estivesse no aeroporto de Portland, esperando que seu tio Mac fosse busc-lo.
      - 'T bom, continuou Wesley, ento, se vocs souberem de algo, liguem pra ns, o.k.?
      Em seguida, ele exps aos outros um resumo do que Jeremy planejava fazer.
      - Ele vai telefonar pra av na Esccia, pra saber se Paul j saiu de l. Depois, vo voltar pra c e, no meio do caminho, ligaro pra ns pra saber se temos 
alguma notcia. Os amigos dos pais dele que iro  casa de campo de campo dos Mackenzie j tm o nmero do nosso telefone e vo telefonar pra c tambm.
      - Provavelmente ele 't "preso" no aeroporto de Londres, disse Vicki. Aposto que perdeu o avio e ainda est tentando arranjar outro. Ou talvez j esteja voando 
pra c e ir telefonar assim que chegar em Portland, ou em Seattle, ou no destino desse vo.
      S de ouvir as palavras "Seattle", "avio" e "vo", Selem sentiu um arrepio.
      - Selena, continuou Vicki, parece que voc ainda no se tranquilizou. Ainda 't aflita? O Paul no pegou o avio acidentado, no.
      - , eu sei.
      -  muita coisa pra se "digerir" em to pouco tempo, Vicki, interps Amy, defendendo a amiga. Eu tambm sou igual  Selena. S vou ficar tranquila quando souber 
onde Paul est e por que perdeu o avio.
      - Realmente,  muita coisa pra "digerir", concordou Selena, pegando o brao da colega e puxando-a para um lado.
      D. Sharon e Wesley tinham comeado a dar uma arrumao na cozinha, que se achava bastante bagunada. Os outros logo se puseram a ajud-los.
      - E a deciso que voc tomou, disse Selena para Amy, tambm foi tremenda. Fique sabendo que reconheo que foi um passo muito importante pra voc. Oh, Amy, 
estou to alegre!
      Tentou dar um sorriso, mas no conseguiu, e continuou:
      - Estou muito feliz de voc ter dito tudo aquilo que disse e de ter resolvido fazer aquela orao na minha presena e da Vicki. Fazia tanto tempo que eu orava 
por isso!
      - , eu sei, replicou Amy em voz suave. Muito obrigada, amiga!
      - E a? disse Warner, interrompendo a conversa particular das duas. Podemos comear a festa? Cad os negcios que a Vicki trouxe?
      Selena conseguiu ignorar a incmoda interferncia do colega e foi conversar com o pai.
      - Pai, ser que no deveramos ir para o aeroporto, caso o Paul chegue e no tenha dinheiro pra ligar para o tio?
      Deu um sorriso leve, ao se lembrar de que, quando haviam se conhecido no aeroporto de Londres, Paul estava sem moeda inglesa para telefonar. E agora era provvel 
que no tivesse dinheiro americano tambm.
      - Eu acho que ele d um jeito de ligar, sim, replicou o Sr. Harold. E h tambm a possibilidade de que ele ainda esteja em Londres. Se formos para o aeroporto, 
ficaremos l andando  toa, de um lado para outro.  melhor ficarmos aqui e nos mantermos em contato com o pessoal que ficou de telefonar para ns.
      A garota concordou, com um aceno de cabea, e foi saindo devagar, em direo  saleta. Entrou e fechou a porta. Foi sentar-se em sua poltrona predileta, para 
ficar pensando um pouco. O cmodo estava s escuras, mas ela no acendeu a luz. Se o fizesse, algum poderia perceber que ela estava ali e vir  sua procura. Queria 
ficar a ss por uns instantes.
      Tentou colocar os pensamentos em ordem, com base nas informaes que j possuam. Paul poderia estar em qualquer lugar. Ento, silenciosamente, fechou os olhos 
e orou em pensamento, apenas movendo os lbios. Orara por Amy durante vrios meses, e parecia que Deus atendera sua petio. A amiga voltara para o Senhor. Havia 
mais de um ano que orava pelo Paul, pedindo que ele buscasse a Deus de todo o corao. Algumas semanas atrs, ele fizera isso. Selena estava to acostumada a orar 
para que os amigos buscassem a Cristo que agora que eles estavam buscando, no sabia mais como deveria orar.
      Da cozinha, vinham os sons da festa. Ao que parecia, todos estavam aliviados. E afinal, era para estar havendo uma comemorao ali. Nesse momento, porm, Selena 
no estava com o menor desejo de festejar. Sabia que no teria vontade de tocar aquelas cornetinhas enquanto no tivesse conhecimento de onde Paul estava. Queria 
ter certeza de que ele se encontrava a salvo em algum lugar. Lembrou-se da figura de Jesus como o Bom Pastor, que o rapaz mencionara. Pela primeira vez na vida, 
comeava a compreender, embora de forma bem rudimentar, o que Deus deveria sentir por suas ovelhas perdidas; o desejo que certamente nutria de que elas voltassem 
para ele. Recordou a histria do pastor que deixou no aprisco as noventa e nove ovelhas que se achavam em segurana e saiu  procura de uma que se perdera. E ele 
no parou de procur-la enquanto no a encontrou e a trouxe de volta.
      - O Senhor trouxe a Amy de volta, sussurrou ela para o Bom Pastor. E trouxe o Paul tambm. Agora, por favor, traga o Paul pra mim. Ou melhor, traga-o de volta, 
a salvo, para seus familiares e amigos. Reconheo que no posso achar que tenho algum direito sobre ele. Ele  uma ovelha sua, Senhor. E eu tambm sou. Sei que o 
Senhor nos guiar nesses prximos anos e nos dirigir em tudo, quer estejamos juntos ou separados.
      Nesse instante, sentiu grande paz interior, algo que no experimentara durante as horas de pnico que haviam passado. Lembrou-se da orao que fizera antes, 
quando Ronny chamara o pessoal para orar. Naquela hora se sentira muito frustrada. Dissera que os caminhos de Deus no eram os caminhos dela e que estava achando 
muito difcil entender os atos dele. Agora, porm, tinha a sensao de que, na verdade, no precisava entender. S tinha de confiar.
      Deu um suspiro fundo, e foi ento que notou que seu lbio inferior estava um pouco inchado. Quantas vezes, ser, ela o tinha mordido nas ltimas horas? Um 
leve sorriso lhe veio ao rosto ao lembrar que estaria com pssima aparncia quando Paul chegasse. A boca estaria inchada, os olhos, vermelhos e empapuados. E dentro 
de mais algumas horas, sua pele provavelmente ficaria cheia de espinhas. Isso sempre acontecia quando ficava tensa e disparava a comer doces.
      Pensando em doce, teve vontade de comer algo.  hora do almoo, estivera muito nervosa, na expectativa da colao de grau, e no havia almoado. Depois, com 
o problema que acontecera, no tivera nimo de comer a lagosta, quando todos haviam jantado, assistindo  televiso. Nesse momento, ento, sentiu o apetite voltar.
      Levantou-se e saiu da saleta. Somente Amy e sua me estavam na cozinha, quando ali entrou. D. Sharon estava na pia, lavando vasilhas, e fitou-a com expresso 
de preocupao.
      - Como est se sentindo, filha? indagou.
      - Estou bem, me, replicou a garota. Alis, estou at com fome.
      - Bom sinal. O que est querendo comer?
      - Sei l. Vou arranjar qualquer coisa.
      Por sugesto de Amy, acabou fazendo um sanduche de lagosta. Pegou um dos pes que haviam trazido para o jantar, cortou-o ao meio e colocou dentro dele pedaos 
de carne de lagosta e tomates fatiados. Acabou achando o sanduche improvisado mais gostoso do que imaginara.
      Ficou sabendo que, enquanto se achava na saleta, Drake e Cassie haviam passado por l e levado a maioria dos seus convidados para outra festa. Mas no ficou 
chateada com isso. Sua "festinha" acabara no sendo um evento alegre, como tinha planejado. Agora, os nicos que estavam ali eram Amy, Vicki, Ronny e Wesley. Seus 
irmos mais novos j tinham ido dormir. Pouco depois, os pais tambm subiram, mas avisaram que ficariam acordados, esperando notcias.
      A certa altura, Vicki foi ao seu carro e voltou trazendo alguns exemplares do anurio da escola. Ento ficaram a recordar alguns fatos acontecidos no Colgio 
Royal e conversando a respeito deles, como se tivessem ocorrido dez anos atrs. Selena, pelo menos, tinha a sensao de que, nas ltimas cinco horas, tinha vivido 
uns dez anos. O telefone tocou e Wesley atendeu.
      - Ela 't bem aqui, disse ele e entregou o fone  irm.
      - Oi, Selena. disse uma voz grave.
      A garota sentiu o corao dar um salto, pensando que era Paul.
      -  o Drake.
      - Ah, disse ela meio desanimada, mas em seguida se corrigiu: Oh! Oi!
      - Margaret me contou o que aconteceu com o Paul. Queria saber como voc est.
      - Ah, obrigada, replicou ela, afastando-se um pouco do grupo.
      Todos estavam sentados no cho, olhando os livros. Vicki segurou a perna dela e, apenas com os lbios, perguntou:
      -  o Paul?
      Selena abanou a cabea e, cobrindo o bocal com uma das mos, disse:
      - No;  o Drake.
      - E a? Voc 't legal? indagou o rapaz. Margaret disse que voc estava muito abalada com o que aconteceu. Ouvi falar sobre o acidente. , acho que realmente 
voc deve ter ficado arrasada.
      - Fiquei mesmo, concordou ela. E o Paul ainda no entrou em contato conosco. Ento no sabemos onde ele est. A Tnia e o Jeremy foram pra Seattle, mas devem 
chegar de volta daqui a algumas horas. Tambm no sei se eles vo ter alguma notcia.
      - Bom, Selena, eu s liguei pra cumpriment-la de novo pela formatura. Espero que tudo termine bem entre voc e o Paul.
      - Obrigada, Drake. Fico muito agradecida.
      - Queria dizer ainda que gostei muito do que escreveu no meu anurio. Voc tambm sempre vai ter um lugar especial em minha vida. No estou planejando fazer 
nenhum passeio ou acampamento nestas frias; mas se estivesse, gostaria muito que voc participasse.
      - Aquele passeio foi timo, no foi?
      - Foi, repetiu o rapaz. Foi timo.
      Aqui houve uma pausa, mas logo em seguida Drake continuou:
      - Bom, eu, ah..., no sei se vou v-la nestas frias; de todo modo lhe desejo boas frias, e quem sabe a gente se encontra por a?
      - Acredito que sim, replicou a garota.
      No estava entendendo por que Drake, de repente, a estava tratando to bem. E parecia estar sendo sincero.
      - Ento, tudo de bom! E espero que o Paul esteja bem!
      - Obrigada, Drake!
      Ele desligou, e ela voltou para junto dos amigos.
      - O que ele tanto falava? quis saber Amy.
      Selena deu de ombros.
      - Queria me dizer que espera que o Paul esteja bem.
      O telefone tocou de novo, ainda na mo da garota. Ela teve um sobressalto e apertou o boto de ligar.
      - Al! disse.
      - Selena, sou eu, Tnia. Os pais j ligaram ou deram alguma notcia?
      - Ainda no.
      - Finalmente conseguimos falar com a av dele na Esccia. E no foi nada fcil. Ela disse que o Paul saiu de l tera-feira, pois ia fazer uma viagem de trem 
pelo pas, antes de ir embora.
      Selena passou essa notcia para Wesley e os outros, que estavam esperando ansiosamente para saber o que a outra dissera. Em seguida, voltou a falar com a irm.
      - Isso significa que ele pode estar em qualquer lugar.
      - Exatamente. E acho que o Jeremy agora est mais preocupado do que antes. Paul no costuma agir dessa forma; ele sempre d notcias.
      - Talvez ele tenha ligado para os pais, falou Selena, mas eles j tivessem ido pra casa de campo.
      - , pode ser, disse Tnia.
      Selena escutou a irm dizendo ao Jeremy e ao Tio Mac o que ela acabara de lhe falar. Em seguida, ouviu-a perguntar:
      - Jeremy, ser que algum tem a chave da casa dos seus pais, algum que poderia ir l e ligar a secretria eletrnica?
      A garota no conseguiu ouvir bem a resposta do rapaz, mas, ao fundo, escutou uma voz num alto-falante.
      - Onde  que vocs esto? indagou ela.
      - No aeroporto, explicou Tnia. Quando vocs disseram que Paul no tinha vindo naquele vo, o Jeremy achou melhor a gente vir pra c, caso ele tivesse vindo 
em outro. Faz mais ou menos uma hora que estamos verificando em todas as companhias areas, mas em nenhuma delas consta o nome dele.
      - Ento provavelmente ele ainda est em Londres, deduziu Selena.
      -  o que o Tio Mac acha tambm. Agora ele est tentando ligar para o aeroporto de Heathrow, para pedir que chamem o Paul pelo alto-falante, caso ele esteja 
l, tentando arranjar outro vo. Ah, espera a!
      Selena ouvia o som abafado das vozes deles e, em dado momento, escutou de novo um estridente alto-falante ao fundo. Afastou o fone do ouvido e explicou aos 
outros o que Tnia acabara de lhe comunicar.
      - Selena!
      - Oi, pode falar!
      - O Tio Mac no conseguiu nada l em Heathrow tambm.
      - E a? O que podemos deduzir disso?
      - Jeremy acha que o Paul nem chegou a ir ao aeroporto. Parece que ele desapareceu depois que saiu da casa da av na tera-feira. Ele pode estar em qualquer 
lugar.
      As palavras de Tnia foram como uma nuvem escura entrando no corao de Selena. Com a rapidez de um relmpago, a dor que sentira algumas horas antes voltou, 
apertando-lhe a garganta. Passou o telefone para Wesley e sentou-se numa poltrona. Pela primeira vez, desde que tudo aquilo comeara, ocorreu-lhe um doloroso pensamento. 
Talvez eu nunca mais veja o Paul MacKenzie nesta vida.
      
      
      
Captulo Quatorze
      
      Selena detestou os pensamentos que ficaram a lhe rondar a cabea durante a noite; alis, uma longa noite. Tentou desligar-se deles. Tentou arranjar explicaes 
para "responder" as inquietaes que sentia. Contudo nada adiantava. S sabia que Paul provavelmente no morrera. Achava-se apenas desaparecido. De certo modo, porm, 
esse fato era ainda mais aterrador.
      Por volta de 2:00h da manh, o Ronny foi embora para casa. Amy e Vicki ficaram. As trs garotas pegaram sacos de dormir e os puseram na sala. Vestiram camisetas 
e shorts leves e se deitaram ali. Ficaram a noite inteira esperando o telefone tocar.
      Pouco depois de 4:00h da manh, ele finalmente tocou. Selena levantou-se de um salto, para atender. Pegou o telefone sem fio e apertou o boto para ligar, 
mas nada aconteceu. A bateria acabara de novo.
      - Atendam o telefone, gente! gritou ela, correndo em direo a cozinha.
      Quando j tocava pela quinta vez, ela o atendeu. S ouviu um estalido e uns chiados. A secretaria eletrnica da famlia estava ajustada para se ligar automaticamente 
ao quinto toque da campainha. Correu  saleta para pegar o aparelho que se achava acoplado  mquina.
      - A1! disse, ouvindo a voz de seu pai na gravao. Espere um pouquinho!
      A voz que falava do outro lado tambm parecia uma gravao. A garota procurou escutar atentamente, para entender a mensagem.
      - A1! disse Wesley, atendendo na extenso do andar de cima.
      - Desligue a, Wesley, disse ela. Os telefones esto com problema.
      - O qu?
      Mais rudos.
      - Desligue!
      Infelizmente, a pessoa que estava do outro lado da linha deve ter pensado que Selena estava falando com ela, e desligou.
      - Selena! exclamou Wesley.
      Profundamente chateada, a garota desligou o fone da saleta e foi  cozinha para recolocar no gancho a extenso de l. O irmo veio descendo barulhentamente 
a escada, seguido do pai.
      - Quem era? indagou.
      - Os telefones esto com problema, explicou ela, tirando o cabelo do rosto. Se tocar de novo, acho que s um de ns deve atender. Eu creio que foi o Paul que 
ligou.
      Vicki e Amy apareceram na cozinha, vindo da sala. A segunda estava segurando o telefone sem fio.
      - Tem certeza? indagou o pai.
      Selena teve vontade de chorar.
      - No tenho mais certeza de nada, disse. Tentei pegar o fone antes de cair na secretria, mas... Antes de terminar a frase, veio-lhe  mente um pensamento 
bem claro.
      - A secretria!
      Virou-se e voltou correndo para a saleta. Todos os outros foram atrs dela.
      - Algum j ouviu as ltimas mensagens? perguntou ela, inclinando-se e apertando o boto de rebobinar.
      Ouviram o sinal eletrnico e em seguia uma gravao que dizia:
      "Chamada a cobrar do exterior. A pessoa que est ligando ..."
      Em seguida, ouviram um clique e logo aps a voz de Paul dizendo seu nome:
      "Paul MacKenzie."
      Seguiu-se uma pausa, em que a "telefonista eletrnica" esperava para saber se a resposta era positiva ou no. Como no houve resposta, a mquina automaticamente 
desligou.
      - No! exclamou Selena. Por que foi acontecer isso? Onde ser que ele est? Quando ser que ele fez esta ligao?
      A secretria soltou a mensagem seguinte e todo o grupo ficou em silncio para escutar. Era a mesma mensagem gravada, mas dessa vez Paul no disse seu nome. 
Citou alguns nmeros. E como, de novo, no houve resposta, a mquina desligou.
      - Ele est querendo lhe dar um recado qualquer com aqueles nmeros, disse Amy. Rode a fita novamente e vamos anotar os nmeros. A voc liga pra l, pra ver 
se ele est a nesse local.
      O Sr. Harold achou aquilo um pouco estranho, mas Selena concordou com a amiga. Paul entendera que o telefone no estava aceitando sua mensagem e, ento, resolveu 
usar os meios de que dispunha para se comunicar com eles. A garota logo imaginou que ele tentara ligar para os pais, mas essa chamada tambm cara na secretria. 
E no dia anterior,  tarde, o Tio Mac fora para o aeroporto esper-lo, e portanto ele tambm no conseguira falar com o tio.
      Selena rodou a gravao de novo, e seu irmo anotou os nmeros. Tentaram fazer a ligao, mas ouviram uma gravao dizendo que a companhia no poderia completar 
a conexo com o telefone desejado.
      - Provavelmente esse telefone  de Londres, opinou Selena. A gente no tem de discar outro nmero pra fazer um interurbano internacional? Eu sei que pra ligar 
pra Europa  preciso discar um certo nmero. Cada pas tem o seu nmero.
      - Vou ligar pra telefonista, disse Wesley.
      -  provvel que caia numa secretria eletrnica, interps Vicki.
      Contudo ela estava enganada. Foi uma pessoa mesmo que atendeu. Ento o rapaz se ps a conversar com ela, para tentar decifrar o mistrio. Com os algarismos 
que Wesley forneceu, a telefonista tentou sete reas da cidade. Nenhuma das sete deu certo. Tentaram mais uma, e dessa vez o rapaz olhou para a turma com expresso 
alegre.
      - Est chamando! disse. Acho que conseguimos um nmero.
      Ele ergueu uma das mos pedindo silncio.
      - Al! disse ele. ... O que foi que voc disse que  a? Lar Danbury? , bom. No sei se este  o nmero certo. O que foi? . Estou ligando dos Estados Unidos. 
Estou tentando entrar em contato com Paul MacKenzie. Por acaso ele est ai?
      Selena ficou de flego suspenso e mordeu o lbio.
      - Ah, 't. Eu entendo. Mas d pra voc verificar na lista pra mim, e ver se o nome dele consta dela? Ah, entendi. Sim.
      - O que foi? indagou Selena, puxando a manga da camisa do irmo.
      - Ah, ento ele saiu da hoje, e voc acha que ele no deve retornar mais, repetiu o rapaz. Sabe se ele estava pretendendo ir para o aeroporto? Ele disse se 
iria pegar o avio pra c ainda hoje?
      Houve um longo silncio; longo demais.
      - 'T. Compreendo. Obrigado. Tchau.
      - O que foi? perguntou a garota, antes mesmo que o irmo recolocasse o fone no gancho.
      - Esse Lar Danbury  uma espcie de abrigo pra moradores de rua, l em Londres. Paul se registrou nele ontem  noite e saiu hoje de manh. Ela disse que ele 
iria procurar um posto mdico, para dar uns pontos.
      - Pontos?
      Antes que Wesley pudesse dar outras informaes, Jeremy e Tnia chegaram, aparentando estar exaustos.
      - Paul est em Londres, disse Selena. Ele tentou ligar pra ns. O Tio Mac est l no carro?
      - No, ele s nos deixou aqui e foi embora. O que mais vocs esto sabendo?
      Wesley relatou tudo que j dissera e depois deu os demais detalhes que todos os outros j estavam esperando.
      - Ao que parece, Paul chegou nesse abrigo com uns cortes no rosto. Eles cuidaram dele. Deram-lhe comida e arranjaram-lhe uma cama. E hoje de manh o encaminharam 
para um posto mdico. A mulher com quem conversei lembrou-se dele. Mas falou como se ele fosse um andarilho mesmo.
      Selena comeou a ajuntar os pedaos do quebra-cabea.
      - Ele deve ter sido assaltado, raciocinou. O ladro tomou tudo dele e ainda bateu nele. Foi por isso que ele no pegou o avio ontem. E como est tentando 
ligar a cobrar, devem ter levado todo o dinheiro dele.
      Os outros a fitaram espantados, como se achassem que ela estava com uma imaginao muito frtil.
      - Faz sentido, disse Jeremy, o primeiro a se expressar. E devem ter tomado o passaporte dele tambm, j que ele ainda no partiu da Inglaterra.
      - Onde  que ele arranja um passaporte novo? quis saber Tnia.
      - Na Embaixada Americana, explicou Selena prontamente.
      Ela j fora a Europa duas vezes e sabia exatamente o que uma pessoa deveria fazer em caso de emergncia.
      - Vamos telefonar pra l e deixar um recado pra ele.
      Dessa vez foi Jeremy que ligou. O Sr. Harold virou-se para o fogo e comeou a fazer caf. Certamente, seria bem forte, do jeito que ele gostava. Selena e 
os outros puseram-se a esperar. Tnia foi se deitar no sof da sala, pedindo que a chamassem assim que tivessem alguma notcia concreta.
      Vinte minutos depois, Jeremy conseguiu contato. Falou com a embaixada e ficou sabendo que Paul estivera l algumas horas antes e preenchera os formulrios 
necessrios para requerer um passaporte. O funcionrio da embaixada no quis dar mais nenhuma informao. No confirmou se o passaporte fora roubado ou o que sucedera. 
Ainda no sabiam onde Paul estava, mas pelo menos j se tinha certeza de que estava bem.
      Selena teve a sensao de que finalmente poderia respirar mais aliviada. E de fato passou a suspirar profundamente. Sentiu o cheiro do caf forte do pai e 
teve vontade de tomar um pouco. Resolveu servir-se meia xcara, com muito leite e acar. Paul tambm estivera ansioso para tomar um bom caf. Agora que sabia que 
ele estava bem, poderia comear a comemorar, antes mesmo que ele chegasse.
      s 5:00h o telefone tocou de novo. Era o Tio Mac. Disse que recebera uma chamada a cobrar de Paul e que ele estava bem. Selena logo contou o que pensara a 
respeito do rapaz.
      - , Selena, voc d uma boa detetive! Foi mais ou menos isso mesmo! Ele saltou do nibus em Londres numa favela muito perigosa. Na noite anterior, tinha se 
hospedado numa pousada para jovens e depois iria pegar o nibus para o aeroporto. S que ele acabou entrando no nibus errado e, quando percebeu isso, resolveu descer 
imediatamente, para pegar outro. Foi ento que reparou que estava num setor muito perigoso da cidade. Pensou em tomar um txi, mas no havia nenhum por ali. Ento 
foi para o ponto do nibus, mas ficou ali mais de uma hora, e no passou nenhum. Pediu orientao a uma pessoa e resolveu ir andando a p. Foi a que cometeu um 
grave erro. Acabou chegando a um beco, onde foi assaltado. Ele disse que era como se os ladres j estivessem ali esperando-o.
      - E eles o machucaram? indagou a garota.
      - Machucaram. Bateram nele e o deixaram cado. Pegaram a mochila com tudo que tinha: passaporte, carteira dinheiro. Ele teve um corte no queixo. Hoje de manh 
foi a um posto mdico para fazer um curativo e levou acho que quatro pontos.
      - Oh! Que horrvel! exclamou ela.
      Os outros se aproximaram para esperar o relato. Ela fez um gesto indicando que iria contar tudo da a pouco.
      - Consegui mandar um dinheiro para ele, continuou Tio Mac. A pelo menos ele vai poder comer e comprar outro sapato. , levaram o sapato dele tambm. Ele est 
andando descalo.
      Selena no conseguia imaginar tudo que Paul passara. Mas agora pelo menos sabia que ele estava a salvo. E em breve estaria de volta.
      - Quanto tempo ainda vai demorar pra ele pegar o passaporte novo? quis saber ela.
      - Ele no disse. Hoje vai tentar ligar para os pais e ver como consegue comprar outra passagem para voltar. Eu lhe disse que eles estavam na casa de campo. 
Mas falei para ele continuar tentando ligar, pois eles j devem estar retornando para casa. Disse tambm que se at hoje  noite ele no conseguir contact-los, 
para ele me ligar que vou dar um jeito de lhe mandar a passagem.
      - E ele estava bem? indagou a garota. Quero dizer, ele estava se sentindo bem?
      - Ah, muito breve voc vai saber, replicou Tio Mac. Falei com ele para ligar para sua casa, para falar com voc e com o Jeremy, e cobrar no meu nmero. Acho 
at bom eu desligar, pois ele disse que iria esperar uns vinte minutos e depois telefonaria para vocs.
      Selena desligou e repassou as ltimas notcias para os outros. Imediatamente cada um deles teve uma reao.
      - Puxa, eles poderiam t-lo matado!
      - Que bom que ele est bem!
      - Andando descalo em Londres? Eu no queria uma coisa dessas!
      - Quando  que ele vai ligar?
      - A qualquer minuto, explicou Selena, olhando para o relgio do microondas.
      Ela voltou a bebericar seu caf superdoce, que j esfriara, e acabou concluindo que no o queria mais.
      Os primeiros raios de claridade estavam entrando na cozinha, dando quele grupo cansado uma sensao de conforto e esperana. O Sr. Harold decidiu preparar 
uns ovos mexidos, e Jeremy foi ajud-lo, fazendo algumas torradas. Amy se ps a retirar as vasilhas j lavadas da lava-louas, pois Wesley precisava pegar uns copos 
para servir um suco de laranja que preparara. Selena se sentou e ficou apenas a contemplar a cena, esperando que o telefone tocasse. Nesse instante, lembrou-se de 
que ningum dera a boa notcia para Tnia. Ento foi  sala e acordou a irm.
      - O Paul est bem, disse ela. Ele foi assaltado. Ainda est em Londres.
      A jovem ergueu-se um pouco, firmando-se num dos cotovelos, e entreabriu os olhos.
      - Foi assaltado?
      - Foi, mas ele est bem. Est tentando tirar outro passaporte e arranjar uma passagem de avio para voltar.
      - Que coisa horrvel!
      - Horrvel, nada! Isso  timo! Ele est vivo. E vai voltar pra c.
      - Ah, que bom! exclamou Tnia, voltando a deitar-se. Voc se importa se eu dormir de novo?
      - De jeito nenhum. No quer ir l pra cima?
      - No, eu s quero... e a voz dela foi morrendo, mostrando que j estava dormindo.
      Selena retornou  cozinha, procurando disfarar a frustrao que sentia pelo fato de o telefone no ter tocado mais. O pai estava comeando a servir os ovos 
mexidos para a turma. Ela pegou um pratinho e deixou que ele colocasse nele uma boa poro do alimento. A conversa generalizou-se entre os presentes. Todos se achavam 
muito cansados. Parecia que nenhum deles estava ansioso com a demora do telefonema de Paul, a no ser a garota. Ela no estava suportando mais aquele suspense. Queria 
tanto conversar com Paul e perguntar- lhe tanta coisa...
      Por volta de 7:10h o telefone finalmente tocou. A essa altura, Vicki e Amy j tinham ido embora. Wesley estava dormindo numa poltrona da sala. Jeremy "arriara" 
no cho mesmo. Os nicos que ainda estavam acordados eram Selena e o pai. O Sr. Harold tinha ido para o quintal fazer um servio l, aproveitando que a manh estava 
fresca. Selena resolveu dar uma arrumao na cozinha. Estava nervosa e com acmulo de energia. Ento esse exerccio era uma forma de queimar essas energias. Chegou 
inclusive a passar pano no cho.  que o lugar onde os baldes de lagostas tinham ficado estava meio pegajoso.
      Atendeu ao telefone, arfando um pouco.
      - Bom-dia! disse uma voz masculina. Desculpe-me por estar ligando to cedo. Aqui  o Pastor MacKenzie. Meu filho, o Jeremy, est a?
      - Est. Um momento, vou cham-lo.
      Selena se sentia a prpria empregada, segurando o rodo com o pano de cho, o cabelo enrolado e preso no alto da cabea. Ela esperara tanto e com tanta pacincia 
a ligao do Paul, e no fim era o pai dele quem estava ligando. E ele no linha a menor idia de quem era Selena nem da importncia que ela tinha na vida do filho 
dele.
      A garota acordou Jeremy.
      - Seu pai est no telefone, disse-lhe.  melhor voc atender na cozinha porque o sem fio no est funcionando bem.
      O rapaz levantou-se, sacudiu-se um pouco para acabar de acordar e esticou os braos para o alto, enquanto caminhava para a cozinha.
      - Pai, disse ele pegando o fone. , estou bem. Tem alguma notcia?
      Selena ficou bem quietinha, procurando passar despercebida, ouvindo Jeremy e o pai compararem o que um e outro sabiam sobre o Paul. Pelo que escutou, compreendeu 
que o rapaz j conseguira a passagem e poderia embarcar assim que recebesse o passaporte. Jeremy desligou e virou-se para ver se ela ainda estava por ali.
      A garota olhou para ele meio sem graa, como se ele a tivesse pegado ouvindo "atrs da porta". Estava passando um pano mido no balco pela dcima vez, e Jeremy 
aproximou-se. A expresso dele era de compaixo e compreenso. Ento ela entendeu que havia algum problema.
      - O que foi? indagou. Aconteceu algo? Paul est bem?
      Jeremy fez que sim.
      - Ele est bem, mas a passagem dele  para um vo direto de Londres a San Diego. Ele no vai poder passar em Portland.
      - Ah! exclamou ela, tentando mostrar resignao. Isso  compreensvel.
      - Sinto muito, Selena, disse o rapaz, colocando a mo sobre o ombro dela, num gesto fraternal. Sei o quanto voc estava na expectativa de v-lo!
      

      
Captulo Quinze
      
      Selena passou os trs dias que se seguiram envolta numa nuvem de tristeza. Volta e meia as palavras de Jeremy lhe vinham ao pensamento. Ficava o tempo todo 
esperando que o telefone tocasse e ela ouvisse a voz de Paul. Mas ele no ligou
      Como estava de frias, tinha muito tempo de sobra, pois tambm tirara uns dias de folga do trabalho.  que pretendia passear bastante com Paul nesses dias, 
preenchendo as horas com muitas aventuras interessantes. Contudo, como isso no acontecera, passava a maior parte do tempo fechada no quarto, pensando no que Jeremy 
dissera. No havia dvida de que o tom dele era de quem consolava algum, ao dizer:
      "Sei o quanto voc estava na expectativa de v-lo."
      Ser que ele estava dando a entender que eu estava mais na expectativa de ver o Paul do que ele de me ver? pensou. Jeremy leu a carta. Ele sabe quanto o irmo 
dele gosta de mim!
      De vez em quando, tentava se reanimar, pensando que o rapaz tivera muitos problemas nos ltimos dias. E assim que ele chegasse em casa, na certa telefonaria 
para ela. Estava querendo demais, ao desejar que ele telefonasse para ela, quando o coitado estava andando descalo pelas ruas de Londres, com quatro pontos no queixo. 
Ele tinha de fazer muita coisa, comprar os objetos de que precisava e resolver a questo da passagem.
      Mesmo assim, ser que seria to difcil ir a um telefone e discar atravs do nmero do tio dele para falar com ela? Bastariam dois minutos - era s o que ela 
queria. Com dois minutos, ele poderia dizer:
      "Estou bem. Foi uma pena no ter dado para eu ir v-la. Vou a Portland assim que puder."
      S demoraria uns dois minutos, e depois ela poderia tocar a vida em frente.
      Tnia e Jeremy tinham ido embora no domingo pela manh. A moa com quem ela dividia o apartamento ligara dizendo que haviam marcado um trabalho para ela na 
tera-feira. O que acontecera fora que o agente da jovem se esquecera de avis-la. Com isso, os dois tinham tido de viajar s pressas, ainda bem cansados e sem muito 
nimo para encarar dois dias na estrada. Selena teve pena da irm, ainda mais quando se lembrou de que ela no conseguia dormir no carro. E ela acabaria tendo de 
se revezar com Jeremy no volante, quando o plano anterior era que o Paul ajudasse a dirigir.
      Wesley regressara a Corvallis, onde estava fazendo um curso de frias e trabalhando num supermercado. Selena estava sentindo muita falta dele e de Tnia. No 
imaginara que iria ter tanta saudade deles. Nesse ltimo final de semana, tendo vivido tantas emoes fortes, os trs haviam aprofundado mais a comunho uns com 
os outros. Em parte, isso pode ter acontecido tambm pelo fato de Selena ter se formado. Agora, era "oficialmente" um dos "filhos mais velhos" da famlia Jensen. 
No pertencia mais ao grupo dos menores. Alm disso, os trs tinham estado ao lado de Jeremy, quando havia a possibilidade de ele ter perdido o irmo. Nessa situao, 
os sentimentos que tinham uns pelos outros haviam amadurecido.
      Ronny viera  sua casa duas vezes, tentando convenc-la a sair com a turma. Contudo ela simplesmente no tinha vontade e, ao que parece, o rapaz compreendera.
      A Vicki e a Amy tambm pareciam haver compreendido sua depresso. Na segunda-feira, Vicki lhe ligara s 4:00h da tarde, sugerindo que elas se encontrassem 
na Mother Bear. A garota respondera que ainda no se sentia com disposio para isso.
      - Ainda 't esperando que ele telefone? indagou a outra.
      Selena no respondeu. Reconhecia que era uma infantilidade sua ficar esperando que o telefone tocasse, quando poderia muito bem sair e se divertir, agora que 
estava formada.
      - J recebeu alguma notcia? Sabe se ele j chegou a San Diego? Quero dizer, chegou bem em casa?
      - No estou sabendo de nada. Acho que Tnia ainda no chegou l, mas amanh vou ligar pra ela.
      - 'T. E voc acha que a gente pode se reunir na quarta-feira? perguntou Vicki. Nesse dia, s vou trabalhar na parte da tarde. Que tal se a gente se encontrasse 
pra tomar o caf da manh?
      - 'T bom, concordou Selena.
      Agora j era quarta-feira, e ela estava indo se encontrar com as amigas, para o caf da manh. Ainda no havia recebido nenhuma notcia de Paul. Deixara recados 
para Tnia na secretria, mas a irm tambm no retornara a ligao. Selena achava que ela devia ter ido fazer as fotos em alguma outra cidade. Pelo que sabia, era 
possvel at que o Paul ainda estivesse em Londres, esperando receber o passaporte novo.
      De certo modo, ela j superara a turbulncia emocional do final de semana e sentira que "crescera" nesse processo. Dormira muito nos ltimos dias e pensara 
bastante sobre a vida e a morte, o amor e o sofrimento. Escrevera muito em seu dirio. Lera muito a Bblia tambm e conversara bastante com seu pai.
      Quando chegou  confeitaria Mother Bear, suas amigas j a aguardavam, na mesinha do canto, junto  janela, que era a predileta das trs. S de ver o rosto 
sorridente das duas ao entrar na loja, sentiu seu esprito se reanimar. Nesse momento, entendeu que no havia nada melhor nesta vida do que ter amigos fiis que 
se colocam ao nosso lado quando precisamos deles.
      Antes que chegasse  mesinha, D. Amlia, que estava atrs do balco, lhe fez um aceno e chamou-a.
      - D uma chegadinha aqui?
      Selena foi para a caixa registradora, onde ela se encontrava. Naquele instante, no havia clientes ali aguardando os pezinhos de canela.
      - Eu ia ligar para voc, ento que bom que veio aqui hoje. Ontem, a Jody me avisou que vai sair.
      - Oh, que pena! Vou sentir falta dela.
      - , replicou D. Amlia, ns todos vamos sentir. Mas agora teremos a muitas horas vagas. E eu quis lhe falar isso, porque voc me disse que queria trabalhar 
umas horas extras nestas frias.
      - timo! Quero sim! Posso pegar todas as horas que a senhora puder me dar. Mas a senhora est lembrada de que vou trabalhar at no mximo dia catorze de agosto, 
n?
      - Estou. E vou sentir muito a sua falta tambm. Mas daqui at l, posso lhe dar a maior parte das horas de Jody. Assim pode ganhar um dinheiro a mais para 
suas despesas na faculdade.
      - Muito obrigada, D. Amlia!
      - De nada! respondeu D. Amlia sorrindo. Vai tomar o mesmo ch de hortel hoje?
      Selena fez que sim e foi se sentar com as amigas.
      - Vocs j pediram?
      - J. Pedimos um pozinho de canela para cada uma, informou Amy. D. Amlia disse que vai sair uma fornada quentinha daqui a alguns minutos. Ento estamos esperando.
      - Adivinha uma coisa! disse Vicki com um sorriso amplo.
      - No sei, replicou Selena, mas eu tambm tenho uma novidade pra vocs. D. Amlia vai me dar mais horas de trabalho. Isso no  uma enorme "coisa de Deus"?
      - E isso aqui tambm  uma enorme "coisa de Deus", prosseguiu Vicki, ainda sorrindo.
      A garota tirou da bolsa um envelope tamanho ofcio. Antes mesmo que Selena visse o timbre, entendeu tudo.
      - Voc tambm foi aceita na Rancho Corona! exclamou, passando os braos em torno da amiga. Eu sabia! Eu sabia!
      Vicki riu.
      - Como  que voc sabia?
      - Por que eles no podem nos separar. Precisamos muito umas das outras.
      Contudo, assim que Selena terminou a frase, compreendeu que exclura a Amy, quando dissera "ns". Ento logo se corrigiu:
      - Quero dizer...
      - Tudo bem, disse a outra. Eu tambm tenho uma "coisa de Deus" pra contar a vocs.
      Vicki e Selena ficaram a esperar. Amy nunca usara essa expresso "uma coisa de Deus" relacionada com nada de sua vida.
      - Ontem eu mandei minha inscrio pra Universidade Rancho Corona, informou ela. Acho que penso igual a voc, Selena. Eles no podem nos separar. Alm disso, 
j esqueci quais eram os motivos por que eu no queria estudar numa faculdade evanglica.
      Selena e Vicki saltaram da cadeira e se puseram a abraar a amiga, falando todas ao mesmo tempo. Nesse instante, D. Amlia chegou com os pezinhos de canela, 
e as trs voltaram a se sentar.
      - Sabe o que mais? perguntou Amy. Gente, eu sinto que mudei tanto nesses ltimos... Ei! Faz quantos dias que fiz aquela orao com vocs? Cinco? Seis dias? 
Sinto que... sei l... parece que me reencontrei!
      - Que maravilha, Amy! exclamou Selena. E tenho a impresso de que, nesses ltimos dias, eu tambm estava fazendo uma sondagem da alma. No sei se j me reencontrei, 
mas estou quase.
      - Quando tiver notcias do Paul, interps Vicki, e souber que tudo est bem com ele, voc vai se sentir melhor.
      Selena concordou, pegou um pedao do pozinho quente e ps na boca. Percebeu que um pouco da cobertura aucarada ficou grudada em seu lbio e limpou-o com 
um guardanapo. Nesse momento, olhou para fora e avistou sua me, que vinha em direo  confeitaria, trazendo algo na mo. Assim que ela entrou, a garota logo indagou:
      - Algum problema, me?
      D. Sharon sorriu.
      - No, replicou. Chegou isto pra voc pelo correio.  do Paul. Vou ser sincera. No consegui esperar voc chegar em casa pra abrir.
      As trs deram risada. Selena pegou o envelope, que dava indicao de ser uma encomenda expressa internacional. Com um sorrisinho maroto, falou:
      - Quem disse que vou abrir na frente de todo mundo aqui?
      As outras logo comearam a protestar, todas ao mesmo tempo.
      -'T bom, 't bom, disse ela. Mas antes vou ler em voz baixa, s pra mim.
      Retirou dele uma folha de papel timbrado, com o nome de um hotel: The Edwina Courtyard. Correu os olhos por ele rapidamente. A carta dizia que havia algo mais 
dentro do envelope. Pegou-o. Era um objeto pequeno e bem fino, embrulhado em uma folha de papel de seda.
      - O que  isso? indagou Amy.
      - Que  que diz na carta? quis saber Vicki.
      Selena no respondeu e continuou abrindo o embrulhinho. Era uma longa correntinha com um pingente de prata
      - Um lrio! exclamou D. Sharon, estendendo o brao para tocar de leve na delicada jia.  lindo, Selena!
      - Pe no pescoo, sugeriu Amy.
      A garota enfiou a correntinha pela cabea e ajustou o pingente, de modo que as linhas da flor ficassem  vista. Deu um sorriso para a me e para as amigas.
      - Querem que eu leia a carta?
      - Ah, precisa no, replicou Vicki em tom brincalho.
      - Eu quero, respondeu a me, aproximando-se mais dela.
      Ento ela leu:
      
      Cara "princesa dos lrios",
      Que final de semana conturbado! Sinceramente, desejo que o seu tenha sido melhor. , mas, depois que fiquei sabendo do acidente em Seattle, acabei achando 
que o que passei aqui no foi to ruim assim. Voc acredita que Deus s vezes permite que passemos por situaes desagradveis para evitar outras muito piores? Nestes 
ltimos dias, aprendi tantas lies! Estou convencido de que quando pertencemos a Deus, ele no deixa que nada nos destrua, enquanto no completar sua obra em ns. 
 verdade que podemos sofrer males. As tempestades desabam sobre ns, sim. Mas nenhuma de suas ovelhas se acha fora das vistas dele.
      Estou lhe enviando um presentinho de formatura. Mandei fazer na cidadezinha onde minha av mora. Como pode ver,  um lrio. Simboliza sua personalidade destemida, 
Selena, isto , esse seu jeito de sempre expressar a verdade. Pedi uma correntinha bem comprida, para que o pingente fique perto do seu corao.
      Tenho de dizer-lhe algo. Eu pretendia comprar uma caixinha e fazer um embrulho de presente direitinho. Entretanto, como no tinha caixa, pendurei-o no meu 
pescoo quando estava andando aqui em Londres.  uma das poucas coisas que os ladres no levaram.  que eu o estava usando por baixo da camisa, perto do corao, 
e eles no viram.
      - Oh! exclamou Vicki, dando um suspiro.  a carta mais romntica do mundo, Selena! Que maravilha que no roubaram o pingente, hein?
      Elas se entreolharam com expresso de admirao.
      - Tem mais aqui, disse Selena, continuando a ler.
      
      Como no vou mais passar por Portland, queria que esta jia chegasse s suas mos o mais rpido possvel e da forma mais segura. Por isso, estou enviando daqui 
de Londres, enquanto espero que me entreguem meu passaporte. Houve um probleminha com meu visto, pois durante este ano que passei na Esccia, eu estava com visto 
de estudante.
      Assim que chegar em casa, telefono para voc. Ento, at l, e que a paz do Bom Pastor esteja com voc.
      Com muita esperana e carinho,
      Paul
      
      Selena ergueu o rosto. D. Sharon, Vicki e Amy a fitavam com expresso de ternura.
      - Estou com vontade de chorar, disse a me.
      A garota ficou um pouco envergonhada. At esse dia, nunca lera nenhuma das cartas de Paul para sua me. Nesse instante, veio-lhe  mente uma indagao. Ser 
que Paul se importaria de ela ter lido aquelas palavras to pessoais, que ele escrevera com tanto carinho, para aquelas trs ali, num lugar pblico? Agora era tarde 
demais. Abaixou a cabea e passou o polegar de leve sobre o lrio de prata.
      -  lindo, no? disse.
      Vicki inclinou-se, aproximando-se mais dela para admirar o presente.
      - Selena, disse, pode esquecer tudo que eu e a Amy lhe falamos sobre rapazes. O que aprendemos com nossos namorados no vale nada. O modo como voc est agindo 
com Paul est dando certssimo.
      - Como assim "agindo"? Eu no estou fazendo nada! replicou a garota. Quero dizer, s orando. Vocs sabem disso. Oro por ele desde o dia em que nos conhecemos.
      Amy deu um sorriso.
      - , disse ela, aposto que nestas frias a Vicki vai melhorar bem nessa questo. Vai orar muito mais.
      Vicki deu uma risada.
      - E quem sabe o Ronny me manda pelo correio uma palheta que usava para palitar os dentes? A ns vamos ter certeza de que a frmula da Selena d certo mesmo.
      Todas caram na gargalhada, e D. Sharon disse:
      - Vocs esto brincando, no esto? Sabem muito bem que, no que diz respeito ao amor, no nenhuma frmula mgica. O fato de orarem por um rapaz no significa 
que ele, de repente, vai se interessar por vocs.
      - Oh, me! interps Selena, dobrando a carta e guardando-a de volta no envelope. Estamos brincando.
      - , sei, respondeu a me, dando um sorriso. Mas quis me certificar de que estavam mesmo. Bom, acho que tenho de ir embora.
      - No, D. Sharon, disse Amy. Fique aqui!
      - , fique sim, concordou Vicki.
      Selena ergueu-se rapidamente.
      - 'Pera a, disse. Vou buscar um pozinho de canela e um copo de leite pra senhora.
      - Desnatado, viu? interps a me.
      - 'T bom! falou ela irnica. Leite desnatado e um pozinho de canela com cinco mil calorias!
      E foi andando para o balco, rindo. Enquanto caminhava sentia o pequenino pingente batendo de leve em seu peito. Apalpou-o novamente, sentindo-se leve, feliz 
e bem destemida, como o lrio que Paul vira certa vez, ao fazer caminhada.
      De repente compreendeu que agora no se importava mais de quase ter morrido de ansiedade durante o final de semana. Paul tinha razo. As tempestades desabam 
sobre ns, sim. Mas, depois delas, vem uma calmaria suave e tranquila, como a que Selena experimentava nesse momento. E em meio a essa calmaria, compreendeu que 
estava bem perto do seu Bom Pastor, mais perto que nunca.
      
      
Fim
      
* Nos Estados Unidos, o ingresso em universidades no se d por meio de exames vestibulares, como no Brasil. L os candidatos fazem um requerimento para a faculdade 
em que desejam estudar, enviando seu histrico escolar e mais alguns documentos, e a direo da escola estuda o pedido. Depois delibera se o candidato pode ser aceito 
ou no. Se ele for admitido, a pode se matricular. (N. da T.)
* Tacos - um tipo de fast-food mexicano, muito popular entre os jovens dos Estados Unidos. (N. da T.)
* Magna cum laude, expresso latina que significa "com grande honra", usada para distinguir estudantes que obtm notas mximas. (N. da T.)
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